AFFONSO IV do nome, e VII Rey de Portugal, que ou pela aspereza da consição, ou pelo valor do animo foy intitulado antonomasticamente o Bravo, nasceo na Cidade de Coimbra a 8 de fevereiro de 1291, sendo seus Augustos Progenitores, ElRey D. Diniz, e a Rainha D. Isabel, que por suas singulares virtudes mereceo, que das veneraçoens do Trono fosse com religiosos cultos adorada nos Altares. Logo nos primeiros anos lhe nomeou seu Pay por Mestre a D. Martinho de Oliveira, taõ venerável pela dignidade, como pela virtude, para formar na sua Pessoa huma perfeita imagem de Soberania, e em taõ tenra idade deus sinaes evidentes, de que a natureza o tinha dotado de huma índole capaz de obrar acçoens dignas do seu nascimento; porém com o progresso dos anos deixando-se arrebatas da violenta paixaõ do governo, determinou com temeraria ousadia cingir a Coroa na vida de seu Pay, sendo huma das principaes causas, porque se resolveo a executar esta abominável acção, o particular affecto, com que aquelle Principe amava o seu Irmão Affonso Sanches, a quem perseguio com taõ declarado odio, que além de o despojar da fazenda, o privou da honra. Na Varonil idade de trinta e quatro anos subio ao Trono, e devendo totalmente applicarse ao governo do Reyno, a que anhelára, se esqueceo taõ torpemente delle, que todo o tempo consumia no exercício da caça, de cujo excesso, que fatalmente arruinava a Monarchia, sendo fielmente advertido pelos seus Vassallos, ainda que recebeo com semblante irado a advertência, de tal sorte moderou a inclinação, que toda a converteo em beneficio do Reyno. Aggravado de varias ofensas que recebera de Affonso XI de Castella, com quem desposára sua filha a Infanta D. Maria, lhe declarou huma horrível guerra, de que se seguiraõ funestas consequências a ambas as Monarchias, alternando a fortuna sucessos prósperos, e adversos assim na terra, como no mar. Para pacificar os discordes ânimos destes dous Principes mandou a Santidade de Benedicto XII ao Bispo de Rhodes por seu Legado, e ainda que de alguma sorte reprimio este incendio, totalmente o naõ extinguio. Augmentavase mais o furor do nosso Principe contra El Rey de Castella por lhe serem notórias as ignominias, com que tratava a sua filha a Infanta D. Maria, preferindolhe no amor, e na estimação a D. Leonor Nunes de Gusmão, a cuja fermosura tinha lascivamente sacrificado o coraçaõ. Porém huma fatal calamidade que ameçava a ultima ruina a toda Espanha, obrigou a que se reconciliassem os ânimos destes Principes. Resolveuse Alboacen Rey de Marrocos coligado com o de Granada invadir Espanha, e capitaneando hum Exercito, que se fasia formidável pela sua excessiva multidão, pois constava (como affirmaõ os Authores daquele tempo) de quatrocentos mil Infantes, e sessenta mil Cavallos, cercou Tarifa confiando que com rendimento de taõ forte Praça se faroa senhor absoluto de toda Espanha. Fatal foy a consternação, que concebeo com esta insausta noticia o animo de Affonso XI conhecendo que naõ podia resistir a poder taõ superior, e para que naõ fosse despojo das Armas de Alboacen, suplicou ao nosso Monarcha quisesse ser seu auxiliar em taõ perigosa empresa. Para que esta sipplica dosse prontamente atendida mandou por interprete della a sua própria esposa a Infanta D. Maria, que chegando em Evora à presença delRey seu Pay foy inexplicável o jubilo com que a recebeu, mayor a ternura com que a abraçou. Esquecido dos agravos do genro se deliberou em obsequio de taõ soberana intercessora passar