LUIZ DE CAMOENS Principe dos Poetas Epicos de Espanha sahio á luz do mundo em Lisboa Princeza de todas as Cidades de Portugal em o anno de 1524. E naõ de 1517. como escreveraõ Manoel Correa, e Manoel Severim de Faria na sua Vida por constar da Lista das pessoas que passaraõ militar na India em o anno de 1550. contar 25. annos de idade Luiz de Camoens quando se alistou para esta jornada Foraõ seus progenitores Simaõ Vaz de Camoens Capitaõ de huma Nao da India que lastimosamente naufragou na Costa de Goa descendente de Vasco Pires de Camoens Senhor das Villas do Sardoal, Conselho de Gestaço, Alcaide mór de Portalegre, e Alanquer do Conselho delRey D. Fernando, e D. Anna de Sá, e Macedo igualmente nobre como seu consorte recebendo novo esplendor com a produçaõ de taõ heroico fruto. A perspicacia do juizo, e felicidade de memoria que descubrio na primeira idade foraõ infaliveis vaticinios dos agigantados progressos, que havia fazer na cultura das sciencias que aprendeo em a Universidade de Coimbra penetrando com subtileza os arcanos da Filosofia Peripatetica quando já estava profundamente instruido na Mythologia, e letras humanas. Ainda naõ contava quinze annos, e era taõ copiosa a afluencia poetica que menos a impulsos da Arte que da natureza manava da sua penna, que della começou a formar as azas com que depois se remontou ao cume do Parnasso para nelle ser laureado Principe da Poesia Heroica. Os dotes de seu sublime talento unidos com a nobreza do seu nascimento lhe conciliaraõ na Corte as atençoens das Damas, e como dedicasse com cega idolatria os seus afectos a D. Catherina de Attayde Dama do Paço foy multada a sua adoraçaõ em desterro, de cuja involuntaria auzencia se lamentou enternecidamente em huma Elegia comparando a infelicidade do seu amor á que padeceo por semelhante cauza o Poeta Sulmonense. Penetrado desta adversidade preferio ás delicias de Cupido os horrores de Marte passando á Praça de Ceuta onde obrou açoens dignas de eterna memoria sendo a principal o combate naval que em companhia de seu pay sustentou intrepidamente contra os Mouros de cuja artilharia sahindo huma faisca, o privou do olho direito. Voltando para a Patria, e naõ recebendo o premio devido aos seus merecimentos a deixou com resoluçaõ de nunca mais a ver repetindo para desafogo da sua justificada queixa as palavras de Scipiaõ Africano. Ingrata patria non possidebis ossa mea. Embarcado no anno de 1553. quando contava vinte e outo de idade, em a Nao de que era Capitaõ Fernaõ Alvares Cabral partio para o Oriente que fora o Ocazo de seu pay, e chegando a Goa quando governava o Estado D. Affonso de Noronha o acompanhou na poderosa armada que navegava para socorrer os Reys de Cochim e Porcá contra o Rey da Pimenta em cuja empreza mostrou que a sua espada era igual á sua penna. Em segunda armada expedida no anno de 1555. de que era Capitaõ Manoel de Vasconcellos passou o Estreito de Meca, e nesta viagem descreveo em huma elegante cançaõ o Monte da Arabia Felix. Restituido a Goa para naõ passar a vida em culpavel ocio escreveo huma invectiva contra os custumes licenciosos das principaes pessoas daquella Cidade de que resultou ser desterrado para a China em o anno de 1556. por ordem do Governador do Estado Francisco Barreto dissimulando a propria vingança com este politico castigo. Neste tempo que vagou pelas partes do Sul assistio nas Ilhas de Moluco, e Ternate descrevendo com juizo de Filosofo, e elegancia de Poeta o volcaõ, que rebenta no cume do Monte. Havendo exercitado em Macao o Officio de Provedor mor dos Defuntos se embarcou para Goa com esperança de lograr nella o dezejado descanso, porém a fortuna, que sempre lhe era oposta, permitio que navegando pela Costa de Cambaya naufragasse na foz do rio Meconde de cuja fatalidade se salvou em huma taboa com o seu divino Poema, imitando nesta grande acçaõ a Julio Cesar, que no Porto de Alexandria em huma maõ levava a espada, e em outra os seus Commentarios. Deste tragico sucesso se lembra nos Lusiad. Cant. 10. Estanc. 128.

