D. LUIZ DE SOUZA naceo em Calhariz sumptuosa Casa de Campo situada entre a Villa de Sezimbra, e a Serra da Arrabida. Foraõ seus Progenitores D. Antonio de Souza ultimo filho de D. Francisco de Souza, e D. Leonor de Mello filha herdeira de Francisco de Faria Coelho, e D. Violante de Mello. No bautismo que recebeo a 14. de Mayo de 1637. se lhe impoz o nome de Luiz em religioso agradecimento a S. Luiz Bispo de Tolosa cuja proteçaõ implorara sua mãy, e para se conhecer que lhe fora grata a suplica, naceo aos sete mezes de concebido. Orfaõ de seu pay, que infaustamente naufragara em Cadiz, passou os primeiros annos em companhia de sua mãy, e os da adolescencia em casa de sua Tia paterna. D. Anna Henriques, e de tal modo lhe atrahio o afecto que o deixou herdeiro da sua fazenda. Estudou os rudimentos gramaticaes no Collegio de Santarem dos Padres Jesuitas, e foy admiravel o progresso que nelles fez por beneficio da memoria a qual era taõ portentosa que conservava de cor todos os Authores Classicos que se custumaõ explicar nas Classes, como tambem os Poetas Portuguezes Camoens, e Sá, e Miranda, e os Castelhanos Gongora e Garcilasso. Repetia sem a menor falta a pagina de qualquer livro que duas vezes tivesse lido, e quando se offerecia a ocasiaõ de decidir alguma controversia scientifica mandava buscar á Livraria o Author que della tratava, indicando as folhas e o numero em que estava a reposta. Tendo ouvido Filosofia na Villa de Santarem de Fr. Antonio Correa da Ordem da Santissima Trindade que depois subio a Cathedratico de Prima em a Universidade de Coimbra passou a esta Cidade no anno de 1650. Onde continuou o quarto Curso com o Padre Luiz Alvares da Companhia de Jesus e recebido o grao de Mestre em Artes se aplicou ao estudo da sagrada Theologia a tempo que regentava a Cadeira de Prima Fr. Richardo de S. Victor Eremita Augustiniano o qual inferio da profundidade das duvidas, e agudeza das repostas do novo Candidato o grande aplauso que havia conciliar em taõ sublime Faculdade em que recebeo as insignias Doutoraes. Admetido ao Collegio Real de S. Paulo a 25. De Outubro de 1654. começaraõ a brilhar com tal intençaõ as suas letras que foy provido em huma Conducta com privilegios de Lente a 6. de Novembro de 1658. substituindo a Cadeira pequena de Conceitos onde explicou o Psalmo 116. Laudate Dominum omnes gentes com tanta delicadeza de juizo, e valentia de reprezentaçaõ, que atrahia a maior parte da Universidade para ser expectadora destes sublimes dotes. Da Cadeira de Gabriel, de que tomou posse a 10. de Novembro de 1662. passou á Cadeira de Escoto a 29. de Janeiro de 1664. em cujo anno o nomeou Deputado da Meza da Conciencia ElRey D. Affonso VI. precedendo Exame vago em que adquerio, novos creditos a sua vasta litteratura. Subio á Cadeira de Vespera a 22. de Janeiro de 1666. e como no mez seguinte falecesse a Serenissima Rainha D. Luiza Francisca de Gusmaõ recitou a oraçaõ funebre na lingua Latina com que arrebatou a atençaõ do Auditorio academico. Provido no Chantrado da Diocese de Coimbra regentou a Cadeira de Prima de que tomou posse a 13. de Julho de 1667. E a 11. de Junho do anno seguinte de Deputado da Inquisiçaõ de Coimbra. Nomeado pelo Principe Regente Bispo de Lamego deixou a Universidade excessivamente saudosa da sua eloquente sabedoria, e chegando a Lisboa foy sagrado na Igreja de S. Roque a 12. de Julho de 1671. Por Luiz de Souza Bispo de Hyponia, Capellaõ mor, e depois Arcebispo de Lisboa e Cardial da Igreja Romana. Em todo o tempo que assistio na Diocese de Lamego aplicou o mayor disvello em destruir abusos, remediar necessidades, e promover virtudes. Nas Cortes celebradas em Lisboa no anno de 1674. em que foy jurada herdeira desta Coroa a Princeza D. Izabel Josefa filha do Princepe Regente D. Pedro orou duas vezes com aquella discriçaõ, e energia digna de taõ authorisado Congresso. Restituido a Lamego como o