LUIZ SERRAÕ PIMENTEL filho de Jorge Serraõ Pimentel descendente da antigua, e nobre familia dos Serroens e administrador do morgado de S. Gonçalo da Ameixoeira do termo de Lisboa, e de Anna de Tovar e Miranda. Naceo em Lisboa recebendo a graça bautismal na Parochia de Santa Justa a 4. de Fevereiro de 1613. Na idade da adolescencia estudou as letras humanas no Collegio patrio dos Padres Jesuitas, mas como resolvesse seguir a vida militar se embarcou em o anno de 1631. para a India acompanhando a seu Tio Fernaõ Serraõ em a Nao Rosario a qual avistando a costa de Pernambuco arribou a este Reyno. Observado por elle este successo como infausto presagio determinou servir a Patria na terra, e naõ em o mar, para cujo efeito se aplicou ao estudo das disciplinas Mathematicas que ouvio pelo espaço de dez annos assim dos Mestres do Collegio da Companhia de Jesus, como do Cosmografo mór Valentim de Sá, e tal foy o progresso que fez a sua penetrante comprehensaõ que no anno de 1641. entrou a exercitar o officio de Cosmografo mór por impedimento do Proprietario Antonio Mariz Carneiro do qual aprovou o Regimento de Pilotos comettido ao seu exame quando contava 29. annos de idade. Na prezença dos Vedores da Fazenda, e outros graves Ministros mostrou com evidentes razoens a fallencia da Navegaçaõ de Leste a Oeste que affirmavaõ ter achado Jeronimo Osorio da Fonceca chamado para este fim da India pelo Serenisiimo Rey D. Joaõ o IV, e Jozé de Moura Lobo com aprovaçaõ dos eruditos de Roma, e do Collegio Imperial de Madrid. Teve suficiente noticia das linguas Latina, Franceza, e Italiana, e em todas as partes da Mathematica foy profundamente versado. Sendo Cosmografo mór do Reyno conseguio delRey D. Joaõ o IV. a erecção de huma Aula de Fortificação, e Architectura militar, assim como a havia da Nautica, a qual se fabricou na Ribeira das Naos, e depois se transferio para o Terreiro do Paço onde existe com o titulo de Academia militar, e nella instruio com as suas liçoens a muitos Engenheiros, que serviraõ ao Reyno, e suas conquistas com grande utilidade. Em remuneraçaõ de empreza taõ laboriosa subio a ocupar os lugares de Engenheiro mór do Reyno, e Tenente General da Artilharia com exercicio em todas as Provincias do Reyno. Foy ornado de valor intrepido, e prudente juizo. Na formidavel guerra em que se disputou a liberdade da patria deu claros argumentos da sua animosa fidelidade principalmente no anno de 1658. em que estava sitiada a Praça de Badajos pelo nosso exercito governado por Joanne Mendes de Vasconcellos determinando os sitios para se formarem os aproxes, e no manifesto perigo a que expoz a Vida quando achando-se sem cavalo se meteo intrepidamente entre os inimigos dos quaes triumfaraõ as nossas armas na batalha do Forte de S. Miguel. Igual actividade mostrou no recontro sobre a ribeira do Digebe desenhando com expediçaõ a mayor parte da trincheira com que se cubrio o nosso exercito. Reforçou a Cavallaria com Infantaria na memoravel batalha do Amexial alcançada a 8. de Junho de 1663. conduzindo algumas mangas aos postos, em que se haviaõ dar as descargas. Assistio com desprezo do perigo, e ambiçaõ de gloria aos ataques, e aproxes com que por outo noutes continuas se confeguio a restauraçaõ da Cidade de Evora. Vizitou por ordem real todas as Praças do Reyno devendo-se á sua disciplina a reforma das suas fortificaçoens. Entre estas ocupaçoens militares nunca interrompeo a liçaõ dos livros dos quaes grande parte deixou illustrados de judiciosas anotaçoens. Sempre conservou a convervaçaõ dos homens mais eruditos de seu tempo entre os quaes he digno de memoria o nobre conceito que delle fazia o insigne D. Francisco Manoel de Mello na Carta 62. do livro 3. que lhe escreveo como tambem nas Obras Metricas Viol. de Thal. pag. mihi 156.