Este receberá placido, e brando.

No seu regaço o canto que molhado.

Vem do naufragio triste, e miserando.

Dos procelosos baixos escapado &c.

Reparado deste infortunio chegou a Goa no anno de 1561. quando moderava as redeas deste Imperio o insigne D. Constantino de Bragança de quem recebeo naõ vulgares favores. Diferente tratamento experimentou no governo de seu sucessor o Conde de Redondo mandando-o prender por culpas que a enveja, e malevolencia lhe armaraõ contra o desinteresse com que tinha administrado o Officio de Provedor dos Defuntos. Restituido com gloria do seu nome a Goa continuou alguns annos ocupado na metrificaçaõ das suas Poesias que lhe servia de lenitivo as suas desgraças. Desenganado de que a sua fortuna naõ mudasse de aspecto com a mudança do clima resolveo restituirse à patria com intento de oferecer o seu Poema ao Principe que governava a Monarchia Portugueza. Desta resoluçaõ o despresuadio Pedro Barreto que hia para Capitaõ de Sofala instando que o acompanhasse, e para lhe facilitar a vontade lhe emprestou duzentos cruzados para a provizaõ da viagem. Passados poucos mezes arribou em Sofala a Nao Santa Fé em que hiaõ embarcados Heitor da Silveira, Duarte de Abreu, Antonio Cabral, Luiz  da Veiga, e outros Cavalheiros com Diogo de Couto Chronista da India, os quaes gratuitamente lhe ofereceraõ o transporte para o Reyno, e querendo impedir-lhe o embarque Pedro Barreto pela divida dos duzentos mil reis lhos satisfez promptamente Heitor da Silveira mostrando no mesmo tempo a generosidade do seu animo, e a fina amizade que sempre professara a Luiz de Camoens o qual chegou a Lisboa no fatal anno de 1569. em que ardia abrazada de hum mal epidemico. Serenada esta horroroza tormenta, em que naufragou grande parte do Reyno offereceo á Magestade reynante delRey D. Sebastiaõ o Divino Poema dos Lusiadas que lhe tinha custado as vigilias de trinta annos onde se admiraõ exactamente observados os preçeitos que os Legisladores do Parnasso prescrevem para a construçaõ do Poema Epico. Nos seus Episodios se admiraõ pensamentos novos e com tal artificio escritosque juntamente ensinaõ, e deleitaõ, uzando de tropos, e figuras proprias do seu argumento, e variando o estilo humas vezes em grave, grandiloquo, e vehemente; e em outras em florido, brando, e jocozo, sem que a ternura dos afectos afrouxe a valentia dos conceitos, nem o estrondo das armas perturbe a consonancia das vozes. Imitando fielmente aos Principes da Poesia Grega, e Romana os excedeo na multiplicidade de linguas em que foy traduzido o seu Poema pertencendo com ambiciosa emulaçaõ as mais polidas Naçoens, que fosse seu Patricio pela lingua, ja que naõ tiveraõ a gloria de o ser pelo nascimento. Naõ se limitou a extensaõ do seu agudo engenho a hum genero de metro vagou com a mesma elegancia, e subtileza por todos aquelles em que conseguiraõ immortal gloria os mayores Corifeos do Parnasso admirando-se felismente unidas em a sua penna a magestade de Homero, e Virgilio em o heroico; a suavidade de Pindaro, e Horacio em o Lyrico; e a subtileza de Menandro, e Plauto em o Comico. Depois de ter publicado o seu Poema como naõ podesse salvarse dos infortunios a que o condenara o fatal horoscopo do seu nascimento, passou o restante da vida em Lisboa retirado do comercio humano, e somente se comunicava a alguns Religiosos do Convento de S. Domingos de cuja virtuosa practica aprendeo saudaveis documentos, que o foraõ dispondo para acabar piamente a vida. Oprimido da propria miseria, e altamente penetrado do infeliz sucesso delRey D. Sebastiaõ nos campos de Alcaser a quem meditava a sua Musa consagrar hum Poema, adoeceo gravemente, e sendo levado ao Hospital onde se curaõ os pobres jazia como humdelles dezemparado, e aflicto de cujo miseravel estado se lamenta em huma carta ultimo desafogo da sua adversa fortuna. Quem ouvio dizer nunca, que em taõ pequeno theatro como de hum leito quizesse a fortuna reprezentar taõ grandes dezaventuras? E eu como se ellas naõ bastassem me tenho ainda da sua parte porque procurar resistir a tantos males pareceria especie de desavergonhamento. Reduzido á ultima miseria clausulou a vida em o anno de 1579. a tempo que estava tambem agonizante o nosso Reyno. Naõ excedeo a idade de 55. annos que a posteridade converteo em seculos de veneraçaõ ao seu Nome. Teve a estatura mediana, e grossa; o rosto carregado da Testa; o nariz comprido, no meyo levantado, e na extremidade grosso; a falta do olho direito lhe diminuio com excesso a gentileza; o cabello de louro degenerava em asafroado. Foy na conversaçaõ jovial, e discreto porém tanto que chegou á idade mayor emendou as verduras em que brotava a primavera dos annos com taõ madura gravidade que passou a profunda melancolia. Nunca casou deixando a mais nobre descendencia nas produçoens da sua sublime lira sendo estes partos do espirito infinitamente superiores aos do corpo. Foy sepultado na Igreja que juntamente era Parochia do Convento de Santa Anna de Religiosas Franciscanas desta Corte em lugar humilde donde o transferio no anno de 1595. dezaseis depois de sua morte D. Gonçalo Coutinho igualmente illustre pelo esplendor do sangue, que zelo da Patria, para parte mais decorosa qual foy o lado esquerdo da porta principal da dita Igreja e sobre huma pedra lhe gravou o seguinte epitafio.