Principe D. Pedro conhecesse o seu grande talento, e naõ menor zelo o nomeou seu Embaxador a Roma elegendo-o ao mesmo tempo Arcebispo de Braga para se oppor fortemente contra as pertençoens dos Christaõs novos propostas com afectados pretextos ao Summo Pastor. Sahio do Porto de Lisboa a 18. de Setembro de 1675. e a 9. de Fevereiro do anno seguinte fez a entrada publica na Corte de Roma com aquella pompoza magestade que elegantemente descreveo em proza, e verso o insigne Fr. Francisco de Santo Agostinho Macedo. Neste Emporio da Christandade manifestou os sublimes dotes de que se ornava o seu espirito promovendo com indefessa actividade, e ardente zelo o principal negocio do seu Ministerio que consistia na controversia agitada entre o Tribunal do Santo Oficio, e os sequazes da Sinagoga atè que vencidas graves dificuldades patrocinadas por Pessoas de summa authoridade declarou a Santidade de Innocencio XI. por hum Breve expedido no anno de 1681. a rectidaõ com que procedia aquelle Santo Tribunal. Triumfante o Arcebispo Primaz com taõ plauzivel vitoria pois cedia em obsequio da Religiaõ partio de Roma a 17. de Junho de 1682. e chegando a Lisboa foy recebido com distintas honras pelo seu Soberano, e como o tivesse nomeado Conselheiro do Estado o consultava em as mais graves materias preferindo sempre o seu voto por ser estabelicido em maximas menos politicas, que catholicas. A obrigaçaõ de apacentar as suas ovelhas o obrigou a deixar a Corte, e partir para Braga onde fazendo a sua entrada a 3. de Julho de 1683. seguio exactamente os vestigios de seus predecessores assim na distribuiçaõ das esmolas, como no ornato dos Templos. A porfiada obstinaçaõ de varias molestias, que padecia lhe annunciou o proximo termo da sua vida para o qual se preparou com confissaõ geral, e recebida a Extrema-Unçaõ conservando o juizo perfeito até o ultimo instante entregou o espirito ao seu Creador ás duas horas depois da meya noute de 29. de Abril de 1690. quando contava 53. annos de idade. O Cabbido lhe dedicou solemnes exequias em que recitou a Oraçaõ funebre o Padre Pedro do Amaral da Companhia de Jesus Reytor do Collegio de Braga Semelhante obsequio lhe fez a Collegiada de Barcellos em que foy Panegirista o Doutor Heitor Pereira de Brito Prior da mesma Collegiada. Ao seu nome buscaraõ como Numen tutelar para as suas obras graves Escritores como foraõ o Doutor Antonio de Mattos Teixeira dedicando-lhe os seus Sermoens que publicou com o titulo Luz Evangelica e o Padre Luiz Alvares Jesuita ao seu Joseph filius Rachelis illustratus. O grande Fr. Francisco de Santo Agostinho Macedo lhe descreveo a pompa com que fez a entrada publica em Roma no livro que publicou com o titulo Trifavus composto de Panegirico, Elogio lapidario, e Poema em a lingua Latina onde a Poetica, e Oratoria competem em exaltar as açoens deste Ecclesiastico Heroe. Manoel de Souza  Moreira Theatr. Geneal. da Cas. de Souz. p. 18. Varon verdaderamente digno de que en los Fastos Vaticanos se consagre su nombre com rubrica Sacrosancta. O Doutor Manoel Rodrigues Leytaõ Trat. Analitico, e Apologet. pag. 152. n. 241. In eo datus est nobis virtutum partus ad maiorum stuporem, posterorum exemplar. Almae nostrae Academiae hic est amor, & splendor; hic ille cui natura Principum sanguinem dedit, simul & merita; merita certatim dedere dignitates, & ei merito debentur singulae dum universae non dantur. Franc. de Santa Maria Diar. Portug. Tom. 1. p. 535. Em seu tempo ninguem entrava nas funçoens litterarias com mayor expectaçaõ dos ouvintes, ninguem sahia dellas com mayores aplauzos. Argumentando, e defendendo ostentava sempre com grandes ventages a clareza, e a profundidade. No pulpito era igualmente admiravel, e pera que o digamos em summa entre lucidissmas estrellas mereceo aclamaçoens de Sol. D. Jozé Barboza Mem. do Colleg. Real de S. Paulo pag. 170. até 206. e no Archiathen. Lusitan. pag. 41.