Daquelle sabio astuto

Dedalo Portuguez, que hum laberintho,

Naõ só traçou distinto,

Mas traçou como dem glorioso fruto

As plantas, que ja traçou, que ja saõ tantas,

Que Portugal se cobre destas plantas:

Este insigne Luiz, que em paz, e em guerra

He Serrano, que a Corte faz na serra.

Na Academia dos Generosos instituida em casa de D. Antonio Alvarez da Cunha recitou varias liçoens de Mathematica, e explicou o primeiro livro da Pharsalia de Lucano, por cuja cauza o louva segunda Vez D. Francisco Manoel na Ostentaçaõ Encomiastica aos alumnos da Academia p. 257. das Obras Metric. dizendo Aqui achareis os ardentes rubis, que da Arte militar do graõ Vigecio, que para nós descobre, tira, e pule o nosso insigne, e militar Vitruvio, nosso consummadissimo Preceptor o Senhor Luiz Serraõ Pimentel. Recebeo distintas estimaçoens do graõ Duque de Florença Cosme III. quando assistio em Portugal cuja benevolencia continuou restituido aos seus Estados com muitas cartas que lhe escreveo, e livros que lhe mandou. Falleceo infaustamente a 13. de Dezembro de 1679. Quando contava 66. annos de idade expulsando-o da Cella hum Cavallo em que hia montado, junto das escadas da Igreja Parochial da Magdalena, cuja queda o privou dos sentidos. Jaz sepultado no Claustro do Convento de Nossa Senhora do Carmo na sepultura de seus Avôs. Foy cazado com sua Prima Dona Izabel Godines filha herdeira de Manoel Godines de quem teve Jorge Pimentel, Manoel Pimentel, e Francisco Pimentel todos igualmente peritos distinguindo-se o primeiro nas Virtudes moraes, e Christaãs; o segundo nas sciencias; e o terceiro no valor, e disciplina militar. Fazem memoria do seu nome, e erudiçaõ Costa Via Astronom. Part. 1. Trat. 1. cap. 5. pag. 40. Cunha Aplauz. Acad. da Vit. do Amexial pag. 34. e 62. Fr. Manoel de Sá Mem. Hist. da Ord. de N. Senhora do Carm. p. 184. Manoel de Azevedo Fortes no Prolog. do 1. Tom. Do Engenh. Portug. Bluteau Vocab. Portug. e Latin. Verb. Portugal. Compoz.

Roteiro do mar Meditarraneo. Lisboa por Ioaõ da Costa 1675. fol.

Methodo Lusitano de desenhar as fortificaçoens, e Praças Regulares, e irregulares, fortes de Campanha, e outras obras pertencentes á Architectura militar: dividido em duas Partes operativa, e qualificativa. Lisboa por Antonio Cresbeeck de Mello 1680. fol. com estampas.

Arte practica de navegar, e regimento de Pilotos repartida em duas partes. A primeira propositiva em que se contem alguns principios para milhor intelligencia das regras da navegaçaõ. Segunda operativa em que se ensinao as mesmas regras para a practica com os roteiros das navegaçoens das Conquistas de Portugal, e Castella. Lisboa pelo dito Impressor 1681. fol.

Desta obra como de seu Author se lembra o addicionador da Bib. Occid. de Antonio de Leaõ Tom. 2. Tit. 12. col. 184.

Hercotectonica militar. M. S. Desta obra faz mençaõ no Proemio do Methodo Lusitano.

Tratado da Castremataçao, ou Alojamento dos Exercitos. M. S.

Poliorcetica, e Antipoliorcetica em que trata da fortifcaçaõ, Castremataçaõ, expugnaçaõ, e defença das Praças. 4. M. S.

Arx Medicea, sive Epidigma fulgoris Medicei in Geometricis proportionibus, & Symotricis concentibus circa Pentagonicum monimentum mediis, & extremis rationibus stabilitum. Serenissmo Cosmo III. Magno Hetruriae Duci. M. S.

Todas estas obras conserva com a divida estimaçaõ Francisco Luiz Pimentel Fidalgo da Casa de Sua Magestade Cosmografo mór do Reyno e Academico do numero da Academia Real Neto do Author.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]