em pessoa a Castella com hum Exercito mais formidável pelo valor, que pelo numero dos combatentes. Foy recebido em Sevilha com magnifica pompa por ElRey e toda a Coste Castelhana, a quem em presagio da victoria lhe cantaraõ os meninos com innocentes vozes as palavras, com que Christo entrou triunfante em Jerusalem Benedictus qui venit in nomine Domini. Para se evitar alguma confusaõ, que fosse prejudicial ao feliz successo desta empresa resolveraõ os dous Monarchas, que o Portuguez invadisse o Exercito delRey de Granada, e o Castelhano o del Rey de Marrocos. Fortalecidos os nossos Soldados com o espiritual alimento de Paõ dos Anjos mandou o nosso Principe ao Alfares mòr, que arvorasse por Estandarte o Sacrosancto Lenho da Cruz, e sendo profundamente adorado por todo o Exercito investirão os Soldados como furiosos Leoens contra as esquadras inimigas, que animosamente rebateraõ taõ violento impulso. Por largo tempo esteve indecisa a victoria, até que inclinando-se para a nossa parte, foy tal o pavor, que ocupou os ânimos dos Mouros, que fugindo ignominiosamente, deixáraõ o campo semeado de Cadaveres. A felicidade deste successo animou a ElRey de Castella de tal modo, que naõ querendo ficar inferioe na gloria do triumfo ao nosso Principe, investio com tanto ímpeto aos inimigos governados por ElRey de Marrocos, que os obrigou a desamparar os arrayaes, degolando a huns, cativando a outros, e recolhendo os mais preciosos despojos. Esta foy aquella famosa, e celebre batalha alcançada em 30 de outubro de 1340 junto às correntes do Rio Salado, donde tomou o nome, em que morreraõ duzentos mil bárbaros, cujo excessivo numero obrigou à Fama, que a divulgasse por única, e que a Igreja a celebrasse por milagrasa, cauzando inexplicável jubilo à Christandade, eterna segurança, e preciosos despojos a Espanha, immostal gloria aos dous Monarchas. De taõ fausta noticia fizeraõ logo participante ao Supremo Pastor da Igreja, mandando-lhe para sinal do triumfo trinta, e quantro bandeiras ganhadas aos Mouros, e foy tal o alvoroço, que concebeo o coraçaõ do Pontifice, que entrando na Cathedral de Avinhaõ para render as graças ao Altissimo por taõ insigne victoria, ordenou, que levassem diante os Estandartes dos Mouros arrastrados, e tremolãtes os dos dous Monarchas, rompendo o seu devoto agradecimento com as palavras do Hymno Vexilla Regis prodeunt, que continuou acordemente todo o Collegio Apostolico. Conhecendo Affonso XI qe o mais glorioso instrumento desta victoria fora a espado do nosso Principe, lhe pedio escolhesse dos despojos, que della se tinhaõ colhido, os que fossem mais agradáveis aao seu gosto. Porém o nosso Monarcha com animo verdadeiramente Real, triunfante da mesma victoria, escolheo aquelles, em que tinha mayor parte a honra, que o interesse, como foraõ o Infante Abohamo filho de Albohalì, que cativou com a sua própria maõ, algumas espadas primorosamente fabricadas, huma trompeta, com que depois se coroou o seu Mausoleo, e cinco estandartes, que pendurou por trofeos da victoria na Cathedral de Lisboa. Antes de cingir a coros, se despojou em Lisboa a 12 de setembro de 1309, com a Infanta D. Brites filha delRey de Castella D. Sancho IV, o Bravo, e da Rainha D. Maria filha do Infante D. Affonso Senhor de Molina, da qual teve a Infanta D. Maria, que foy esposa de Affonso XI de Castella; os Infantes D. Affonso, e D. Diniz, que morreraõ de tenra idade; o Infante D. Pedro, que herdou a Coroa; a Infanta D. Izabel, e o Infante D. João