D. AFFONSO DE ALBUQUERQUE antonomasticamente o Grande pelas heroicas façanha, com que encheo de admiração a Europa, de pasmo, e terror a Asia, nasceo em o annoo de 1453 na quinta chamada pela amenidade do sitio o Paraiso da Villa de Alhandra distante seis legoas de Lisboa. Sendo filho segundo de Gonçalo de Albuquerque, Senhor de Villaverde, e de D. Leonor de Menezes filha de D. Alvaro Gonçalves de Attaide Conde da Atouguia, e de sua mulher D. Guiomar de Castro, emendou esta injustiça da natureza alcançando a primazia de todas as virtudes assim moraes, como politicas. Foy educado no Palacio delRey D. Affonso V em cuja palestra anhelando unicamente ser emulo deste Marte Africano, partio na esquadra mandada por este Principe no anno de 1480 em socorro delRey D. Fernando de Napoles para reprimir o furor dos Turcos, que tinhaõ ocupado Otranto, mostrando nesta occaziaõ, que o valor para ser heroico, naõ dependia da dilação do tempo, menos da liberalidade da fortuna. Não foy interior a gloria, que conseguio o seu braço na expedição intentada no anno de 1489 para defender a fortaleza da Graciosa situada na Ilha, que o Rio Luco forma junto da Cidade de Larache debaixo dos felices auspícios delRey D. João II de quem foy Estribeiro mòr, sendo estas duas famosas empresas sucedida huma na Europa, e outra na Africa o faustíssimo preludio das victorias, de que havia ser teatro a Asia, para onde navegou em 6 de Abril de 1503 e depois de obrar acçoens superiores a outro coração, que não fora o seu, se restituhio a Portugal mais cheyo de gloria, que despojos, em que tem mayor parte a cobiça, que o valor. Tendo segunda vez surcado os mares como Capitão em huma esquadra de quinze vellas em companhia de Tristão da Cunha para continuar os triumfos, de que era arbitra a sua espada, o elegeo ElRey D. Manoel Governador da India, de que tomou posse em 4 de Novembro de 1509 confiando a prudencia deste Monarcha, que sobre hombros tão robustos poderia permanecer incontrastável à violenta invasão de todos os Pontentados da Asia. Parece difícil à credulidade a continuada torrente de victorias alcançadas pelo braço deste invencivel Heróe, que qual rayo fulminado da Esfera, que o seu Soberano tomara por empresa não houveparte em todo o Oriente, que não experimentasse o impulso arrebatado dos seus estragos reduzindo a cinzas as Cidades de Brama, Orfação, Calicut, Pangim, e as numerosas armadas de Meca, Adèm, e Ormuz. Duas vezes se coroou victorioso com a famosa expugnação de Goa, humilhando na segunda conquista de tal sorte a soberba do Hidalcão, que por largo tempo lamentou a fatal ruina padecida sobre os muros de huma Praça, que se destinava para cabeça do Imperio Aziatico Portuguez. Que frondosas palmas, e louros colheu o seu invencivel braço no rendimento de Malaca, cuja heroica façanha divulgou admirada a fama por três mil bocas de bronze gloriosos despojos de tão celebre expugnação? Rendeo menos à violência do ferro, que ao respeito do seu nome as Cidades de Lamo, Mascate, Benastarim, Calayate, e as Ilhas de Camaram, Queixome, e Homelião com a morte de dous sobrinhos delRey de Larec. Para vingar as hostilidades causadas pelas formidáveis armadas delRey de Ormuz, e do Hidalcão fez estipendiários dous elementos, abrazando, e submergindo a humas no cabo de Rosalgante, e a outras nos portos de Adem, e Calicut. O brado das espantosas acçoens, com que tinha assombrado a todo o Oriente, obrigou ao Rey das Ilhas de Maldiva, Vengapor, e o Hidalcão, que rendidos, e obsequiosos o buscassem para Tutelar dos seus Estados, e em demonstração da sua obediência se fizeram tributários da nossa Coroa. Recebeo diversas Embaxadas dos Principes da Persia, e da Arabia, e dos Reys de Pegù, Bengala, Pedir, Sião, e Pacel solicitando a sua amisade com generosos donativos, que benignamente agradeceo, e generosamente regeitou. Para cõsersar o Estado impenetrável à invasão dos seus inimigos edificou com igual dispêndio, que magnificência as Fortalezas de Malaca, Ormuz, Calicut, Cochim, e Cananor, em cujas pedras gravou para a posteridade a gloriosa denominação de Fundador do Imperio Ocidental Portuguez. Celebradas as pazes com os Reynos de Cambaya, Dabul, Onor, Baticaà até o cabo de Camorim, e com os Principes da China, Jaoa, e Maluco se sentio estando em Ormus acometido da ultima infermidade, e querendo que Goa fosse o Occaso sendo tantas vezes o Oriente de seus heroicos trabalhos, partio tão atenuado de forças, que quatro léguas distante do seu porto entregou aquelle invencivel espirito ao seu Criador com evidentes sinaes de predestinado a 16 de Dezembro de 1515 quando contava 63 annos de idade, e 10 de governo. Foy amortalhado no manto da Ordem militar de São-Tiago, de que era Commendados, e tanto que o cadáver chegou ao caiz de Goa, se levantou tal alarido fúnebre em todo o povo, que até os Sacerdotes interromperaõ o canto Ecclesiastico com lagrimas, e suspiros. Os gentios admirados de o ver com a barba tão extensa, e com os olhos quasi abertos affirmavão com supersticiosa credulidade, que certamente não morrera, mas que Deos o chamara para Ganeral dos seus Exercitos. Levado debaixo do pallio aos hombros das principaes pessoas de Goa o sepultarão na Igreja de Nossa Senhora da Serra, que elle edificou em agradecimento do feliz sucesso da conquista de