P. MANOEL DE SOUSA, chamado no seculo Manoel de Sousa Brandaõ, naceo em Lisboa a 2 de Dezembro de 1647 sendo filho de Joaõ Lopes Brandaõ, e Izabel Nunes de Sousa. Instruido nas letras humanas se aplicou na Universidade de Coimbra ao estudo da Filosofia recebendo o grao de Mestre em Artes, e como fizesse o seu penetrante engenho iguaes progresos na Jurisprudencia Cesarea, e Pontificia se formou Bacharel em ambas estas Faculdades. Aprovada a sua sciencia legal em o Dezembargo do Paço, foy despachado por Juiz de fóra de Leiria, onde juntamente exercitou por algum tempo o lugar de Corregedor daquella Comarca com tanto credito da sua inteireza, e literatura que era por universal aclamaçaõ digno dos primeiros lugares da Republica. Retirado a huma sua Quinta em quanto naõ era provido em o lugar de Provedor de Setubal, a que se opozera, para naõ passar ociosamente o tempo o ocupava na liçaõ das obras da Serafica Madre Santa Tereza, de cujos documentos altamente penetrado se resolveo a seguir a vida em que naõ perigasse a sua salvaçaõ. Para este fim buscou ao V. Padre Bartholameu do Quental, que naquelle tempo tinha dado principio á Congregaçaõ do Oratorio suplicandolhe com fervorosas instancias o admitisse ao numero dos seus Congregados. Deferio o V. P. a esta suplica vestindolhe a roupeta a 21 de Dezembro de 1677 quando contava 30 annos de idade. Nesta virtuosa palestra começou a praticar os exercicios espirituaes com tanto fervor que servia de estimulo aos outros Congregados. Ordenado de Presbytero foy eleito Preposito a 22 de Novembro de 1687 merecendo ter por subdito ao Fundador da Congregaçaõ, que com grande gosto lhe tomava a bençaõ. A prudencia com que exercitara este lugar o habilitou, para que segunda vez fosse nelle eleito no anno de 1695. Sendo manifestas a ElRey D. Pedro II. as virtudes de que se ornava o seu espirito o nomeou a 15 de Novembro de 1684 Arcebispo da Serra, e em 25 de Outubro de 1696 Bispo do Funchal, cujas dignidades regeitou. Desejando o Illustrissimo Arcebispo de Evora D. Fr. Luiz da Sylva, que na sua Diecesi se erigisse Congregaçaõ para beneficio espiritual das suas ovelhas, o elegeo para Fundador da Congregaçaõ da Villa de Estremoz a que deu feliz principio a 10 de Outubro de 1697. O infatigavel zelo com que na Cadeira, e no Pulpito dirigia as almas para o caminho da eternidade, e o summo disvelo com que socorria todo o genero de affliçoens lhe adquiriraõ universal veneraçaõ concorrendo varias pessoas de differentes Jerarchias a buscar nos seus conselhos a tranquilidade das consciencias. Passados 20 annos de assistencia em Estremoz, onde totalmente se dedicou em beneficio dos proximos permitio Deos, que para exame da sua paciencia fosse acometido de huma parlezia, que lhe deixou livre a cabeça, e capaz de commungar todos os dias, e alternar as horas com a Oraçaõ Mental, e liçaõ dos livros espirituaes. Entrando no anno de 1716 o nosso Serenissimo Monarcha D. Joaõ V. na Villa de Estremoz o visitou no seu cubiculo acompanhado do Senhor Infante D. Antonio, e grande parte da Nobreza, e agradecendolhe a honra que com elle usara, ao despedirse ElRey lhe recomendou intercedesse pela sua Pessoa, e o Reino, ao que respondeo com as palavras do real Profeta. Specie tua, & pulchritudine tua intende prospere, procede, &regna: propter veritatem, & mansuetudinem, &justitiam deducet te mirabiliter dextera tua. Acometido do segundo acidente recebeo com summa piedade os Sacramentos, e abraçado com hum Crucifixo espirou placidamente entre os seus Congregados a 17 de Novembro de 1717, quando contava 71 annos de idade, e 40 de Congregaçaõ. Foy sentida a sua morte concorrendo grande concurso a venerar o cadaver de hum varaõ que por toda a vida se occupara em beneficio dos proximos. Voltando de Roma o Emminentissimo Cardeal da Cunha Inquisidor Geral destes Reinos, e entrasse em Estremoz sabendo que era fallecido, foy á sua sepultura, e sobre ella lhe resou hum Responso. O seu Retrato ao natural de corpo inteiro se conserva na Congregaçaõ de Estremoz animado com a seguinte inscripçaõ.

