D. LUIZ DE MENEZES Terceiro Conde da Ericeira Commendador das Commendas de S. Cypriano de Angeira, S. Martinho de Frazaõ, e S. Bartholameu da Covilhaã todas da Ordem Militar de Christo. Nasceo em Lisboa a 22. de Julho de 1637. sendo feliz complemento do fecundo thalamo de seus claros Progenitores D. Henrique de Menezes V. Senhor do Louriçal, e D. Margarida de Lima filha dos Condes da Attouguia Joaõ Gonzalves de Attayde, e D. Maria de Castro. No faustidimo anno de 1640. quando contava outo de idade entrou no serviço do Principe D. Theodosio de quem mereceo distintas honras pela gentileza do aspecto, e prespicacia do juizo. Resoluto acompanhar o Vice-Rey Joaõ da Silva Tello Conde de Aveiras no anno de 1650. mudou de resoluçaõ persuadido pelo Conde de Soure D. Joaõ da Costa Governador das armas do Alentejo, e com a disciplina de taõ grande Soldado sahio consumado na Arte militar. Ocupou todos os postos a que foy subindo por antiguidade, e merecimento distinguindo-se nas mais celebres batalhas em que se disputavaõ a liberdade da patria, e o credito da naçaõ como foraõ a de S. Miguel no anno de 1658. a das linhas de Elvas em 1659. a do Ameixial em 1663. E a de Montes Claros em 1665. e nas Conquistas de Evora, e de Valença de Alcantara, e outras socorridas, e expugnadas em cujas heroicas façanhas sendo General da Artilharia passou no anno de 1673. a Governador das armas de Traz os Montes. Igual actividade mostrou no Gabinete, que na Campanha administrando com industria, e desinteresse os mayores negocios em que era consultado por ElRey D. Pedro II. Sendo Deputado da Junta dos Tres Estados foy nomeado em 1675. Vedor da Fazenda da repartiçaõ dos Armazens em cujo ministerio deu claros argumentos da sua grande capacidade assim no dezempenho de muitos milhoens, como na expediçaõ de quarenta Naos para a India em diversos annos com a fortuna nunca experimentada de que alguma se perdesse. Introduzio o comercio das Manusacturas, e a reformaçaõ da moeda de cujos arbitrios se seguiraõ importantes conveniencias ao Reyno. Naõ foy menos respeitado o seu nome na Aula de Minerva, que na palestra de Marte podendo competir a sua espada com a sua penna assim na elegancia da Poesia, como na eloquencia da Historia compondo em hua, e outra Arte de que podia ser exemplar aos seus mais famozos professores. Das linguas Franceza, Castelhana, e Italiana teve perfeita intelligencia as quaes escreveo com pureza, fallou com expediçaõ. Indicios da sua generosa idea saõ a magnifica Livraria que collocou no seu Palacio; o Jardim, em que se admira a fonte de Neptuno obrada pelo insigne Cavalheiro Joaõ Baptista Bernini, e as excellentes pinturas dibuxadas por Carlos Lebrum primeiro pintor de Luiz o Grande em que se representaõ as batalhas onde a sua espada triunfou dos inimigos da Patria. Em remuneraçaõ de ter derrotado com a artilharia o exercito Castelhano na passagem do rio Degebe o fez ElRey entre outras merces Senhor da Villa de Anciaõ, e nella por ordem do mesmo Principe le levantou hum padraõ em cuja dureza se abrio huma inscripçaõ Latina que serve de memorial a posteridade. Tantas açoens gloriosas exercitadas politica, e militarmente em obsequio da Coroa se clausularaõ infelismente, pois preocupado o Conde D. Luiz de profunda melencolia se precipitou de huma janella do seu Palacio da parte do Jardim ás dez horas, e meya da menhaã de 26. de Mayo de 1690. quando contava 58. annos de idade, de cujo precipicio durando vivo poucos instantes, falleceo com grande sentimento da Corte. Foy sepultado na Capella Mór do Convento de N. Senhora da Graça dos Erimitas de Santo Agostinho da qual he Padroeira a sua Exclarecida Casa. Despozou-se no 1. de Mayo de 1666. com D. Joanna Josefa de Menezes sua sobrinha, e herdeira da Casa da Ericeira filha de D. Fernando de Menezes II. Conde da Ericeira Gentilhomem da Camara delRey D. Pedro II. Conselheiro de ERado, e Regedor das Justiças, e de D. Filippa de Noronha Dama da Rainha D. Luiza filha de Fernaõ de Saldanha Commendador de S. Martinho de Santarem, Governador, e Capitaõ General da Ilha da Madeira, e de D. Joanna de Noronha Senhora do Morgado da Azinhaga. Deste matrimonio foraõ produçoens D. Maria Magdalena de Menezes que se recolheo no Mosteiro da Encarnaçaõ de Lisboa, a qual tendo nascido a 22. de Julho de 1676. falleceo a 17. de Novembro de 1735. e D. Francisco Xavier de Menezes IV. Conde da Ericeira de quem se fez larga, e merecida memoria em seu lugar. Celebraõ o seu nome Poetas, e Historiadores com diversos elogios, dedicados huns á discriçaõ da sua pena, e outros ao valor da sua espada. Emman. Ludov. Vit. Princip. Theodos. in Praeloq. n. 19. Plurimis partis victoriis, ac omnium longe maximis tribus postremis clarus Elvensi, Ameixinlensi & Claremontana qua, summam pacis, qua fruimur, felicitatem nobis peperere, & quarum pars magna fuit; ignavum praetesus otium, illustriores que adhuc palmas generosa mente agitans, assuetam Castellanis triumphis triumphis dextram iisdem scribendis accomodat; stylum que ferreum, quo hactenùs strenuos hostes strenuissime pupugit, aureo plane commutat, quo suorum commilotonum inclyta facta de quibus nulla unquam aetas, eo loquente, conticesset, in lucem proferre satagit. Jorge Cardozo Agiol. Lusit. Tom. 3. p. 283. no Comment. de 15. de Mayo letr. L. cujo efforço, e valor intrepido lhe tem adquerido grande aplauzo. Joan. Brochard Bib. Vir. milit. illustr. p. 301. Inter Scriptores Lusitanos locum fere principem obtinet. Fr. Franc. da Nativid. Lenit. Da Dor. p. 317. Aquelle famozo Heroe que igualando-se a si mesmo (por naõ competir com outro) no fino da penna, e no afiado da espada, sendo a sua espada, a mais bem afiada, e a sua penna a mais fina, ou para milhor dizer taõ aguda a sua pena para escrever, como a sua espada para cortar. Sousa. Mem. Hist. e Gen. dos Grand. de Portug. p. 299. Foy muy aplicado ás sciencias, e liçaõ da Historia e no Tom. 5. liv. 6. p. 373. da Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Nos aplaus. Acad. á victoria do Amexial. Laur. Triumph. Epinic. 1. pag. 127