Malaca. A este deposito das suas triunfantes cinzas concorria a gentilidade obsequiosa com vários donativos esperando, que às suas supplicas fosse propicio. Passados cincoenta e hum anos foy tresladado, como dispusera no seu Testamento, ao Convento de Nossa Senhora da Graça dos Religiosos Eremitas de Santo Agostinho desta Corte, para onde foy condusido a 19 de Mayo de 1566 com pompa digna de tão grande Heróe. Teve a estatura mediana, o rosto comprido, e còrado, o nariz aquilino, o aspecto agradável, que se fazia respeitado pela candida barba, que se dilatava até à cintura. Soube com perfeição a língua Latina, sendo igualmente discreto quando falava, como quando escrevia. Foy amado, e temido, sem que a benevolência degenerasse em frouxidão, nem em rigor o castigo. Observou religiosamente a verdade, aborreceo naturalmente a mentira, e executou prontamente a justiça. Em tantas batalhas terrestres, e navaes sahio muitas vezes ferido testemunhando com o seu sangue, que sempre buscara o lugar onde era mais certo o perigo. Foy profundamente generoso, dando aos Capitaens os despojos alcançados em tantas victorias, dos quaes nunca reservou para si a menos parte por ser sua cobiça mais de gloria, que de fazenda. Practicou summa fidelidade com os inimigos domésticos, e somente com os estranhos usou a sagacidade politica. Determinou executar duas acçoens sugeridas pela magnanimdade do seu coração sobejando para que fossem eternamente gloriosas o serem somente mediatadas; era huma divertir a corrente do Nílo para o mar Roxo não correndo ao Egypto, e desta sorte esterilizar as terras do Grão Turco; a segunda extrahir de Meca os ossos do abominável Mafoma, para que reduzidos publicamente a cinzas se confundissem os professores de tão torpe Seita. Serà o seu nome eternamente appaudido pelas vozes da Fama, como foy no conceito dos mayores Monarchas, e nas pennas de insignes Escritores, aclamando-o por insigne Capitão D. Fernando Rey de Castella a Pedro Correa Embaxador delRey D. Manoel, e o Grão Turco a D. Alvaro de Sande Capitão do Emperador Carlos V. Dos authores seja o primeiro Maffeo Hist. Ind. liv. 5 in fine. Prorsús invicti ad laborem, ac patientiam aeque corporis animique vir, & cum quolibet suae aetatis Ducum, vel novalis scientiae, vel expediti consiij magnitudine comparandus. Faria Asia Portug. Tom 1, part. 2, cap. 10 n 8. Aquella espada com cuya punta se avia labrado el scetro, que ElRey D. Manoel tenia nó com menor interez de sus rentas, que reputacion de sus armas. Castanhed. Historia do Descub. Da Ind. liv. 3, cap. 155. Esforçado e famoso Capitão… Em summa nenhuma virtude lhe faleceo para ser tão singular Capitão como ho forão os singulares, que ouve entre bárbaros, Gregos, e Latinos. F. Ant. de S. Rom. Hist. Gen. Dela Ind. Orient. Liv. 2, cap. 9. Dexo el Imperio dela India mui quieto en la devocion, y fidelidad delRey D. Manoel y el exercício delas armas quedó en su punto com su industria u las cosas dela Religion en mucho aumento. Brentan. Epit. Chronolog. Mund. Ad an. 1515. Christianissimus Heros. Mariz Dial. De var. Hist. Dial. 5. Faleceo com taõ claro nome de perfeito Governador, que não era fácil a questão que em seu louvor se movia, se resplandecia mais em suas excelências o esforço de Alexandre, ou a sabedoria de Nestor; porque administrada a guerra como summo Emperador e governava a republica como perfeitíssimo Magistrado. Sampayo in Cap. 2. Vit. B. Petri Eborens. Insignis ille et immortali laude dignus, atque Heroum antiquorum numero meritíssimo referri potest. Barbud. Empres. Milit. De Lusit. fol 156 v.º adqueriendo triumfos a su Patria, y ganando coronas a su Rey. Lafitau Hist. Des Decouert Conq. Des Port. Tom 1, pag. Mihi 520. Dans la guerre il fut veritablement grand par la noblesse de ses projects, la prudence auec la quele il les conduisoit, e la Vigueur auec la quele il les executa. Dans le conseil, e dans l’action il paroissoit en lui deux hommes tous differens. Osorius de rebus Emman. Lib. 10. Tanta manque erat humanitat praeditus ut utrum magis multi illius virtutem metuerent, na bonitatem amarent, esset explicatu difficillimum. Imprimis autem jus aequalibe colebat, & fidem violatam acerrime puniebat, neminique injuriam fieri patiebatur… Non erat alienus à litteris: & cum otium erat, lectione sacrarum praecipue litterarum oblectabatur. Thevet Vies des Homm. Illust. Pag. Mihi 422. Fondateur dela domination des Portugalois en Inde. Franc. De Santa Mar. Ceo abert. Na Terra liv. 3, cap. 67. Na liberalidade, e magnificência foy insigne, na constancia admirável, na religião excelente, e em tudo Heroe da primeira grandesa, glorioso assumpto das trombetas da Fama. Neufuille Hist. Gen. De Portug. Tom 2, liv. 8, pag. 466. Ce grand homme, cet Albuquerque le Grand aussu heurevx, et redoutable pendant la guerre que craint, et revere pendant la paix fut regret de plusieurs Princes qui avoient connu sa values, e de toutes les nations qui avoient éprouvé sa clemence. Telles Hist. da Ethiop. Alt. liv. 1, cap. 7 e liv. 2, cap. 1. Fr. Agostinh. De Santa Maria Sanct. Marian. Tom 8, liv. 1, cap. 55. Barros Decad. 2 da hist. Da Ind. per tot. Damião de Goes Chron. delRey D. Manoel 3 part, cap. 80. Martin. Copend. Delas Hist. dela Ind. Orient. Pag. 174 até 194. Gab. Per. Ulyssea Cant. 7. Estanc. 100.

