LUIZ DA SILVA DE BRITO natural da celebre Villa de Santarem sendo filho de Simaõ Caldeira da Silva, e D. Joanna de Brito pessoas de distinta nobreza. Estudou as letras amenas, e severas em as Universidades de Evora, e Coimbra onde floreceo, e frutificou o seu engenho sahindo insigne Poeta, eloquente Orador, profundo Theologo, e excellente Canonista. No tempo, que na Athenas Conimbricense recebeo o grao de Bacharel em Jurisprudencia Pontificia recitou huma Oraçaõ Latina no primeiro de Outubro de 1587. em louvor das sciencias que arrebatou as atençoens dos celebres Cathedraticos Fr. Luiz de Sottomayor, e Bartholameo Filippe Oraculos de Theologia Escholastica, e de Direito Canonico, como tambem do Illustrissimo Bispo de Coimbra D. Affonso de Castellobranco, e todo o Collegio dos Jesuitas confessando naõ haver quem lhe pudesse disputar a primazia ou fosse na eloquencia da fraze, ou na pureza do estilo. Nas Academias instituidas na Cidade de Evora intitulada huma Sertoria em que teve a nomenclatura de Encyclopedico, e na dos Ambientes foy ouvido com geral aplauzo assim na Oraçaõ ligada, como solta. Naõ mostrou menor felicidade de engenho nos estudos severos substituindo em Coimbra a Cadeira de Sexto em que agudamente explicou o Cap. si Pater, e a Materia de Indulgentiis no Tit. de Paenit. & Remissionibus. Naõ cabendo no Reyno a fama da sua litteratura chegou com tal excesso á Corte de Madrid onde assistia o Arcebispo de Evora o Senhor D. Theotonio de Bragança que o mandou chamar a cuja insinuaçaõ promptamente obedeceo, e sendo benevolamente recebido por este Prelado o elegeu seu Ministro que exercitou pelo espaço de onze annos nos lugares de Dezembargador, Juiz dos Rezidos, e Vigario Geral com tanto desprezo da propria conveniencia, como satisfaçaõ de toda a Diocese. Do alto conceito que fazia das suas letras D. Theotonio de Bragança foy herdeiro seu irmaõ D. Alexandre como o fora na dignidade nomeando-o seu Vigario Geral. Vagando neste tempo a Igreja Parochial de S. Mamede em a Cidade de Evora foy nella provido triumfante de diversos oppozitores taõ graves como doutos. Á sua prudente capacidade cometeo a vizita do Convento das Freiras da Ordem militar de Aviz D. Pedro de Sousa sucessor no Arcebispado do Senhor D. Alexandre de Bragança, e ultimamente seguindo os vestigios dos seus Antecessores o Arcebispo D. Joseph de Mello o ocupou nos lugares de Provisor, Chanceller, e Prezidente da Relaçaõ Ecclesiastica. Na diuturnidade larga de 26. annos que servio a quatro Prelados nunca recebeo premio digno dos seus merecimentos antes os lugares que servio foraõ obstaculos para naõ polir as diversas obras com que tanto se illustrara o seu nome em todo o orbe litterario. Entre as virtudes com que se ornou o seu espirito se distinguio excessivamente na fedilidade para com os seus Principes da qual deu hum evidente testemunho na ocasiaõ em que sendo aclamado na sua patria o Senhor D. Antonio Rey desta Monarchia montou a cavallo conduzindo muitos dos seus patricios, e assistio na batalha de Alcantara em que a fortuna se declarou parcial da ambiçaõ Castelhana. Ao tempo que possuia o Priorado da Igreja de Santo Estevaõ de Santarem de que tomara posse a 2. de Março de 1618. falleceo com saudade eterna das suas ovelhas em idade provecta. Jaz sepultado na Capella mór da dita Igreja e na campa tem o seguinte epitafio.

Sepultura do Doutor Luiz da Silva de Brito, Protonotario Apostolico, Conego  enitenciario na Sè de Erora, Vigario Geral, Provisor, e Governador muitas vezes no Arcebispado de Evora por espaço de vinte e seis annos. Falleceo a 19 de …….. de 1630. Compoz.

Miscellaniorum tum in jure, tum in humanioribus disciplinis liber singularis. Constava de 5. Centurias. M. S.

Compendium eruditionis omnigenae. M. S.

Compendium Analyticom diversarum quaestionum. M. S.

Theologia erudita. Constava de muitas Proposiçoens Theologicas sobre as partes de Santo Tomaz ornadas de varia erudiçaõ.

Oratio de Laudibus omnium disciplinarum habita in Academia Conimbricensi Kal. Octob. 1587. M. S.

Oratio in Laudem Patrum S. J. habita Conimbricae 1587. M. S.

Discurso sobre a Poesia recitada na Academia Sertoria instituida em Evora, a 24. de Junho de 1615. M. S.

Practica feita na Entrada de Filippe III. em a Villa de Santarem a 11. De Outubro de 1619. Conserva-se na Livraria do Excelientissimo Conde de Vimieiro.

Oraçaõ sobre o assumpto se hum homem se pode louvar a si mesmo. M. S.

Arte Poetica em que com a doutrina do Aristoteles, e Horacio estabelece as regras verdadeiras do Poema Heroico.

Commento ás Lusiadas de Camoens. Desta obra fazem mençaõ o douto Antiquario Manoel Severim de Faria Chantre da Cathedral de Evora na Vida de Camoens pag. 130. vers. dizendo ser seu author pessoa muito conhecida neste Reyno pela muita doutrina, e qualidades que nella concorrem; e Manoel de Faria, e Souza na Vid. de Cam. impressa ao principio do Comment. das Lusiad. §. 30. e Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. L. n. 49.

Comento ás obras de Fraacisco de Sa, e Miranda. M. S.

Correctiones, & Castigationes in Sidonium Apollinarem. M. S.

Dialogi de re militari. Esta obra tinha principiado seu tio Simaõ de Miranda Henriques.

Carta do Papa Pio II. escrita ao Graõ Turco Mafamede. Traduzida de Latim em Portuguez.

Nottata in leges nonnullas Portugalliae Sacris Canonibus contrariae. Esta obra tinha composto na lingua Portugueza e dividida em 3. Partes o Doutor Francisco Coelho Dezembargador do Paço da qual traduzio a 3. na lingua Latina Luiz da Silva de Brito em 10. de Janeiro de 1600. por ordem do Arcebispo de Evora D. Theotonio de Bragança.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]