AQUI IAZ LUIZ DE CAMOENS

PRINCIPE DOS POETAS DO SEU TEMPO:

VIVEO POBRE, E MISERAVELMENTE

E ASSI MORREO

ANNO DE M.D.LXXIX.

Esta campa lhe mandou aqui por D. Gonçalo Coutinho.

Na qual se naõ enterrará pessoa alguma.

A este epitafio se seguio o seguinte que á instancia de Martim Gonçalves da Camara Prezidente do Dezembargo do Paço, e Escrivaõ da Puridade delRey D. Sebastiaõ compoz a elegancia do Padre Matheos Cardozo Lente da primeira Classe das Humanidades em a Universidade de Evora.

Naso Eligis, Flacus lyricis, epigramma te Marcus.

Hic jacet Hero o carmine Virgilius.

Ense simul, calamoque auxit tibi Lysia famã,

Unam nobilitant Mars, & Appollo manu.

Castaliu fontem traxit modulamine, & Indo.

Et Gangi telis obstupefecit aquas.

India mirata est quando aurea carminalucru

Ingenii haud gazas ex Oriente tulit;

Sic bene de patria meruit dum fulminat ense.

At plus dum calamo bellica facta refert.

Hunc Itali, Galli, Hispani vertèrePoetam

Quaelibet hunc vellet terra vocare suum.

Vertere fas, aequare nefas, aequabilis uni,

Est sibi, par nemo, nemo secundus erit.

