Reunir, anotar criticamente e disponibilizar ao grande público as obras pioneiras escritas pela primeira vez em língua portuguesa e que funcionaram como alicerce de áreas de saber autónomo produzido na nossa língua é não só um exercício de sistematização que permite uma visão de conjunto mais alargada, mas permite-nos saber e dar a saber que em alguns campos nós portugueses também fomos pioneiros a nível internacional em algumas áreas. Este projeto científico e editorial é uma forma de superarmos o grave desconhecimento das fontes da nossa cultura e ciência, mas também de superarmos a nossa ideia de menoridade em tudo em relação à Europa, que gerou um complexo de inferioridade que ainda hoje nos afeta e nos prejudica na relação com os outros países.  Com efeito, se partimos para a relação com outro a nível cultural, científico e política com uma ideia de nós de menoridade histórica e de secundariedade cultural é meio caminho andado para ficarmos a perder em quase tudo nessa relação que implica negociação e troca. É devido a esse desconhecimento que resulta numa fraca consciência de nós e nos torna verdadeiramente provincianos no pior sentido, fazendo de nós mais diligentes em traduzir e importar o que os outros produzem em muitos planos da criação literária e do saber atual e clássico do que traduzir e exportar o que é nosso. A nossa ideia de atraso cultural e científico tecida com a nossa ideia de decadência no segunda metade do século XVIII e, especialmente com mais força na segunda metade do século XIX fez-nos perder a memória de que esse atraso não foi geral nem constante e que, muitas vezes, fomos, aliás, pioneiros e seguidos por outros povos e culturas.

A cultura dita portuguesa, que herdamos e com a qual enchemos os nossos manuais escolares, na qual se funda a nossa memória histórica e através da qual se tem desenhado a nossa ideia de identidade nacional, teve, no desaguar da Idade Média e no dealbar da Modernidade, os seus autores e obra pioneiras.

Regressar às fontes, beber nas suas águas prístinas, escavar os alicerces do património, que constitui a nossa cultura imaterial de natureza intelectual, artística e pedagógica, é uma forma de aprofundarmos o conhecimento de nós próprios enquanto comunidade cultural, enquanto povo-cultura, enquanto identidade construída e em contínua reconstrução.

Este grande projeto pretende dar a conhecer aquelas que a investigação mais recente permite apresentar como sendo as obras primeiras, fundadoras da cultura de um país com quase um milénio de história, nomeada como história portuguesa, cujas raízes são multimilenares e ainda mais fundas.

 

OBJETIVOS

A compilação em 30 volumes das Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa tem, por base, alguns objetivos que consideramos indispensáveis, no âmbito de toda a grande cultura portuguesa:

  • Facultar em cada ensaio um saber essencial e, na medida do conhecimento de que dispomos, rigoroso e crítico, sobre as primeiras obras que fixaram por escrito conhecimento nas mais diversas áreas das Humanidades e das Ciências, na longa duração da História da Cultura Portuguesa, desde a história, a gramática, a pedagogia, passando pela filologia, a política, as ciências náuticas, as ciências ditas ocultas, a biologia, a arte e a literatura, entre outras;
  • Constituir um ponto de partida pedagógico e divulgativo para dar a conhecer e sistematizar informação resultante do progresso da investigação que, nas últimas décadas, investigadores e equipas de investigação têm operado para trazer a lume fontes inéditas e pouco conhecidas, permitindo assim rever e completar os velhos manuais de historiografia, as clássicas histórias da literatura e as enciclopédias multitemáticas da cultura e da ciência em Portugal;
  • Ser o ponto de partida para dar a conhecer um projeto em curso que, abarcando diversos campos de conhecimento, tais como a história, a pedagogia, a literatura, a pintura, a filosofia, a teologia, a geografia, a biologia, a música, pretende editar de forma atualizada as obras pioneiras da cultura portuguesa nestas diferentes áreas.