D. Fr. MANOEL PEREIRA, natural de Lisboa filho de Rafael Palladio, e Margarida de Meira igualmente nobres, e opulentos. Recebeo a primeira graça na primeira Parochia, que teve Lisboa dedicada a Nossa Senhora dos Martyres a 22 de Janeiro de 1625. Na florente idade de 15 annos se adoptou por beneficio da graça em a Familia esclarecida de S. Domingos para ser hum dos seus mayores ornatos professando solemnemente em o Real Convento de Bemfica a 22 de Janeiro 1641. A capacidade do talento, e viveza do juizo de que liberalmente o ornou a natureza, se manifestaraõ no estudo das Sciencias Escholasticas as quaes podia ensinar ao tempo que as aprendia. O aplauso que conciliou na Cadeira correspondeo ao que alcançou em o pulpito, onde dezempenhou as obrigações de Orador consumado. Eleito Provincial no anno de 1667 governou os subditos com prudencia, e afabilidade. Em Roma foy companheiro do Mestre Geral da Ordem Fr. Joaõ Thomaz Rocaberti que depois subio a Arcebispo de Valença, e ultimamente Provincial titular da Terra-Santa, e Vigario Geral da Ordem. Ao tempo que ocupava este honorifico lugar, foy nomeado pelo Principe Dom Pedro Regente desta Monarchia, Bispo do Rio de Janeiro sendo o primeiro que teve esta Diocesi em cuja dignidade, foy confirmado por Innocencio XI. a 10 de Novembro de 1676. Conhecendo este Principe o profundo talento, e madura prudencia de que se ornava este Vassallo o elegeo seu Secretario de Estado no anno de 1680, e como esta incumbencia era incompativel com o Bispado, o demittio, dedicando todo o seu disvelo em beneficio do Reino, que experimentou as maximas politicas reguladas pelos dictames do Evangelho, e naõ pelos Aforismos de Tacito. Foy Deputado da Junta dos Tres Estados, e do Conselho Geral do S. Officio de que tomou posse a 10 de Mayo de 1682. Teve cordial affecto a S. Gonçalo de Amarante illustre alumno da Religiaõ Dominicana, e famoso Thaumaturgo de Portugal alcançando de Clemente X. no tempo que assistio em Roma extençaõ do seu culto para todo o nosso Reino. Restituido á patria lhe erigio no Cruzeiro de S. Domingos de Bemfica huma sumptuosa Capella vestida de preciosos marmores com a estatua do Santo no meyo della, e de outros Santos de menor grandeza que a cercaõ fabricadas de finissimo Jaspe, e a ornou de ricos paramentos, e varias peças de prata onde todos os annos celebrava a sua Festa, e dava de jantar á Cõmunidade com grande profusaõ. Na parede do lado direito ao entrar na Capella, mandou gravar em huma grande pedra a seguinte inscripçaõ.

  1. O. M.
  2. Gundisalvo de Amarante

Lusitaniae Thaumaturgo,

Tutelari suo semper propitio;

Devoti, grati que animi ergo

Imparem voto aediculam,

Suum que ibi conditorium,

Episcopus Fr. Emmanuel Pereira

Hujus Benficani Caenobii filiuscondit, & dicat.

Anno Domini M. DC. LXXXV.

Alcançou do Summo Pontifice faculdade, para testar de alguns bens que possuia, e entre os legados deixou sinco mil cruzados ao Colegio de S. Thomaz de Coimbra. Falleceo no Convento de Lisboa a 6. de Janeiro de 1688, quando contava 63 annos de idade e 47 de Religioso. Fazem honorifica memoria da sua pessoa Fr. Pedro Monteiro Claust. Domin. Tom. 1. p. 70. e Tom. 3. pag. 282. e 343. e no Cathal. dos Dep. do Conselh. Ger. §. 66. e Fr. Lucas de Santa Catharina Hist. de S. Domingos da Prov. de Portug. Part. 4. liv. 1. cap. 27. Compoz

Breve Restreto della vita, e miraculi di S. Consalvo d’ Amaranta Portogheze dell’ Ordine de Predicatori. Roma per il Tinassi 1672. 12. He dedicado ao Geral Fr. Joaõ Thomaz Rocaberti.

Sermaõ prégado no Acto da Fé que se celebrou em a Cidade de Lisboa em 8 de Agosto de 1683. Lisboa por Miguel Deslandes 1683.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]