Mars tibi ludus erat semper Ludovice sinistru. Lusiti imperium fortunae; & vulnera Martis Impia; de ludo armoru monumenta triumphi Traxisti, quoties similis data copia ludi.

Quid memorem strages? quid fulmina saeva? quid ignes,

Quos tua dextra minax jecit? quid funera belli? Quid referam, Ludovice, globos? quid dura furentis Vulcani instrumeta loquar? tibi militas ardens Hostis ad excidium Vulcanus, & horrida seper Arma Jovis. Quicuque nece subière, fatenturNon alià cecidisse manu, Ludovice, dedisti

Millia tot laetho quot non dedit ulla triumphãs Ut tua dextra manus semper tibi dextra &c. a pag. 154.

Non te praeteriam fortis, Ludovice, propago

Inclyta Menesiae celeberrima gloria prolis,

Cujus ad Imperium totus Vulcanus in ignes

Saeviit, & plenas flãma crepitante phalanges

Abripuit, dum saeva globos tormenta profundunt.

Hoc si tanta dedit victoria prima trophaeum,

Perge libens: maiora manent te facta per orbem. Manoel de Leaõ Triunf. Lusit. Rom. 21.

He taõ dextro nos tiros de huma penna,

Como sabio em os rasgos de huma lança;

Pois ou ja na campanha, ou ja na Corte

He General sciente, Escritor forte.

Nos Aplauzos Academic. á vitoria do Amexial Certam. 6. Silv. 3. p. 142.

En D. Luiz de Menezes claro el norte

Contemplo de milicia, y de la Corte:

El cantar sus hazañas puede solo,

Pues siendo Marte pude ser Apolo,

Intrepido, y primero al monte sube

La de humo espessa despreciando nube,

Y la continua lluvia de las balas

Pues la fama al subir le diò sus alas,

Los bronzes sirvan a su ministerio

En que mostró tener tan grande imperio,

Y dellos las estatuas se fabriquen

Que en los siglos eterno le publiquen.

