Sor LUIZA DE DEOS chamada no seculo D. Luiza de Gusmaõ sahio á luz do mundo em a Cidade de Evora para immortal gloria de seus clarissimos Progenitores D. Luiz de Portugal quarto Conde do Vimioso, e de sua Espoza D. Joanna de Castro, e Mendoça filha de D. Fernando de Castro primeiro Conde de Basto Capitaõ de Evora, Alcayde mór de Alegrete, Conselheiro de Estado, e de D. Filippa de Mendoça filha de D. Manoel da Camara, sexto senhor da Capitania de S. Miguel. A rara fermosura, e sublime discriçaõ de que profusamente a ornou a natureza unidas ao coroado esplendor da sua ascendencia foraõ vehementes estimulos para que os herdeiros das primeiras Casas de Portugal a pertendessem para Espoza porem desenganada pela heroica resoluçaõ com que seus grandes pays em o anno de 1607. tinhaõ deixado a Corte pelo Claustro Dominicano seguindo taõ virtuosos vestigios preferio os despozorios do divino Cordeiro a todos aquelles que lhe oferecia a pompa mundana professãdo o instituto da preclarissima Ordem dos Pregadores em o Convento de Santa Catherina de Sena da sua patria. Nesta observantissima palestra de todas as virtudes se exercitou naquellas que lhe mereceraõ eternidade gloriosa. Todos os dias cultivava as misticas flores do Santissimo Rosario das quaes colhia copiosos frutos a sua ardente meditaçaõ. No officio de Prelada conservou a obediencia de subdita, sendo o seu mayor disvelo eclypsar com o exercicio dos mais vis ministerios o augusto explendor do seu nacimento. Das dadivas, que recebia de seus parentes eraõ depositarias as mãos dos pobres chegando a tal excesso a sua comiseraçaõ que para os alimentar se abstinha do proprio sustento. Competia a severidade dos jejuns com o rigor das disciplinas revelando muitas vezes o sangue impresso nas paredes do seu apozento a multiplicidade de golpes com que redusia o corpo ás leys do espirito. Previo sucessos futuros, recebeo favores celestiaes, e socorreo necessidades urgentes. Naquelles instantes que lhe restavaõ de seus devotos exercicios, e obrigaçoens religiosas compoz varios versos pelo assumpto sagrados, pelo conceito divinos em que illustrado o seu Enthusiasmo de superior influxo lhe servia de Parnazo o Impirio, aos quaes naõ podendo ocultalos a sua modestia e deligencia foraõ sepultados pelo tempo com injuria da piedade. Atenuada de achaques que se fizeraõ obstinados com as penitencias tolerou com invicta constancia a ultima infermidade que durou tempo prolongado. Recebidos os Sacramentos com aquella ferverosa devoçaõ praticada por toda a vida voou o seu innocente espirito a coroar-se entre o Choro das Virgens em o primeiro de Abril de 1641. Celebraõ as suas virtuosas açoens, como o seu grande talento, e profundo juizo Fr. Pedro Monteiro Claustr. Dom. Tom. 3. p. 269. Fr. Luc. de Santa Cather. Hist. de S. Domingos da Prov. de Portug. Part. 4. liv. 2. cap. 33. D. Ant. Caet. de Sous. Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 10. pag. 141. Fonceca Evor. glorios. pag. 391. As Actas do Capitulo Geral do anno de 1644. lhe fazem o seguinte elogio. In Monasterio sanctae Catherinae Senensis Civitatis Eborensis Soror Ludovica de Deo Excellentissimorum Comitum de Vimioso filia, Caelorum Regi feliciter desponsata reciproci, & ferventissimi amoris inter ipsum, & Sponsam non levia exhibuit, & adhuc vivens recepit indicia, ac tandem omnium virtutum exemplar, & ingentem sanctitatis opinionem reliquit. Por ordem do seu Confessor o M. Fr. Fernando Soeiro Pregador delRey D. Joaõ IV. de quem em seu lugar se fez distinta memoria, escreveo como tinha feito a Serafica Mestra Santa Thereza de JESUS.

Vida de Sor Luiza de Deos.

Nella naõ sómente relata os favores que recebeo do Ceo quando orava, mas descreve muito individualmente os seus defeitos. Está escrita em hum volume de folha cujo Original se conserva no Convento de Santa Catherina de Sena onde habitou a Authora. Nelle se ve (saõ palavras do moderno Chronista da Provincia de S. Domingos de Portugal assima allegado pag. 463) como em hum espelho a profunda humildade com que se vinga de si mesma apoucando o que lhe podia servir de gloria, e ampliando o que só servia para confusaõ sua, mas em hum tal estilo, com huma acomodaçaõ taõ genuina de lugares da Escritura com que authoriza alguns da Historia, que no melhor voto mayor espirito lhe governava a penna, e a pag. 939. Escreveo sua mesma vida, em que tocou varias aplicaçoens da Escritura com admiravel intelligencia. Semelhante conceito fórma desta obra o M. Fr. Pedro Monteiro Claustr. Dom. tom. 3. p. 270. Nesta obra, que está escrita em folha, o que vimos, traz innumeraveis lugares da Escritura Sagrada explicados com admiravel intelligencia, obra que verdadeiramente podia acreditar hum grande Escriturario.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]