É simples: não há história sequencial. Cada novo texto revê o anterior. Cada noite a da véspera. Assim, tudo, para ele era borrão, excepto o último.

Ernesto Rodrigues, Um Passado Imprevisível

 

Da vasta obra de Ernesto Rodrigues, que inclui ensaio, poesia e ficção, retenho com especial interesse os seus romances Passos Perdidos (2014) e Uma Bondade Perfeita (2016), este que viria a vencer o Prémio Pen Clube Português no ano seguinte. Acabo agora de ler a sua mais recente peça de ficção, Um Passado Imprevisível, cujo título já contém em si essa ironia de nunca nos conhecermos por completo, muito menos os outros e os relacionamentos mais marcantes das suas e nossas vidas. Há aqui uma tentação de considerar, pelo menos parcialmente, este livro um romance um tanto autobiográfico, mas seria um erro elementar de leitor, como diriam certos críticos americanos acerca de textos ou narrativas complexas. De facto, Ernesto Rodrigues, hoje professor na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa e director do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, foi também leitor de Português na Universidade de Budapeste nos anos 1981-1986, os anos de chumbo daquele país que ainda nem suspeitava, (suponho) que todo o sistema sócio-político estava prestes a ruir em pouquíssimo tempo como resultado da queda da União Soviética. É também verdade que o autor – que viria a tornar-se o mais distinto tradutor no nosso país da melhor literatura húngara — deixou por lá laços de amor e família, muito do que nos levaria à tentação de o ler interligando realidade presente e passado num acto de ficção como este. Só que na obra de Ernesto Rodrigues existem estruturas narrativas que à primeira vista nos parecem desligadas, e a sua escrita torna-se um exercício complexo da imaginação pura, e em que o leitor vai desfrutando de frases lapidares que podem ou não significar os múltiplos sentidos de um tema que esconde em si não só o mundo dos outros mas mais ainda o estado interior do seu narrador, que, tal como nós na tentativa de interpretação, nunca sabe claramente o que aconteceu ou vai acontecendo no seu próprio mundo ou noção de existência entre os mais diferenciados seres humanos aqui inventados ou reinventados. Estamos dentro de um enigma que vai da vida académica e amorosa em Budapeste a Moçambique dos nossos dias em busca de uma mulher de nome Andrea. Este é um romance de poucas personagens centrais, mas os seus relacionamentos e as respectivas implicações para as várias representações aqui encenadas são algo complexas, deixando o leitor como que num jogo de xadrez e a olhar demoradamente cada peça e cada movimento.

Um Passado Imprevisível faz-me lembrar, de certo modo, o Finnegans Wake, de James Joyce, que levaria o grande crítico norte-americano Edmund Wilson, que introduziu nos anos 20 o modernismo europeu aos seus leitores enquanto olhava atentamente os seus colegas que no país ou residentes na Europa também respondiam a uma literatura que havia sido até então provinciana, ignorando quase tudo que se passava além-fronteiras. Wilson, falecido em 1972, leu e releu a ficção de Joyce, e não teve meias medidas: se era praticamente incompreensível, ele procedeu a uma interpretação muito original, quer coincidisse ou não com o que o autor irlandês teria em mente quando o escreveu. Faço o mesmo agora aqui. Um Passado Imprevisível tem um narrador que se identifica com um personagem principal de nome J. C. no seu regresso a Budapeste no presente depois de lá ter sido professor de Português na universidade principal do país. Vai à jubilação de um colega oriundo da Eslovénia, mas que será devidamente homenageado, e neste caso chamado simplesmente de “Z”, pois o seu nome é tão longo e complicado que tira do leitor o primeiro riso e perplexidade, e que nem me atrevo a escrever neste texto, depois de um alerta, ou de quem leu com atenção, que se tratava de todas as letras do alfabeto, numa brincadeira algo gratuita com o leitor, creio eu. De resto, será lembrar os anos passados e as mulheres da sua vida, ambas de nome Nídia, mãe e filha, que nos levam a tentar decifrar quem é o pai, se J. C. ou Z. Seja como for, o romance leva-nos mais ao ambiente internacional dos nossos dias na Europa, e termina, como já referi, em Moçambique aonde se encontra Andrea, uma outra possível amante, numa missão humanitária e que não espera um encontro com esse seu passado amoroso na Hungria. Pelo meio, acompanhamos a viagem num navio criminoso, que se dedica ao tráfico de tudo, inclusive de crianças. A violência durante essa viagem entre a Europa e África é extrema, e constitui uma outra visão do mundo actual, do mundo que permitimos no silêncio ou na nossa indiferença. Entre o passado dos anos 80 do século XX num país comunista retornamos à actualidade, testemunhamos o pior dos mundos. Resta ao indivíduo consciente reorientar-se e actuar dentro do perigo perante o que vê e vive. É o regresso ao tal existencialismo filosófico, que combina realidade e arte para denunciar os infernos que criamos, e ao mesmo tempo a possibilidade de apagar os fogos quando pode e onde pode. Este é um livro de prosa simbólica e poética, com frases tão contundentes e significantes que prendem nos seus leitores a força de irmos de página em página à procura de significações escondidas, dos mistérios ou segredos da vida de cada personagem.

“Ora, outros perigos irrompem nesta distracção. A pólvora da História deixa resíduos em qualquer um. Seja palavra, na tabuleta da loja, seja nome de rua, ou música descida de longe, que a rádio filtra, o peso da vida volta, velado em passado, que a mão esquerda dela, numa paragem brusca, entoa melhor, ao tocar-lhe no joelho, dois dedos, indicador e média, pormenor que lhe lembra outros dedos, talvez outro tempo, o que nem sempre coincide…”

Por fim, Um Passado Imprevisível dá continuidade a essa obra ficcional de Ernesto Rodrigues de que já falei anteriormente, um mundo de sombras ominosas ou meramente pessoais, e na qual o leitor encontra na sua prosa o caos e os relacionamentos misteriosos entre uns e outros, especialmente o que se chama na sociologia de significant others. Certa Europa permanece algures entre a civilização e o desastre, com as relações de cada um ou uma servindo como que de metáfora a todo o tipo de ameaça indefinida. A viagem para a África acontece, uma vez mais, num navio de loucos, e Moçambique como memória de um passado português pouco feliz, e agora dependente da ajuda e da criminalidade dos que pensam levar todos à salvação. Vamberto de Freitas

 

[texto publicado originalmente no Jornal Açoriano, republicado no blogue Nas Duas Margens, a 22 de Outubro de 2018]