Fr. MANOEL DO SEPULCHRO, naceo em Villa-Nova de Portimaõ em o Reino do Algarve a 23 de Mayo de 1596. Foy filho de Antonio Fernandes Barroso, que sendo ferido de huma balla no fatal dia de 4 de Agosto de 1578 se restituhio por sua industria a Portugal, e de Margarida Carvalha. Aprendeo em Lisboa os rudimentos Grammaticaes, e arte da Poezia para que teve natural cadencia de que deu claros indicios em Coimbra, quando contava quinze annos de idade levando o premio em hum certame que lhe julgaraõ Fr. Vicente Pereira da Ordem dos Prégadores Cathedratico de Prima, e D. André de Almada Juizes do dito Certame. Resoluto a abraçar instituto Religioso, preferio o Serafico, cujo habito trouxera vestido atè a idade de sinco annos, mas como tinha a estatura muito pequena difficultou o Provincial Fr. Ambrosio de Jesus, que fosse admittido, porém instado dos rogos do pertendente conseguio o seu intento entrando na Religiaõ no Convento de Lisboa a 16 de Janeiro de 1613. Para ocultar a falta de vista, pela qual certamente seria expulso estudou de cór as liçoens, e Responsorios que havia cantar no Coro, e as Epistolas, e Evangelhos nas Missas Solemnes, cujo defeito ninguém conheceo até o anno de 1628, em que foy eleito Mestre de Filosofia, que dictou no Convento de Santo Antonio de Ferreirim, e Theologia em o de Lisboa, de cujo  laborioso exercicio se seguio perder a vista de hum olho, e de outro quasi a tinha extincta, porém era a sua memoria taõ fiel depositaria de toda a erudiçaõ sagrada, e profana que sentindo se privado  o mais nobre sentido, para naõ passar ociosamente o tempo emprendeo compor obras, que publicou valendo-se dos olhos alheyos para lhe lerem os livros dos quaes apontava as paginas, onde estava o que lhe servia para o seu discurso. Sendo Guardiaõ do Collegio de Coimbra era continuamente consultado em materias gravissimas por ser igualmente douto, e timorato merecendo, que por carta sua lhe pedisse Filippe III. seu voto sobre o provimento da Cadeira do Decreto. Para solemnizar a gloriosa aclamaçaõ do nosso Restaurador o Serenissimo Rey D. Joaõ IV. convocou as Musas o Reitor da Universidade de Coimbra Manoel de Saldanha, e concorrendo todos os Collegios, se distinguio o de S. Boaventura, que governava o P. Fr. Manoel do Sepulchro compondo nas lingoas Latina, Italiana, e Portugueza diversos metros em que modestamente ocultou o seu nome para que toda a gloria resultasse aos seus subditos. Em premio dos seus estudos escolasticos, foy eleito Presidente das Conclusoens que se haviaõ defender no Capitulo Geral celebrado em Roma no anno de 1651, e hindo embarcado com outros vogaes em huma nao Franceza, como fosse tomada por huma Ingleza junto á Ilha de Malhorca aportou despojado de tudo quanto levava na Ilha de Svessa, donde se restituhio a Portugal. De mayores perigos se vio livre por superior impulso em os annos de 1636, e 1639 em que esteve agonisante a sua vida. Foy Custodio da Provincia, e Confessor das Religiosas do Convento de Santa Clara de Lisboa, onde dirigio pelo caminho da perfeiçaõ Evangelica a Sor Margarida do Sacramento fiel imitadora de sua Madre Santa Clara. Falleceo piamente no Convento de Lisboa a 2 de Março de 1674 quando contava a provecta idade de 82 annos. Delle faz honorifica memoria Fr. Fernando da Soled. Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Part. 3. liv. 1, cap. 21. E Part. 5. liv. 4. cap. 44. e 45. Compoz.

Refeiçaõ Espiritual para a meza dos Religiosos, e de toda a devota familia ordenada por todas as Domingas, e Festas do anno segundo a fórma da Reza Romana no Officio do Tempo. Primeiro, e segundo Tom. Lisboa por Joaõ da Costa 1669. fol. & ibi por Miguel Manescal da Costa 1742. fol. 2. Tom.

Roza Franciscana. Tratado da prodigiosa Vida da Virgem S. Rosa de Viterbo professa da Veneravel Ordem Terceira de S. Francisco. Lisboa, por Antonio, Rodrigues de Abreu. 1673. 4.

Nos aplausos que a Universidade de Coimbra dedicou á Aclamaçaõ do Serenissimo Rey D. Joaõ IV. que sahiraõ em Coimbra, por Diogo Gomes de Loureiro 1641. 4. estaõ versos seus a pag. 52. 57. 65. 66. 67. e 115.

Relaçaõ do naufragio que padeceo no anno de 1636. Está impresso na Hist. Serafica de Fr. Fernando da Soledade Part. 5. liv. 4. cap. 36. n. 1266.

Relaçaõ de outro perigo de que Deos o livrou. Na dita Hist. Seraf. Part. 5. n. 1270.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]