LUIZ DO COUTO FELIX nasceu em Lisboa a 30. de Agosto de 1642. Sendo regenerado nas aguas do bautismo a 7. de Setembro do dito anno por Sebastiaõ Cezar de Menezes eleito Bispo do Porto. Foraõ seus Progenitores Antonio de Couto Franco Fidalgo da Casa Real, Cavalleiro da Ordem de Christo, e Secretario da Casa de Bragança, e D. Izabel de Carvalhaes Pitta sua segunda mulher filha de Bento de Carvalhaes Machado Cavalleiro Fidalgo, e de Helena de Barboza descendentes de Familias distintas pela pureza do sangue, e antiguidade dos apellidos. Deste consorcio sahio unico filho, cuja singularidade decretada pela natureza a reduzio a merecimento proprio. Ainda naõ excedia a idade da infancia quando mostrou natural inclinaçaõ para a cultura das sciencias vencendo com taõ acelerados progressos as demoras do tempo, que quando contava nove annos sabia perfeitamente a lingua Latina em que foy eminente, e aos onze recebeo o grao de Mestre em Artes na Universidade de Evora donde passando á de Coimbra antes que comprisse vinte se formou na Faculdade de Direito Cezario cauzando tal admiraçaõ aos Mestres, que com repetidas instancias o rogaraõ continuasse a mesma Universidade para lhe dilatar a fama com o seu magisterio. Deixada Coimbra por insinuaçaõ de seu pay como naõ quizesse ter ociozo o seu grande talento se aplicou á noticia das letras humanas, e intelligencia das linguas Grega, Hebraica, Castelhana, Franceza, e Italiana escrevendo em todas com tanta elegancia, e propriedade que cada huma dellas o podia venerar por seu nacional. Da amenidade destes estudos fez tranzito para a severa especulaçaõ da Theologia Escholastica, Polemica, e Moral, da Historia antigua, e moderna assim sagrada, como profana de cujas Faculdades fez erario a sua feliz memoria socorrida com a perspicacia do seu juizo. As mais celebres Academias foraõ theatros da sua vastissima erudiçaõ expondo em a dos Solitarios instituida na Villa de Santarem, quando contava 22. annos, a Cornelio Tacito com profundas ponderaçoens, e illustrando como Mestre e Prezidente a dos Generosos tres vezes renascida de si mesmo em cuja assemblea eraõ todos os Collegas igualmente famosos pela sciencia, que illustres pelo nascimento. Das ascendencias, e allianças das Familias Portuguezas, a cuja investigaçaõ se aplicara, falava com taõ escrupulosa advertencia que valendo-se mais do esquecimento, que da memoria nunca descubrio o menor defeito. A fortuna fatal emula da natureza que o ornara com tantos dotes scientificos, se conspirou contra o seu merecimento naõ ocupando outro lugar que o de Guarda mór da Torre do Tombo em que o proveo ElRey D. Pedro II. a 17. De Dezembro de 1703. Nesta ocupaçaõ exercitada por pessoas da primeira nobreza mostrou a grande esfera do seu espirito restituindo a antigua fórma muitos documentos quasi consumidos pela voracidade do tempo. Todas as noutes assistia na sua casa grande parte da Fidalguia aprendendo da sua judiciosa conversaçaõ eruditas noticias com que se passava o tempo, e instruia a memoria. Inimigo jurado do ocio como independente das pensoens da natureza furtava muitas horas ao sono para o aproveitar na liçaõ dos livros. Os seus discursos Filosoficos, Politicos, Moraes, e Historicos eraõ formados com estilo claro, e conciso despresando a redundancia por fastidiosa, e a escuridaõ por inutil. Nas materias politicas consultavaõ as pessoas da primeira Jerarchia ao seu juizo por arbitro, e sem preocupaçaõ de lizonja expunha livremente a sua decisaõ que era venerada como de Oraculo. Obrigado de varias achaques, que se faziaõ mais penozos com a idade se retirou para a sua Quinta de Ourem onde com actos Religiosos se preparou para a ultima hora em que foy lograr do premio eterno a 4. de Agosto de 1713. quando contava 71. annos de idade. O seu cadaver se depozitou na Capella mór do Serafico Convento dos Religiosos da Piedade. Foy casado com D. Paula Josefa de Castellobranco filha de Manoel da Cunha Soares Moço Fidalgo, Cavalleiro da Ordem de Christo Senhor do Morgado do Zambujal, e de D. Mariana da Cunha de Castellobranco herdeira do Morgado instituido por Diogo da Cunha de Castellobranco Fidalgo da Casa Real Cavalleiro da Ordem de Christo, e Dezembargador do Paço. Deste consorcio foraõ frutos Antonio do Couto de Castellobranco Brigadeiro, e Sargento mór de Batalha, Cavalleiro da Ordem de Christo, Commendador, e Alcaide mór de Santiago de Cacem, e Senhor do Morgado da Caridade em a Villa de Ourem de quem se fez larga memoria em seu lugar: Jozé do Couto de Carvalhaes que frequentando a Universidade de Coimbra recebeo o grao de Bacharel em a Faculdade de Direito Canonico, e D. Mariana de Castellobranco Religiosa no Serafico Convento de Santa Clara de Santarem. A sua vida escreveo com penna mais difusa, e estilo muy discreto Julio de Mello de Castro a qual sahio impressa ao principio da seguinte obra de Luiz do Couto.

Tacito portuguez, ou Traduçaõ politica dos tres primeiros livros dos Annaes de Cornelio Tacito illustrados com varias ponderaçoens, que servem á comprehensaõ assim da Historia, como da politica. Lisboa na Officina Deslandesiana. 1715. 4.

Castalia Portugueza dividida em 4. Partes. Consta a 1. de Sonetos, e Outavas Portuguezas, e Castelhanas. A. 3. Decimas, Quintilhas, Redondilhas, e Siguidilhas Portuguezas, e Castelhanas. A. 4. Poesias Latinas, Gregas, e Hebraicas, com muitas cartas Latinas escritas ao primeiro Marquez de Alegrete Manoel Telles da Silva, e a D. Francisco Mascarenhas Conde de Coculim. Destas 4. Partes se imprimio a 2. com este titulo,

Affectos, y discursos del arrependimiento. Lisboa por Paschoal da Silva Impressor delRey 1717. 4. Consta de 1500. Coplas Lyricas, em que competem a discriçaõ com a ternura.

Epitafio al Excelentissimo Marquez de Tavora muerto de repente. He hum Soneto. Sahio a pag. 98. do Compend. Paneg. da Vid. e acçoens do Excellentissimo Luiz Alvares de Tavora, Marquez de Tavora. Lisboa por Antonio

Rodrigues de Abreu 1674. 4.

Soneto em aplauso de Manoel de Sousa Moreira, escrevendo o Theatro Historico, e Genealogico da Excellentissima Casa de Souza. Sahio impresso no principio desta obra. Pariz por Ioaõ Anisson 1694. fol.

Historia Regum Lusitaniae. Estava dividida em 3. Partes das quaes a primeira chegava até o Reynado delRey D. Diniz. A. 2. até o delRey D. Manoel, e a 3. até o delRey D. Pedro II. fol. M. S.

Chronica delRey D. Joaõ o IV. Era escrita com estilo elegante, e ao tempo que ja passava do meyo se lhe furtou.

Extractos da Historia dos Gregos. M. S.

Sermaõ da Cinza. 4. M. S.

Sermaõ do Mandato. 4. M. S.

Sermaõ da Soledade da Mãy de Deos. 4. M. S.

Duas Comedias Castelhanas. 4. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]