Passada a dilatada carreira de 136 annos como se convertesse em Coro a entrada da Igreja do Convento de Santa Anna mereceraõ as cinzas deste Homero Portuguez, e Virgilio Lusitano serem respeitadas em taõ illustre clausura onde tantas estrellas, quantas brilhaõ neste Serafico Firmamento formaõ Corte a este Principe do Parnazo, cujo nome sera eternamente venerado nos Annaes da Fama assim como he nos elogios de insignes Escritores celebrada a sua memoria. O insigne Manoel de Sousa Coutinho que nobilitou a sua clara origem quado se adoptou por filho do illustrissimo brazaõ dos Gusmaens o Patriarcha S. Domingos lhe dedicou o seguinte epigramma em que compete a discriçaõ com a elegancia.

Quod Maro sublimi, quod suavi Pindarus, alto

Quod Sophocles tristi naso, quod ore canit.

Maestitiam, casus, horrentia praaelia, amores,

Juncta simul cantu, sed graviore damus. Quisnam Auctor?

Camonius. Unde hic? Protulit illum

Lysia in Eoas imperiosa plagas.

Unus tanta dedit? Dedit, & maiora daturus

Ni celeri facto corriperetur, erat.

Ultimus hic choreis Musarum praesuit:illo

Plenior Aonidum est, nobiliorque chorus.

Flos veteris, virtusque novae fuit ille Camaenae.

Debita jure sibi sceptra poesis habet.

In Lusitanos Heliconis culmina tractus

Transtulit antra, Lyras, serta, fluenta, Deas.

Currere Castalios nostra de rupe liquores

Jussit ab invito prata virere solo.

Cerne per incultos Tempe meliora recessus,

Cerne satas sterili cespite, veris opes.

Omnibus occidui rident tibi floribus horti,

Non ego jam Lysios credo sed Elysios.

Orpheus attonitas dulci modulamine cautes

Traxit, & ab Stygio. squalida monstra foro.

Thessalicos Lodoice sacro cum flumine montes

Pieridumque trahis, Caeelitumque choros.

Sunt maiora tuae Orphaeis miracula vocis,

Attica, quid faceres si tibi lingua foret.

O celebre Poeta Diogo Bernardes seu contemporaneo, lhe fez o seguinte Soneto.

Quem louvará Camoens, que elle naõ seja

Que naõ vè que em vaõ cãça engenho, e arte;

Elle a si só se louva em toda a parte,

E toda a parte elle só enche de enveja.

Quem juntos n’um espirito ver deseja

Quantos dous entre mil Febo reparte

Quer elle de Amor cante, quer de Marte

Por mais naõ desejar elle só veja.

Honrou a patria em tudo imiga sorte

A fez com elle só ser encolhida

Em premio de estender della a memoria.

Mas se lhe foy fortuna escaça em vida,

Naõ lhe póde tirar depois da morte

Hum rico emparo de sua fama, e gloria.

Torquato Tasso Rhim. part. 3. fol. 111.

Vasco le cui felice ardite antene

Incontro al sol che ni riporta il giorno

Spiegar le vele, e fer colà ritorno,

Ne egli par, che di cadere, accenne.

Non piu de te per aspro mar sostene

Quel che fece al Ciclope oltraggio, e scorno

Ne chi turbò l’Arpie nel suo soggiorno,

Ne die piu bel subjetto a corte penne.

Et hor quella del corto, i buon Luigi

Tant’ oltre stende il glorioso volo,

Che i tuoi spalmati legni andar men lunge

Ond’ a quelli, a cui s’alza il nostro polo,

Et a chi ferma incontra i suoi vestigi

Per lui del corso tuo la fama aggiunge.

Manoel de Faria e Souza. No fim do Elog. de Luiz de Camoens impresso ao principio do Commento das Lusiad. lhe fez este Soneto.

Si a escrivir tu pluma aspira

Y si espirando no escrive

Toda Musa por ti vive,

Y toda contigo espira.