Manoel Tavares Ramalhete Juvenil. Cançaõ. 10.

Com naõ menos valor tal se assinalla

No Campo vencedor o graõ Menezes,

Que a espada meneando coruscante

Ninguem se opondo a ella sem provala

Golpe no mesmo instante deu mil vezes

Mil mortes fulminou no mesmo instante.

Compoz.

Compendio Panegyrico da Vida, e acçoens do Excellentissimo Senhor Luiz Alvres de Tavora Conde de S. Joaõ Marquez de Tavora. Lisboa por Antonio Rodrigues de Abreu. 1674. 4. Entre varias Poesias compostas em obsequio do Marquez de Tavora que estaõ depois do Compendio Panegirico se vem alguns versos do Author.

Historia de Portugal Restaurado Tom. 1. Lisboa por Joaõ Galraõ 1679 fol. & ibi por Antonio Pedrozo Galraõ 1710 fol.

Historia de Portugal Restaurado Tom. 2. Lisboa por Miguel Deslandes 1698 fol. Comprehendem estes dous Tomos todas as açoens politicas, e militares sucedidas no Reyno de Portugal desde a era de 1640. em que foy aclamado ElRey D. Joaõ o IV. até o anno de 1668. no qual se celebraraõ as pazes com Castella. O Juizo que o Journal des Scavans de 13. de Janeiro de 1681. fez desta obra he o seguinte Tout est grand dans cette histoire, le sujet, la maniere de l’ecrire, & l’Auteur meme. Le sujet comprend l’ retablissement de la Maison de Bragance sur le trone de Portugal en la persone du Roy D. Jean. 4. La maniere dont elle est traitè, est noble, elevee, enrichi de quantite de reflexions morales, e politiques, e digne d’ un des premiers Ministres de ce Royaume qui asceu joindre a l’ epee, & au moviment des affaires ce quil yà de plus fin, et de plus delicat en cette langue a la quelle il a sceu mesme donner de novelles beautes: aussi est ce une chose asses extraordinaire que dans l’ illustre Maison de cet Auteur on n’ y trove que des persones d’ un gran genie car le Conte D. Fernand son frere Conseiller de Etat travaille actualment a la mesme Histoire en Latin. Madame la Contesse sa femme ècrit fort poliment en Portugais, en Espagnol & en Francois tant en prose quen vers: & ses enfans dans un age on les autres scavent a peine parler passent pour des prodiges d’ esprit. Lenglet de Fresnoy Method. pour etudier la Histoir. Tom. 4. art. 141. fallando da mesma obra Il est rare de voir un homme de condition ecrire aussi bien. O Padre D. Antonio Caetano de Sousa Hist. Gen. da Cas. Real Port. Tom. 5 . liv. 6. p. 218. A intitula admiravel.

Exemplar de Virtudes morales en la vida de Jorge Castricio llamado Scanderbeg Principe de los Epirotas, y  Albanezes. Lisboa por Miguel Deslandes Impressor de Sua Magestade 1688 4.

Relaçaõ do felice sucesso que conseguiraõ as Armas do Serenissimo Principe D. Pedro nosso Senhor governadas por Francisco de Tavora Governador, e Capitaõ General do Reyno de Angola contra a rebeliaõ de D. Joaõ Rey das Pedras, e Dongo no mez de Dezembro de 1671. Lisboa por Miguel Manescal 4. Sahio sem anno da Impressaõ, e sem o nome do Author.

Soneto em aplauzo do Panegyrico Poetico, que dedicou a ElRey D. Pedro II. O Principe Seneschal de Ligne Marquez de Arronches. Lisboa por Miguel Deslandes 1685 fol.

Obras M. S.

Relaçoens militares de algumas Campanhas. 4.

Discursos, e Oraçoens Academicas, e Problemas moraes. 4.

Poesias Castelhanas 1. Parte.

Poesias Castelhanas 2. Parte. Nella estaõ duas Comedias intitulada huma Vencer con la perfeccion; e a outra A mas zelos mas Amor. Com Loas, e Bayles. Fabula de Orfeo. Em 110. Outavas. Reposta pelos mesmos Consoantes a todos os Sonetos de Luiz de Ulhoa.

Papeis Politicos. fol.

Papeis Militares. fol.

Papeis Familiares. fol.

Todas estas obras conserva em seu poder com merecida estimaçaõ o Illustrissimo, e Excellentissimo Marquez do Louriçal bisneto do Author.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]