Por este mundo acima é um livro  peculiar de uma autora que, como tantos outros nomes que inundam os escaparates das livrarias, é também jornalista. No entanto, a sua escrita é de uma sensibilidade apurada e toca temas de forma alegórica enquanto outros insistem em mastigar e deglutir a mensagem por inteiro. Patrícia Reis nasceu em 1970, estudou História de Arte e Comunicação, tendo passado por diversos órgãos de comunicação, como o ExpressoMarie Claire e, mais recentemente, dirige a revista Egoísta. No final do ano passado lançou dois livros, o romance Contracorpo, e uma entrevista em jeito de conversa com Simone de Oliveira, intitulada Força de viver. É ainda autora juvenil, tendo escrito uma interessante coleção que apresenta, através do Micas, diversos museus e instituições culturais.

Os seus últimos dois romances, Por este mundo acima e Contracorpo, possuem em comum o facto de se dirigirem a um filho ou, por outras palavras, a essa camada da população portuguesa em que reside o futuro e que vive estes momentos de confusão e angústia mas que, provavelmente, não sente ainda muito a necessidade de parar para pensar no que será esse mesmo futuro. O tema da adolescência parece assim revestir-se de alguma importância na escrita da autora, como se pode constatar em Antes de ser feliz (2009) ou no seu mais recente Contracorpo, onde se tece uma conversa, durante uma road trip, em
que uma mãe tenta comunicar com um filho que se fecha na sua concha de um mutismo quase autista, ainda que falar de autismo acerca da adolescência pareça um pouco redundante…

O romance Por este mundo acima nasce de um cenário de destruição, ainda que este seja apenas subtilmente delineado no livro. Nunca se sabe concretamente o que destruiu Lisboa, havendo apenas alusões indiretas a um qualquer acidente (nuclear?) que inclusivamente acarretou consequências nas crianças nascidas depois disso. Da mesma forma que estes cenários pós-apocalípticos já se vão tornando familiares, mediante o visionamento de certos filmes e séries televisivas, a própria ação começa «in media res», um pouco como uma imagem de um filme, em que a imagem que abre o filme é depois retomada a meio da narrativa: «A VIDA TRANSFORMA-SE. Agora está ali o miúdo. Continuamos a andar. Pedro à frente, saltando rochas e declives, os ténis sujos de terra. Eu fico um pouco mais atrás, as mãos nos bolsos, passos hesitantes, por vezes a falhar, um certo receio em avançar, mas enfeitiçado pela sua voz. Trauteia uma melodia sem letra. Saudades súbitas de música. E digo-o./ Tenho saudades de música./Sim? Eu tenho uma harmónica. Tenho, sim, em casa. Era do meu pai. Nunca aprendi a tocar./ É pena./Se soubesse tocar, tê-la-ia trazido comigo./Tu falas muito bem./A minha mãe obrigava-me a falar correctamente. Diz que é muito importante. Dizia./A tua mãe tinha razão.» (pág. 15-16)

Neste trecho com que se inicia o romance, e que aparecerá novamente repetido mais à frente, delineiam-se duas linhas centrais de um romance aparentemente fragmentário, como que escrito em desabafo, aos  soluços: a importância da música, que é como quem diz da literatura, aliada à importância da língua e do bem falar, mesmo que o mundo se tenha desmoronado e esses valores não sirvam a ninguém como instintos básicos de sobrevivência.

A escritora chamou a este livro, em entrevista, de “peregrinação futurista”, pois projeta num futuro ficcionado os desafios que se colocam à Humanidade de hoje. Os valores humanos são, sem dúvida, a cola que permite refazer a destruição e a luz que ilumina o vazio de uma vida. A autora foca-se assim, “como quem escreve uma carta a um filho”, em construir uma parábola sobre o valor da amizade e da solidariedade, independentemente da idade, da situação e da existência de laços de sangue. Os flashbacks no livro, através de Eduardo, são constantes, quando recorda os amigos que deixou, enquanto este homem se move pelo cenário de desolação, talvez como forma de tentar encontrar um fio condutor na  ruína que o cerca e atravessar o peso da solidão, até porque ao contrário de Pedro, o rapaz que ele depois encontra, os outros que se movem pela paisagem, deslocam-se fugidiamente,  esquivando-se: «As pessoas, os sobreviventes, não querem conversar.». Pedro torna-se então homem sob a alçada de Eduardo, o editor, e com ele vai aprender o valor não só da amizade mas também dos livros. Eduardo é uma memória prodigiosa que reúne imensas histórias que vai partilhando com Pedro, educando-o, tal como a mãe antes o preparara a falar corretamente, para o gosto pela leitura e pela maleabilidade e inventividade das palavras. Em jeito de compensação, o jovem vai aprender de tudo um pouco, tornando-se instruído, mesmo que o conhecimento já pouco se aplique a um mundo que deixou de ser.

O horizonte de esperança com que o livro encerra é o facto de este jovem, depois da morte de Eduardo, o editor, se apaixonar por uma mulher, conseguir recuperar técnicas tipográficas que permitem fazer um livro. Como gesto de amor para com o editor que o adota, Pedro recupera, inclusivamente, as técnicas de imprensa gráfica. É esse o manifesto gesto de esperança que pode redimir a vida de uma humanidade praticamente desaparecida, quando um livro, de um jovem autor, curiosamente chamado Sebastião, é descoberto pelo editor. Este nunca chega a ler o livro antes da catástrofe, apesar de ter sido apresentado ao  jovem e ficado intrigado com o mesmo, e só depois de tudo mudar e um livro de um jovem autor parecer uma ninharia a quem tenta sobreviver, reveste-se, independentemente da sua genuína qualidade, da maior importância para outro tipo de pessoas. Como uma elite que vive dessas pequenas grandes inutilidades, como a música e a literatura, que animam os nossos dias e podem até, em última análise (histórica, cultural, antropológica) reflectir os nossos valores.

É curioso que se registe, quase no final do livro, como o legado que Eduardo deixa ser a sua biblioteca: as estantes de livros que herdara da avó, e que, depois, tentou compor com alguns “empréstimos” de outros locais por onde iam pilhando o que precisando, biblioteca essa que constitui um centro conglomerador das réstias da humanidade: «Decidiram passar a biblioteca da avó de Eduardo para um centro cultural, para estar sempre disponível, para ser a memória de todos. Ocuparam a estação de metropolitano que ficou intacta: têm um centro de acolhimento, um centro de estudos, a biblioteca e uma sala de convívio.» (pág. 180). E, mais uma vez, é inevitável um outro paralelo com os media, quando a  adaptação cinematográfica da obra A rapariga que roubava livros acaba de estrear, sobre uma jovem que, durante a II Guerra, salva livros de arderem nas fogueiras ateadas pelos nazis.

Nenhum homem é uma ilha, portanto, mesmo que cada leitor possa ter em si uma biblioteca imensa que o entretenha. Paulo Serra

 

[texto publicado originalmente no jornal Cultura.Sul, edição de 7 de Fevereiro de 2014]