P. MANOEL RODRIGUES LEITAM, naceo em Lisboa, sendo filho de Francisco Rodrigues, e Francisca Marques compensandolhe a graça na produçaõ de taõ grande filho a abundancia de bens, que lhe negou a fortuna. Aprendeo as letras humanas, e a lingoa Latina na patria em que logo se admirou a alta comprehensaõ do juizo, e profunda madureza do talento. Na Athenas Conimbricense se aplicou a ambas as Jurisprudencias em que recebeo a sinsignias doutoraes. Admittido a Collega do Real Collegio de S. Paulo a 24 de Julho de 1662, illustrou varias Cadeiras com o seu Magisterio, como fora a de Clementinas em 1664 a do Sexto igualado á do Decreto de cuja propriedade tomou posse a 29 de Julho de 1666. Da especulaçaõ da Jurisprudencia passou á pratica onde mostrou ser igual a rectidaõ do seu animo á perspicacia do seu juizo. Ocupou os lugares de Dezembargador do Porto, da Casa da Supplicaçaõ, com exercicio a 9 de Outubro de 1666, o dos Aggravos a 11 de Fevereiro de 1668. Deputado da Fazenda, e Estado da Serenissima Rainha Dona Maria Francisca Izabel de Saboya, Ouvidor Geral das suas Terras, do Conselho delRey, Ouvidor do Priorado do Crato, Provedor das Capellas de D. Affonso IV., e Vereador do Senado de Lisboa, em cuja ocupaçaõ que naquelle tempo administravaõ os Cavalheros da primeira grandeza, e Ministros da mais distincta litteratura, mostrou summa independecia em beneficio publico extinguindo muitos abuzos q introduzira o vil interesse de algumas pessoas que por varias vezes o quizeraõ privar da vida, e para que nunca se sospeitasse q na severidade com que procedia, se occultava utilidade propria até dos emolumentos do lugar se abstinha mandãdo ao Thesoureiro do Tribunal os repartisse com os pobres. A recta administraçaõ praticada em tantas ocupaçoens o habilitou para que o Principe D. Pedro o nomeasse Deputado da Mesa da Consciencia, e Secretario de Estado, cujas incumbencias heroicamente regeitou. Considerando que a multidaõ de negocios politicos o divertiaõ da contemplaçaõ da eternidade se recolheo á Congregaçaõ do Oratorio novamente instituida pelo apostolico espirito do V. P. Bartholameu do Quental vestindo a roupeta a 25 de Dezembro de 1675, e celebrando a primeira Missa quando cumprio hum anno de Congregado. Neste sagrado domicilio naõ deixava o Principe Regente de o consultar sobre materias graves em que era interessada a Monarchia, e como com os annos creciaõ os merecimentos o nomeou Arcebispo de Goa, e da Bahia, como tambem Bispo Cortezaõ, e Mestre da Serenissima Infanta D. Izabel Jozefa, e ultimamente Bispo do Porto. A todas estas dignidades com que o lizongeava a vaidade humana resistio constãte confessando que era incapaz para as exercitar, e indigno para as merecer, e como os negocios seculares lhe roubavaõ grande parte do tempo que queria empregar nos exercicios da Congregaçaõ começou a meditar o modo por onde se retiraria da Corte por ser sempre o seu clima nocivo á cultura da virtude. A esta resoluçaõ como taõ santa condescendeo a Divina Providencia permitindo que viesse a Lisboa o V. P. Balthezar Guedes piissimo Fundador do Recolhimento dos mininos Orfãos da Cidade do Porto a pedir ao V. P. Bartholomeu do Quental alguns dos seus Congregados para fundarem na Casa dos Mininos Orfãos, e sendo eleito para esta empreza o P. Manoel Rodrigues Leitaõ, he incrivel o jubilo que recebeo o seu coraçaõ de se lhe abrir a porta para sahir da Corte onde vivia com grande inquietaçaõ do seu espirito. Chegando ao Porto com o P. Joaõ Lobo a 15 de Julho de 1680 se hospedou em o Palacio do Bispo D. Fernando Correa de Lacerda com quem sempre conservara estreita amizade. Alcançada faculdade dos Vereadores da Cidade do Porto fundou