Siempre suena, siempre admira,

Nunca su valor prescrive

Tu aliento, o mano cultive

Ya la Tuba, yà la Lira.

Bien por el orbe está llano

Que Apolo en el se escusara

Tiniendote Apolo hispano:

Que el mundo si se repara

Cada rasgo de tu mano

Es un rayo de su cara.

Lope da Vega. Laurel de Apollo Silva 1.

Y al divino Camoes

En Indianos Aloes

Que riega el Indo, y produse Hidaspes

Durmiendo en bronzes, porfidos, y jaspes.

Fortuna estraña que al ingenio aplico

La vida pobre, y el sepulcro rico.

P. Antonio dos Reys Enthus. Poet. n. 1.

Prima tenet coram Phaebo subsellia, fronde

Tempora succinctus viridi Camonius Ensis,

Haud semel occiso quondã madefactus ab hoste

Accinctus lateri est: doctam tenet inclyta pennam

Dextera, divinum gestatque sinistra Poema,

Lusiadae inscriptum, quo nil praestantius orbe

In toto Latium vidit, nec Achaica tellus.

Aos aplausos metricos correspondem os Oratorios. Macedo Flor. de España. Cap. 8. Excel. 9. en sus Poesias vencio senàladamente a Lucano, Silio Italico, Ovidio, Ariosto, Stacio, Claudiano, y quando mucho se le igualaron. Homero entre los Griegos, Virgiiio entre los Latinos, y Torquato Tasso entre los Italianos quanto, y mas que en muchas cosas  se aventajo a estos. Camargo Chronolog. Sacra al año 1579. Classe 16. cantò con admirable espirito el passage de la Religion Catholica desde el Occidente al Oriente. Thomaz de Pined. In Stephan. de urbibus. p. 507. n. 15. Lositanorum Poetarum Phaenicem, ingeniosissimum Poetam, & Lusitanum olorem. & pag. 427. n. 21. Quod Lusitanos olor graphice expressit Lusiad. Cant. I. & vere cantu, cujus suavitate, & dulcedine nemini Poetarum cedit, imò omnes superet. Faria Epit. das Hisp. Portug. Part. 3. cap. 15. n. 43. el mejor Poeta de Europa para que ya en la mejor prosa, y en lo mas alto rerso tuviesse este glorioso Princepe (D. Manoel) la ventura de Achiles, y no la embidia de Alexandro, e na Vida do mesmo Poeta impressa no principio do Comment. das Lusiadas. n. 31. Fue nobilissimo Cavalhero, clarissimo Poeta, valiente Soldado de custumbres correspondientes a sus calidades. Macedo Domus Sadica. pag. 9. Hispanicorum Poetarum Princeps. Lourenço Gracian Arte de Ingen. Disc. 37. el siempre agudo  Camoens. Disc. 22. el immortal Camoens. Disc. 24. Grave, e subtil Camoens. Freitas de Just. Imper. Lusit. cap. 3 . n. 12. Homerum Lusitanum. Bernardes Floresta Tom. I. pag. 328. Portuguez Homero. Barrios Prolog. ao Coro das Musas. Corifeo de los Poetas Lusitanos. Toscano Paralel. De Var. illustr. cap. 78. o grande Camoens, e cap. 12. Poeta Principe. Bruchard Mencken Bib. Vir. milit. illustr. p. 166. Virgilius Lusitanornm cui de poetica facultate dubium facere principatum in Lusitania ausius est nemo. Baillet Jugem. des Scavans Tom. 6. pag. mihi 441. avoit un genie tout a fait extraordinaire; il etoit nè Poete; il avoit l’esprit vif, sublime, net, abondant, aise, e prompt a tout ce qu’il vouloit. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. p. 20. col. 1. ingenium in paucis excellens, & ad Poesim vere natum, facile, copiosum, sublime, vividum, & quod omnia mentis cogitata (erant autem haec plurima, insigniaque) dissertissimis atque animi plenis exprimeret sive Lyricis, sive epicis versibus. Manoel Severim de Faria Vid. de Camoens pag. 115. Naõ ha nas letras humanas lugar insigne de Fabula, antiguidade de Historia, Mathemathica, e qualquer outra sciencia que nelle se naõ achem e pag. 135. Com razaõ nos podemos consolar da contraria fortuna, que o nosso Poeta padeceo em vida pois alem de ter nella por companheiros aos mais illustres varoens da antiguidade, naõ lhe vay ficando depois da morte inferior nas honras da sepultura, na authoridade das estatuas, na dilataçaõ da fama com a qual he celebrado por todo o mundo em tantas linguas dos milhores Poetas Historicos, e Oradores de maneira que sua gloriosa memoria durará igualmente com os seculos vindouros. Carlos Ant. Paggi na Dedicatoria dos Lusiadas traduzida por elle na Lingua Italiana, diz ser ella obra nel Assunto dignissima, e curiosa; facilissima nello stile; nella fraze elegante; nelle Allegorie profunda; nelle moralità soda; nella eruditione esquesita, negl. Episodi adorna; nelle metafore parca, nelle Hiperboli abstinente; ne costumi essemplare, nella Religione pia, nella Tessitura incomparabilmente ingegnosa, & in somma una Idea stessa de ttute le perfezioni. Niceron Mem. des Hom. Illust. Tom. 37. pag. 255. Il etoit d’une affabilite charmante agreable dans la conversation, genereux envers ses amis  modeste par rapport a son proprie merite, aimant celui des autres brave sans afectationet constant dans l’adversitè. O P. Renato Rapin Jesuita Reflect. sur la Poetiq. I. Part. reflect. 27. indiscretamente censura ao nosso Poeta de escuro nas suas expressoens, sendo o seu estilo claro, fluido, e natural do qual naõ podia ser arbitro o P. Rapin pela ignorancia que tinha da Lingua Portugueza de cuja injusta critica o argue severamente o P. Niceron no lugar acima allegado pag. 256. Compoz,

