FR. ALEXANDRE DO ESPIRITO SANCTO PALHARES, Franciscano da Provincia de Portugal, celebre prégador no seu tempo, varão respeitavel por seu porte e doutrina. – N. no condelho dos Arcos de Valdevez, provincia do Minho, em 1749, e m. na villa de Pereira sendo ahi Director do Collegio das Urselinas, a 2 de Junho de 1811 com 62 annos. – Publicaram‑se posthumos:

171) Sermões do P. Mestre Fr. Alexandre do Espirito Sancto Palhares, copiados de manuscriptos originaes e dados á luz por José Lourenço Tavares da Paixão e Sousa, Bacharel formado em Canones… Prior da villa de Pereira, etc. etc. Tom.I. Lisboa, Typ. da Acad. R. das Sc. 1855. 8.o gr. de 255 pag. Tom. II. Coimbra, na Impr. de E. Trovão 1856. 8.o gr. de 255 pag.

Esta collecção comprehende ao todo trinta e seis sermões; sendo para sentir que entre elles não appareça o mais falado de todos, qual é o que o auctor prégara em Lisboa, no convento do Sanctissimo Coração de Jesus (vulgo da Estrella) em presença da rainha a sr.a D. Maria I, e da côrte, e que lhe valeu (diz‑se) a especie de deportação a que foi condemnado governamentalmente para fóra da capital, para não mais incommodar os animos dos validos fazendo resoar nos pulpitos as verdades amargas, e as reprehensões que contra elles soltava, com verdadeira liberdade de apostolo.

Á frente do tom. I da collecção se acha uma extensa noticia biographica d’este insigne varão, escripta pelo editor: podendo tambem ver‑se algumas particularidades ácerca do mesmo, na Memoria sobre a fundação e progressos do R. Collegio das Urselinas de Pereira. (V. Basilio Alberto de Sousa Pinto.)

Parece, pelo rapido exame que de corrida fiz d’estes sermões, que o auctor tinha muita lição de Vieira, e sabia com dexteridade apropriar‑se os pensamentos do famoso jesuita. Logo no sermão primeiro do tomo I vejo imitações assás pronunciadas. Por exemplo: a pag. 4: – «Antigamente sahiam os juizes ás portas das cidades, ahi se collocavam os tribunaes para que a administração da justiça fosse promptissima. Então se viam os tribunaes ás portas das povoações; hoje vemos povoações inteiras ás portas dos tribunaes.» Compare‑se isto ao que diz Vieira no tomo I, columna 540 e 541: – «Antigamente na republica hebrêa (e em muitas outras) os tribunaes e os ministros estavam ás portas das cidades, para que os requerentes não tivessem o trabalho, nem a despeza, nem a dilação de entrarem dentro… Agora estão as cidades ás portas dos ministros.» – Quem desconhecerá aqui a imitação mais que rigorosa?

Tambem no mesmo tomo a pag. 43 diz Palhares: – «Quantos com a voz conhecida de Jacob levam a benção d’Esau, não com luvas calçadas, senão dadas ou promettidas?» – Ouça‑se agora Vieira, no dito tomo I, col. 536: – «Quantas vezes alcançou mais Jacob com as luvas calçadas, que Esau com as armas nas mãos?» – Não devo alongar esta digressão, e por isso deixo a quem quizer o trabalho de continuar o parallelo, que de certo não perderá o seu tempo.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]