Logo o famoso Affonso o mar cobrindo

De náos, os Malabares afugenta,

Do grão Neptuno as ondas oprimido

Que de seu grave pezo já rebenta.

Macedo Ulyssipo Cant. 12, Est. 156.

Se querei vér o Capitão mais claro

Que a fama conheceo, que vio a terra;

Vede a Albuquerque insigne archivo raro

Qe a disciplina militar encerra,

Quantas vezes o vejp, mais reparo

Neste grande varão rayo da guerra;

Notay-o de vagar que basta vello

Para ficardes do valor modelo.

Os Commentarios das heroicas acçoens obradas no Oriente pelo grande Albuquerque escritos por seu filho se compuseram das noticias, que a ElRey D. Manoel mandou o mesmo Albuquerque, como na Dedicatoria da dita obra e ElRey D. Sebastião confessa seu author por estas palavras. Offereci estes Commentarios a V. A. que colligi dos próprios Originaes que o grande Affonso Dalbuquerque no meyo de seus acontecimentos escrevia a ElRey D. Manoel vosso Visavó. Donde procedeo imaginarem alguns Escritores, e entre eles o doutíssimo João Solorzano Pereira, de Jure Ind. Tom 1, liv. 1, cap. 3 n 48 ser obra do grande Albuquerque. Além das noticias, que escreveo este Heróe, que servirão para formar os Commentarios das suas acçoens, estão nelles impressas estas suas obras. Duas repostas, que mandou a duas Cartas de Cogeatar. Part. 1, cap. 62. Reposta a huma Carta de Lourenço de Brito, Capitão de Cananor, part. 2, cap. 3. Instrucção mandada por Fr. Luiz da Ordem Serafica a ElRey de Narsinga, em que dava noticia, do que lhe succedera na conquista de Calicut, part. 2, cap. 17. Carta escrita ao Xeque Ismael, part. 2, cap. 23. Instrucção dada a Ruy Gomes para o Xeque Ismael, ibi. Carta a ElRey de Ormus, ibi. Carta a Gopicaiça Aguazíl mòr, e de Cambaya, part. 2, cap. 46. Carta escrita a Timoja Aguazíl mór, e Capitão da Gente de Goa, e Senhor das terras de Cintacora, part. 2, cap. 49. Carta ao Hidalcão quando conquistou Goa, part. 3, cap. 4. Instrucção, que deu a Antonio de Miranda de Azevedo, com hum prezente para ElRey de Sião, part. 3, cap. 36. Carta a ElRey D. Manoel, em que lhe relata a conquista de Goa, part.  3, cap. 56. Carta escrita ao mesmo Monarcha em 12 de Dezembro de 1515 estando próximo à morte em que lhe recomenda o despacho de seu filho, part. 3, c. 45 e na Decad. 2 de Barros L. 10, cap. 8 vertida em Latim por Osorio de reb. Emman lib. 10 em Castelhano por S. Roman. Hist. Dela Ind. liv. 2, cap. 9 e em Francez por Lafitau. Hist. Des Conq. De Portug. Tom 1, pag. Mihi 516.

 

[Bibliotheca Lusitana, Historica, Critica e Chronologica, vol. 1]