D. LUIZ DE CERQUEIRA. Teve por patria a Villa de Alvito da Provincia Transtagana e por Pays a Pedro de Cerqueira, e Antonia Souda ambos descendentes de Familias nobres. Estudando em a Universidade de Evora os rudimentos Gramaticaes recebeo em o Noviciado da mesma Cidade a roupeta de Jesuita a 14. de Julho de 1566. quando ainda naõ tinha completos quinze annos. Depois de sahir eminente em as letras humanas, e sagradas foy ornado com as insignias Doutoraes de Theologo na Academia Eborense de cujo acto foy seu Padrinho o Senhor D. Alexandre filho dos Serenissimos Duques de Bragança. Para substituto do Bispo do Japaõ D. Pedro Martins da Companhia de Jesus foy eleito por Felipe 2. e sendo constrangido pela suprema authoridade de Clemente VIII. a aceitar esta dignidade foy nella Sagrado em o anno de 1554. pelo Arcebispo de Evora D. Theotonio de Bragança com o titulo de Tiberiades, devendo o mayor afecto a este insigne Prelado pois naõ sómente o manifestou tirando da propria maõ o anel para ornar a sua quando assistio ao seu Doutoramento, mas lhe preparou com generosa profusaõ tudo quanto era necessario para a sua jornada. Embarcouse na armada de que era Capitaõ mór Ayres de Miranda Henriques e chegando a Macao se avistou com o Bispo D. Pedro Martins que com outros Padres fora desterrado pela tyrana impiedade do Emperador Taycosama. Sem horror ao perigo que o ameaçava entrou naquelle vasto Imperio acompanhado do Padre Alexandre Valignano Visitador Geral da Companhia a 5. de Agosto de 1598, e como brevemente sucedesse a morte de Taycosama acerrimo perseguidor da Christandade começou esta a respirar sendo recebido benevolamente por Dayfusama Sucessor do Emperador defunto. Voltando a Nangazachi como lugar mais proprio para os seus ministerios pastoraes celebrava com grande aparato, e pompa os Officios Divinos de cuja devota magnificencia atrahidos os Gentios se convertiaõ innumeraveis ao suave jugo do Evangelho. Prohibio com severas penas aos Portuguezes a venda dos Japoens sendo igual o seu disvelo libertarlos da escravidaõ da alma, como do corpo. Em todas as suas acçoens se admirava summa gravidade como propria do estado Episcopal. Regulava a sua familia como se ainda estivesse recolhido no Claustro da Religiaõ. Aos Clerigos seus familiares dictava Theologia Moral para os habilitar para perfeitos Parochos. Tendo cultivado aquella vasta vinha pelo espaço de desaseis annos lhe sobreveyo a infermidade que o privou da vida originada das aflicçoens, que padeciaõ as suas ovelhas. Tres mezes tolerou constante, e resignado a molestia grave que naõ cedeo á eficacia dos remedios, e recebidos devotamente os Sacramentos espirou placidamente em a Cidade de Nangazachi a 16. de Fevereiro de 1614. Quando contava 62. de idade. Celebraraõ-se em seu obsequio sumptuosas exequias com innumeravel concurso de Christãos, e Gentios atrahidos huns do sentimento, e outros da novidade por serem as primeiras honras funeraes, que se fizeraõ aos Bispos do Japaõ. Sobre a Sepultura se lhe deve gravar este breve, e elegante epitafio composto pela sublime Musa do Padre Bartholameu Pereira Paciecid. lib. 1.

Japponum Antistes jacet hìc Cerquerius, orbis

Servat facta, animum Caelum, Japponia corpus.

De taõ zeloso Prelado fazem honorifica memoria Nadasi Ann. dier. mem. S. J. Part. 1. pag. 102. col. 1. Pinheiro Relac. dela Persec. del Jap. liv. 1. cap. 2. e liv. 3. cap. 26. Crasset Hist. del Igles. del Jap. Tom. 2. liv. 14. §. 30. Faria Asia Port. Tom. 3. Part. 2. cap. onde erradamente lhe chama Bispo da China, sendo do Japaõ. Gusman Hist. de los Mission. de la Comp. liv. 13. cap. 20. Bib. Societ. pag. 560. col. 2. Guerreiro Relac. Annal do Orient. do anno de 1607. e 1608. liv. 3. cap. 2. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. p. 25. col. 2. Fonceca Evor. Glorios. p. 339., e 434. Franco Imag. da Virt. do Nov. de Evor. liv. 3. cap. 19. até 21. e pag. 870. Guerreiro Coroa dos Sold. da Comp. Part. 4. cap. 10. Souza Cathal. dos Bisp. Portug. pag. 179. Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. L. n. 27. Compoz.

Manuale ad Sacramenta Ecclesiae ministranda D. Ludovici de Cerqueira Japonensis Episcopi opera ad usum sui Cleri ordinatum. Nangazachii in Japonia. 1605. 4.

Relaçaõ da gloriosa morte de 6. Martyres que padeceraõ pela confiçaõ da Fé a 25. de Janeiro de 1604. Sahio tradusida em Italiano. Roma por Bartholameu Zannetti 1607. 8. e Panormo por Giovani Antonio de Franceschi 1607. 8.

Relaçaõ da morte de Belchior Bugendono, e Damiaõ cego mortos no Japaõ pela Fé por mandado de Murindono Tirano de Amanguchi escrita a 8. de Março de 1606. ao Padre Geral Claudio Aquaviva. Sahio com outras em Italiano Roma por Bartholomeo Zannetti 1608. 8.

Carta escrita em Nangazachi a 6. de Outubro de 1613. ao Padre Geral Claudio Aquaviva na qual relata o martyrio de 28. Christaõs padecido no Reyno de Yendo em Agosto do dito anno. Sahio com outras em Italiano. Roma por Bartholameu Zannetti 1625. 8.

Manual de Casos de Consciencia tradusido na lingua Japoneza para uso dos Clerigos com hum Tratado da Contriçaõ. Desta obra faz mençaõ o Padre Luiz Pinheiro Relac. de la Perseg. del Japon. liv. 3. cap. 26. pag. 327.

Tractatus de Legibus, & Gratia. M. S. Conserva-se no Collegio de Evora dos Padres Jesuitas.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]