Os Lusiadas. Poema Heroico cujo argumento he o descubrimento da India pelos Portuguezes. Consta de 10. Cantos que comprehendem mil e doze outavas. Foy dedicado a ElRey D. Sebastiaõ do qual obteve o privilegio para a sua ediçaõ passado a 24. de Setembro de 1571. e sahio impresso em Lisboa por Antonio Gonsalves 1572. 4. Foy esta obra recebida com tal aplauso do orbe literario que no mesmo anno se reimprimio mais correcta. Cosa que aconteciò rara vez en el mundo, y en Portugal ninguna màs de esta. diz Manoel de Faria e Souza na Vid. de Cam. impressa ao principio do Comment. das Rimas n. 27. Multiplicadas se seguiraõ as ediçoens deste Poema sendo as principaes. Lisboa por Manoel de Lyra 1597. 4. & ibi por Pedro Crasbeck 1607. Dedicado á Universidade de Coimbra, & ibi pelo dito Impressor 1609. Dedicado a D. Rodrigo da Cunha Deputado do Santo Officio que depois subio ás Mitras de Portalegre, Porto, Braga, e Lisboa. Em Lisboa por Lourenço Crasbeeck 1633. 24. Ibi por Pedro Crasbeeck 1651. 24. Ibi por Antonio Crasbeeck de Mello 1669. 4. com os Argumentos aos Cantos de Joaõ Franco Barreto, e no fim com as declaraçoens dos Nomes proprios, e Fabulas; & ibi por Antonio Crasb. de Mello 1670. 16. Foy este Poema illustrado com doutissimos Commentos por diversos Authores, sendo o primeiro Manoel Correa Licenciado em os Sagrados Canones, Examinador Synodal do Arcebispado de Lisboa, e Cura de S. Sebastiaõ da Mouraria na mesma Cidade, grande amigo de Camoens, cuja obra publicou Pedro de Mariz em Lisboa por Pedro Crasbeck 1613. 4. e lhe acrescentou algumas Notas como diz no Prologo Fazendo hora imprimir com curiosidade, e procurando, que algumas cousas que os muitos curiosos diziaõ faltavaõ neste Commento antes, que se imprimisse, se naõ achem agora menos nelle. Principalmente em alguns lugares athe hora naõ entendidos, ou interpretados contra o verdadeiro intento do Poeta para o que o mesmo Commentador me tinha dado licença, sem a qual póde ser, que lhe naõ metera a maõ em sua sementeira. Sahio reimpresso em Lisboa por Jozé Lopes Ferreira Impressor da Rainha N. Senhora 1720. fol. O segundo Commentador foy o grande Manoel de Faria, e Sousa Cavalleiro Professo da Ordem de Christo cujo Nome basta para seu elogio, o qual com a vastissima erudiçaõ sagrada, e humana de que era ornado, difuzamente illustrou este Poema cujo trabalho lhe levou o largo espaço de 25. annos. Sahio em Madrid por Juan Sanches 1639. fol. 2. Tom. Ultimamente Ignacio Gracez Ferreira Conego Penitenciario na Cathedral de Lamego muito perito nos perceitos da Poesia publicou com humas eruditas annotaçoens a este Poema em 2. Tomos de 4. impresso o 1. Napoles na Officina Parriniana 1731. e o 2. Roma na Officina de Antonio Rossi 1732. Entre estes Commentadores se podem numerar Diogo de Couto Chronista mór da India, Luiz da Silva, e Brito, Prior da Parochial Igreja do Santo Milagre de Santarem cujas obras ficaraõ M. S. como tambem o largo Commentario ao mesmo Poema de Matheos