Jam maiora referre libet, quae flore juventae

Sousa geret studiis tempus superabit, & annos

Discipulus responsa dabit, quae sola magistros

Efficient, quae docta dabit responsa Magister?

Qui suggestus erit, qui non illustrior illo

Aurea dum fundet doctrinae flumina? Cerne

Abdita Durandi reserantem dogmata claro

Perspicuoque modo: Gabriele suspice, credet

Aligerum venisse polo: Scotum aspice, Scotus

Alter erit, tantum est argutae mentis acume!

Sol erit Angelicus Thomas, Sapientia solem

Illum sacra colet, radios diffundet, & hostes

Proteret armatos nequicquã in bella ruentes;

Thomã aliu sapies quis te Ludovice negabit?

Sol eris alterius dum pandis lumina solis.

Nesciet auditor quod sit fulgentius astrum

At gemino credet caelum splendescere sole.

Compoz.

Soneto em aplauzo do Padre Mestre Fr. Antonio Correa da Ordem da Santissima Trindade de quem ouvira Filosofia, escrevendo a Vid. do Ven. Padre Fr. Antonio da Conceiçaõ Trino. Lisboa por Henrique Valente de Oliveira 1658. 4.

Practicas nos dous Actos de Cortes que o Principe nosso Senhor mandou convocar, e se celebraraõ na Cidade de Lisboa em 20. e 22. de Janeiro de 1674. Lisboa por Antonio Craesb. de Mello 1674. 4.

Practica que fez ao Conclave estando para se eleger Summo Pontifice por morte de Clemente X.

Carta escrita de Roma em 31. de Agosto de 1681. a ElRey D. Pedro II. De estar concluido felismente o negocio a favor do Santo Officio contra as pertençoens dos Christaõs novos. Sahiraõ impressas a Practica, e a Carta nas Mem. do Colleg. de S. Paulo a pag. 190. e 194.

Obras M. S.

Tractados de Merito fol. 2. Tom.

Tractatus de Auxiliis. fol.

Voto muito extenso contra o Perdaõ Geral.

Tractado da Prova que fazem testemunhas singulares nos crimes, que pertencem, ao Santo Officio.

Tratado sobre os Padroados dos Senhores Reys de Portugal nas Igrejas Episcopaes das Conquistas.

Negociaçoens da sua Embaxada fol. 7. Tom.

Votos do Concelho de Estado. fol.

Oratio funebris in obitu Serenissimae Portugalliae Reginae D. Aloysiae Franciscae de Gusmaõ habita in Academia Conimbricesi.

Sermaõ nos Annos do Principe D. Pedro prégado em 26. de Abril de 1668. 4. Quando prègou este Sermaõ ainda naõ era Sacerdote.

Sermaõ do Auto da Fé celebrado em Coimbra no anno de 1669.

Sermaõ da Soledade da Senhora em a Cathedral de Coimbra no anno de 1670.

Sermaõ prègado na Parochia de Santa Engracia de Lisboa na occasaõ em que se roubou o Sacramento na Freguesia de Odivellas, em 1671.

Sermaõ de Quarta feira de Cinza na Cathedral de Lamego onde era Bispo no anno de 1672.

Sermaõ no Nacimento do Principe D. Joaõ filho primogenito dos Reys D. Pedro II. e D. Maria Sofia Izabel de Neoburg, prégado a 30. de Agosto de 1689.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]