V. P. Emmanuel de Sousa Ulysiponensis Congregationis Oratorii Praesbiter, & hujus Stremosiensis Congregationis, &domùs Fundator: Vir in omnium aestimatione magnus, sed omni aeestimatione maior; nam ingenio multiplex, sapientia clarus, doctrina excellens, prudentia spectabilis: Concilio, quod tamquam Oraculum vel Rex ipse, ac universa Curia rebus etiam difficillimis ex illius auscultabant orè, maturus: Et quae ista superant, humilitate insignis, patientia rarus Oratione assiduus, Dei Charitate flagrans, salutis animarum zelo fervidus; humanitate qua proximos Deo alliciebat, plusquam humanus: propriae salutis, quam omnibus suis actionibus pro fine praestituerat, solicitudine eximius: regulari observantia minutissimus; spiritùs paupertate qua patrimonium non mediocre in pietatis suppeditavit obsequium, certe beatus: perfectionis studio praeclarissimus ac denique virtutum omnium, quae Apostolicum decent virum. Dignus profectò quem honores, & dignitates, quae aliis ornamenta sunt, futurum sibi veluti ornamento ambirent; etenim Congregationis Ulysiponensis primus extitit á Fundatore Praepositus, & a Serenissimo Petro II. tum Metropolitanae Serrensis, tum Funchalensis Ecclesiae creatus est Pastor: sed vir humillimus qui in caelestis Patris Familias domo sicut unus è mercenariis fieri exoptabat, constanter renunciavit Pastoris nomini, quod exequabat munere factus forma Gregis ex animo. Affulsit illi tandem post gravissimas infirmitates quas fere per decennium gratanter sustinuit, optatus mercenarii dies quinto decimo Kalendas Decembris in quo à supremo Pastorum Principe, ut piè creditur, immarcessibilem gloriae coronam percepit elabente anno Domini. 1717. aetatis suae 71 Congregationis verò. 40.

Faz deste insigne Varaõ honorifica memoria o P. D. Antonio Caetano de Sousa Cathal. dos Bisp. do Funchal. §. 17. Compoz

Arte de bem viver. M. S.

Tratado contra os hereges que negaõ o culto ás Imagens sagradas. M. S.

Conserva-se na Congregaçaõ de Estremoz.

Doutrinas de Maria Santissima recopiladas dos 3. Tomos da Mystica Cidade de Deos escrita pela Madre Maria de Jesus de Agreda. M. S.

Teve genio admiravel para a Poezia de que usou com facilidade, quando era secular de cuja metrificaçaõ se lem impressos dous Sonetos a p. 68, e 69 á morte do Excellentissimo Marquez de Tavora Luiz Alvares de Tavora em o Compend. Da Vida, e açoens deste Heroe. Lisboa por Antonio Rodrigues de Abreu 1674. 4. Por esta causa he numerado entre os Poetas Portuguezes pelo P. Antonio dos Reys da mesma Congregaçaõ no seu Enthus. Poet. n. 270. da 4. ediçaõ dos seus Epigrammas dizendo.

……………… Sousa

It comes his viridi praecintus tempora lauro

Et bene vivendi quae dogmata panxerat olim

Ad cytharae recitat modulos.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]