da Costa Barros que no Discurso Apologetico, e Critico pela Ave Feniz que sahio em Lisboa no anno de 1745. Afirma no principio que o primeiro Tomo andava peregrinando pelas licenças como certamente vimos. Para se dilatar a magestade deste Poema pela circumferencia de todo o mundo se empenharaõ grandes engenhos a traduzillo nas linguas mais polidas da Europa, e começando pela mais nobre o verteo na Latina o Illustrissimo Bispo de Targa D. Fr. Thome de Faria. Olyssipone apud Giraldum à Vinea 1662. 8. onde no frontispicio expressa o seu Nome contra o que escreveo Ignacio Gracez Ferreira Apparat. Prelim. á Lusiada de Camoens. cap. 5. enganado com o que leu no Prologo da Traduçaõ Italiana deste Poema feita por Carlos Antonio Paggi que cahio em semelhante erro. No mesmo idioma o traduzio André Bayaõ celebre Filologo, e Mestre de Rhetorica em o Collegio dos Gregos em Roma. O Original se conserva na Bibliotheca Romana n. 25. no archivo dos M. S. da Basilica de S. Pedro como escreve Montfaucon Bib. M. S. Tom. 1. pag. 179. Desta traduçaõ transcrevemos os primeiros versos no lugar em que se falla de André Bayaõ. Outra traduçaõ Latina em verso heroico fez Antonio Mendes Mestre insigne de Grammatica a qual vio Ioaõ Franco Barreto e o affirma na Bib. Portug. M. S. e della se fez mençaõ quando tambem se fez de Antonio Mendes. Excedeo incomparavelmente a estas versoens Latinas a que compoz em nove mezes o insigne Fr. Francisco de Santo Agostinho Macedo por insinuaçaõ do Marquez de Niza D. Vasco Luiz da Gama Embaixador extraordinario á Corte de Pariz, quinto neto do insigne Heroe assumpto do Poema traduzido cuja versaõ vimos escrita em dous Tomos de 4. grande em que correspondia cada verso Latino a outro Portuguez. A primeira Outava por onde principia o Poema se póde ler no lugar em que se falla de Fr. Francisco de Santo Agostinho Macedo e outras muitas estaõ impressas no Propugn. Lusit. Gallicum do dito author a pag. 102. 109. 118. 158. 169. 161. 166. 174. 195. 199. Na lingua Castelhana foraõ tradutores deste Poema Bento Caldeira Portuguez  assistente em Madrid sahio Alcala por Iuan Gracian. 1580. 4. Luiz Gomes de Tapia natural de Salamanca ibi por Iuan Perier 1580. 8. com algumas Notas, e Henrique Gracez natural da Cidade do Porto. Madrid por Guillielmo Dravi 1591. 4. No mesmo idioma foy traduzido por Manoel Correa Montenegro, e D. Francisco de Aguilar cujas versoens vio Manoel de Faria e Sousa como escreve na Vid. de Camoens impressa ao principio do Com. das Lusiad. n. 39. Na lingua Italiana o traduzio Carlos Antonio Paggi de Naçaõ Genoves, e morador em Lisboa onde sahio na Officina de Henrique Valente de Oliveira 1659. 12. Na Franceza sendo traduzido por hum Anonimo, (como escreve Baillet Jugem. des Scavans Tom. 6. pag. Mihi 442.) ha mais de cem annos, sahio modernamente illustrado com Notas a cada canto por Monsiur Duperron de Casterá em tres Tomos de 12. Pariz 1735. Na lingua Ingleza por Richardo Fanshau. Londres 1655. fol.