que brevemente foraõ transferidos para melhor vida, e ultimamente a Infanta D. Leoor, que casou com ElRey de Aragaõ D. Pedro IV chamado o Ceremonioso. Conhecendo que era chegado o termo da sua vida se preparou com as armas dos Sacramentos para esta ultima batalha, e entre os suspiros de hum coraçaõ verdadeiramente arrependido exalou o espirito em Lisboa a 28 de mayo de 1357 em idade de 66 annos, trez mezes, e vinte dias, dos quaes reynou trinta, e dous anos, quatro mezes, e vinte e hum dias. Jaz sepultado na Cathedral de Lisboa em hum soberbo Mausoeo defronte da Capella, onde se venera o corpo do ínclito Martyr S. Vicente, tendo por epitáfio estas breves palavras: Aphon sus nomine Quartus Ordine septimus Portugalliae Rex. Sobre o Mausoleo está huma figura, que sustenta a trombeta, que foy glorioso despojo da batalha do Salado, a qual, ainda que muda, se explica por estas métricas vozes: Haec tuba, quam Mauris Alphonsus nomine Quartus Abstulit, ut famá primus in orbe foret; Dum resonat Regem, partumque à Rege triumphum, Attamen Alphonsum surgere você jubet. Foy de estatura mediana, especto agradável, e de perfeita simetria. Teve a testa larga com algumas rugas; nariz grande algum tanto curvado, boca grande, a barba copiosa, e partida pelo meyo, cabelo castanho e crespo. Foy para Deos sumamente Religioso; para os homens extremosamente compassivo. Observou exactamente a continência conjugal, em cuja virtude excedeo a todos os Principes seus Antecessores. Amou a verdade, assim como aborreceo a mentira. Nos infortúnios foy constante, nas felicidades moderado. Administrou a justiça com rectidaõ, exercitou a clemencia sem excesso. Tomou por empresa huma Aguia colocada sobre huma penha levantando o voo até as esferas com esta letra Altiora peto em cuja Enigmatica figura simblizava o heroico impulso do seu Coraçaõ para empreender acçoens mayores, que suas forças, e iguaes a seus desejos. Mais gloriosa fora na posteridade a sua fama, se a naõ manchára com a injusta morte da inocente fermosura de D. Ines de Castro de cuja lamentável tragedia foy cruelíssimo complice. Fez utilíssimas Leys para o Governo politico, nas quaes se admira unido o zelo do bem publico com a sciencia civil e se incorporáraõ com as Ordenaçoens do Reyno. Dellas fizeraõ hum Catalogo Duarte Nunes de Leão no fim da Chronica deste Principe, e Fr. Rafael de JESUS Chronista mòr do Reyno na Mon. Lusit. Part. 7, liv. 10, cap. 23 onde escreveo difusamente a vida deste Monarcha. Como era naturalmente affecto à Poezia compoz vários versos, que não deixavaõ de ser elegantes em idade taõ inculta para as Musas, dos quaes tinha feito huma collecçaõ Fr. Bernardo de Brito Chronista mòr do Reyno para se imprimirem, como testifica o insigne Antiquario Manoel Severim de Faria. Fazem ilustre menção deste Monarcha, Fernao Lopes, Ruy de Pina, Duarte Galvaõ, Duarte Nunes de Leaõ nas suas Chronicas, Fr. Bernardo de Brito nos Elog. dos Reys de Portugal, Elog. 8. Vasc. Anaceph. Reg. Lusit. Pag. 113. Faria Europ. Port. Tom2, part. 2, cap. 3 e no Epit. Das Hist. Portug. Part. 3, cap. 8. Gordon in Chronol. Bleda Chron. De los Morisc. Lib. 4, cap. 36. Marian. De reb. Hispan. lib. 15, cap. 16 & lib. 16, cap. 7 & lib. 17, cap. 1. Ferrer. Hist. De Espan. Tom 7 ad. An. 1337. Fonsec. Evora Glosios. Pag. 56. Caramuel Philip. Prud. Pag. 45. Souza Hist. Geneal. Da Cas. Real Portug. Tom 1, liv. 2, cap. 3. Leytaõ Mem. Chronol. Da Univ. de Coimb. Pag. 131 até 147.

 

[Bibliotheca Lusitana,  vol. 1]