D. AFFONSO DE PORTUGAL, Tronco da preclaríssima Casa do Vimioso, naceo na Cidade de Evora, e foy filho de D. Affonso Conde de Ourem primeiro Marquez de Valença, e o primeiro que houve em Portugal, filho primogénito de D. Affonso primeiro Duque de Bragança; e de D. Beatriz de Sousa filha de Martim Affonso de Sousa segundo deste nome, Senhor de Mortagua, com quem (como muitos escritores asseveraõ) clandestinamente se casara se casara o Marquez seu Pay. As acçoens, que obrou em todo o discurso da sua vida claramente publicaraõ, eu eraõ dirigidas pelos Reaes espíritos, que lhe animavaõ o peito; pois teve heroico animo para intentar empresas árduas; liberalidade profusa para remediar todo o género de necessidade; condição benigna, e afável para a gente popular, severa, e altiva para a Nobreza reconhecendo unicamente por superiores à sua Pessoa os Reys seus Consanguineos; juízo prompto, e agudo para compreender, e discursar; memoria fácil, e tenaz para conservar, e repetir os frutos, que a sua laboriosa applicaçaõ colhera na Universidade de Salamanca, onde estudara as sciencias escolásticas com assombro dos seus mais insignes Cathedraticos. Morto o Marquez seu Pay intentou suceder na Casa de Bragança, mas o Duque, qe naõ aprovava a legitimidade do seu nascimento, a transferio a D. fernando Marquez de Villaviçosa seu segundo filho, por cuja morte novamente pertendeo D. Affonso ser herdeiro da Serenissima Casa de Bragança. Deste intento o fez ceder a autoridade delRey D. Joaõ o II a quem obedeceo constrangido, eternizando na inscripçao, que está gravada na sua sepultura, a politica violência com que fora obrigado a desistir do direito hereditário de Casa taõ Soberana.Por disposição do mesmo Principe seguio a vida Ecclesiastica, e epois de ser Commendatario do Mosteiro de Souto da Ordem dos Conegos Regulares, o nomeou Bispo de Evora, de cuja dignidade lhe passou as Bullas Innocencio VIII no anno de 1485. Logo que subioà Cadeira Episcopal se empenhou no sumptuoso ornato da sua Esposa conhecendo-se as suas magnificas fabricas menos pelo brazaõ das suas Armas, que pella majestade dos seus espíritos. No feliz tempo do seu governo foraõ fundados em Evora debaixo dos ses benefitos auspícios quatro Conventos; sendo o primeiro o dos Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista no anno de 1485; o segundo o de Santa Catherina de Religiosas Dominicas em 1490; o terceiro o do Paraizo do mesmo Instituto em 1499; e o quarto das Maltezas em 1517, alem do grande dispêndio que fez na reedificação o Convento dos Eremitas de Santo Agostinh, entre os quaes quis que descansassem as suas cinzas. Como sempre fora Mecenas dos Estudiosos, determinou edificar em Evora hum Collegio, onde se instruísse nas sciencias a mocidade Transtagana, mas a morte lhe impedio a execuaçaõ de taõ nobre idea. Para se celebrar com mayor perfeiçaõ o incruento Sacrificio do Altar ordenou a Fernando, e Luiz Martins Conegos de Evora, que reformassem o Missal, que se usava aquella Igreja, e o mandou imprimir aà sua custa em Salamanca no anno de 1501. Por ser sumamente severo, e inimigo jurado da adulação incorreo na indignação delRey D. Joaõ o II que o mandou desterrado para a Villa de Monte-mós, donde foy brevemente restituído à graça deste Principeconhecendo que antes merecia premio, que castigo hum animo superior a todas as adversidades. Recebeo inumeráveis estimaçoens delRey D. Manoel a quem acompanhou com pompa digna de Principe na occasiaõ, que partio para Castella a ser jurado Principe daquela Monarchia. Mayor foy o esplendor quandi cim seu Sobrinho o Duque de Bragança, conduzio da raya deste Reyno a Serenissima D. Maria filha dos Reys Catholicos para se despozar com o mesmo Monarcha, a cuja morte assistio com affecto de parente, e fidelidade de Vassalo. Ainda era secular, quando teve de D. Filipa de Macedo a D. Francisco de Portugal primeiro Conde do Vimioso, que foy ornado de todas as virtudes moraes, e politicas, de quem faremos ilustre memoria em seu lugar; a D. Martinho de Portugal Bispo do Funchal e do Algarve, e a D. Beatriz, que morreo na flor da idade. Purificou a licenciosa vida que exercitara na adolescência, com taõ virtuosas obras, qe fez no largo espaço do ser governo em beneficio das ovelhas, que ainda com perpetua saudade do seu nome he conhecido, e aclamado antonomasticamente por Bispo de Evora. Cumulado de heroicos merecimentos foy receber na Gloria o premio imortal em 24 de Abril de 1522. Jaz o seu Cadaver em hum sumptuoso mausoleo de alabastro fabricado com primorosa, e elegante architectura ao ado direito da Capella mós do Convento dos Eremitas Augustinianos, de que he Padroeira a Excelentissima Casa do Vimioso, com este epitáfio: Aqui jáz o Reverendissimo, e muito ilustre Senhor D. Affonso de Portugal filho do Marquez de Valença Neto delRey D. Joaõ I de boa memoria, e herdeiro da Casa de Bragança. Foy Bispo desta Cidade; porque alem da sua devoção quis ElRey D. Joaõ o II que fosse Clerigo. Falleceo aos 24 dias de Abril da Era de 1522. Escreveo: Tractarus perutilis de Indulgentiis à Reverandissimo Domino Alphonso Eborensi Episcopo editus. No fim deste tratado tem a seguinte obra: Tractarus de Numismate ad Illustrissimum Emmanuelem Lusitaniae Regem. Ulysipone apud Monasterium Sancti Vincentii. Naõ tem anno de impressaõ. Deste illustrissimo Prelado fazem memoria Damiaõ de Goes Chron. delRey D. Manoel, part. 1, cap. 26 e 46, part. 4, cap. 83. Fr. Ant. da Purific. Chron. da Provincia de S. Agostinho de Port., part. 2, liv. 7, tit. 6 & 5. Rodrigo Mendes Silva. Cathalog. Real de Espanh., fol 91. Fonsec. Evor. glorios., pag. 293. Francisc. De Santa Mar. Diar. Port., pag. 507 dizendo compoz, e imprimio alguns Tratados cheyos de excelente doutrina, e de vasta erudição.

 

[Bibliotheca Lusitana, Historica, Critica e Chronologica, vol. 1]