Rimas. Lisboa por Manoel de Lira 1595 4. Foraõ publicadas por industria de Fernando Rodrigues Lobo Surupita grande Jurisconsulto, e naõ menor Poeta. Passados menos de vinte annos se consumiraõ quatro ediçoens pois no de 1614. publicou Domingos Fernandes a 5. dizendo no Prologo. Nesta quinta Impressaõ naõ acrecento as muitas obras, que minha deligencia tem alcançado, e junto dos mais certos originaes nunca impressos porque em segunda Parte destas Rimas que fico imprimindo sahiraõ á luz em breve tempo. Cuja promessa dezempenhou no anno de 1616. depois sahiraõ em Lisboa por Antonio Alvares 1621. 4. ibi por Lourenço Crasbeeck 1623. 24. 2. Tom. ibi por Pedro Crasbeeck 1645. 12. ibi por Antonio Crasbeeck de Mello 1663. 12. & ibi pelo dito Impressor 1666. 4. Consta de 3. Partes & ibi pelo dito Impressor 1670. 16. Foraõ eruditamente commentadas por Manoel de Faria, e Sousa em dous volumes de folha sendo o 1. impresso Lisboa por Theotonio Damaso de Mello 1685. e o segundo ibi na Officina Crasbeeckiana 1689. O grande Jurisconsulto Ioaõ Pinto Ribeiro Dezembargador do Paço fez hum douto Commento a estas Rimas de cuja obra fazem mençaõ Faria na Vid. de Cam. da Mon. Lusit. e o Padre Fernaõ Guerreiro Coroa de esforçad. Caval. Part. 2. cap. 3.

Auto dos Amphitrioens. He traduçaõ de Plauto.

Auto de Filodemo.

Hum, e outro sahiraõ impressos na 1. Parte dos Autos, e Comedias Portug. Lisboa por Andre Lobato 1587. 4. o 1. a fol 86. e o 2. a fol. 14. vers.

Parnasso. Esta obra participou Luiz de Camoens a Diogo de Couto Chronista mór da India em o anno de 1568. como escreve na Decad. 8. cap. 28. dizendo que era ornada de erudiçaõ varia, especulaçaõ Filosofica, e doutrina moral. Desta obra se lembra Manoel de Faria Parte 2. da Fuent. de Aganip. nas Advert. á Fabula de Gelia, e Flaminia n. 5. e na Asia Portug. Tom. 2. Part. 3. cap. 4. n. 15.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]