a Congregaçaõ no sitio da Ermida de Santo Antonio lançando as roupetas a tres Sacerdotes, e hum leigo em 18 de Dezembro de 1680, e para mayor authoridade desta funçaõ prégou o Bispo D. Fernando Correa de Lacerda concorrendo com generosa liberalidade para o novo edificio. Naõ usou de menor profuzaõ seu successor no Bispado o Illustrissimo D. Joaõ de Sousa dizendo a primeira Missa, quando se mudou o Noviciado no qual deu a Sagrada Communhaõ aos Noviços, benzeo hum cubiculo, e deu faculdade para que o Fundador benzesse os mais. Todo o tempo que lhe sobejava das ocupaçoens domesticas o ocupava em compor animos discordes, e litigios antigos com intento de que ardesse nos peitos de todos huma sincera charidade com que mutuamente se amassem, e como era ornado de prudente juizo correspondiaõ felizmente os effeitos ás suas diligencias. Resoluto ElRey D. Pedro de naõ passar a segundas vodas pela morte da Rainha Dona Maria Francisca Izabel de Saboya, foy chamado do Porto para o dissuadir desta determinaçaõ taõ prejudicial á Monarchia confiando-se da sua a actividade a conclusaõ de negocio taõ arduo em que ElRey persistia inflexivel. Entrou pelo Palacio do qual heroicamente fugira, e com a efficacia das suas palavras obrigou a ElRey a ceder da renitencia em que permanecia. Concluido negocio de taõ altas consequencias se restituhio sem demora ao Porto, e tendo estabelecida a sua fundaçaõ com quatrocentos e sessenta mil reis consignados na Alfandega da Cidade do Porto por ElRey D. Pedro Protector da nova Congregaçaõ foy acometido de huma supressaõ a 30 de Junho de 1691. que ao terceiro dia degenerou em febre maligna, e prevendo o perigo recebeo com summa piedade os Sacramentos, e feitos todos os actos de Catholico, e religioso espirou ás onze horas da manhã 10 de Julho de 1691. Foy universalmente sentida a sua morte clamando huns, que morrera o Santo, outros que acabara o Pay dos Pobres. Celebraraõ-se sumptuosas Exequias á sua memoria em que assistio sentado no seu solio o Illustrissimo Bispo D. Joaõ de Sousa com todos os Prelados das Religioens, Dezembargadores da Relaçaõ com o seu Chanceler o Dezembargador Sebastiaõ Cardozo de Sampayo. Foy muito observante do seu Instituto, afavel com os subditos, compassivo com os pobres, frequente na Oraçaõ, e taõ humilde que ordenou no seu Testamento, que no seu funeral se naõ fizesse a menor pompa. As suas profundas letras, que se estendiaõ pelas Jurisprudencias Canonica, e Civil, Historia Ecclesiastica, e Secular foraõ aplaudidas pelos mayores Varoens do seu tempo deixando parte dellas eternisada na doutissima obra, que compoz por ordem da Corte respondendo a D. Francisco Ramos del Mançano Cathedratico de Prima de Salamanca, que escreveo contra o provimento dos Bispos de Portugal, a qual sahio impressa trinta, e quatro annos depois da morte do Author, com o Titulo seguinte.

Tratado Analytico, e Apologetico sobre os Provimentos da Coroa de Portugal . Lisboa: na Officina Real Deslandesiana. 1715. fol. & ibi na Real Officina Sylviana 1750. fol.

Discurso sobre o Direito de mandar Missionarios ás Conquistas. fol. M. S.

De Gubernatoribus Cathedrarum Vacantium ad Text. in Cap. Quoniam factus ult. 61. Dist. Dictou esta postilla sendo Lente da Universidade.

Fazem delle larga mençaõ D. Jozé Barboza Mem. do Coll. Real de S. Paulo p. 211. e seguintes, e no Archiath Lusit. pag. 50, e seguinte D. Antonio Caet. de Sousa Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 7. pag. 138. Ministro de huma profunda litteratura, e eloquencia, e pag. 480. Varaõ eminente em letras, e costumes dotado de eloquencia, e igualmente desenteressado.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]