Sor. MARGARIDA DE S. PAULO, chamada no seculo Dona Margarida de Noronha, naceo em a Cidade de Evora, onde teve por claros Progenitores a D. Francisco de Noronha, II. Conde de Linhares, Commendador de S. Martinho no Bispado de Coimbra da Ordem Militar de Christo, Embaixador delRey D. Joaõ III. a França, e Mordomo mòr da Rainha D. Catherina, e D. Violante de Andrade Dama da Emperatriz D. Izabel, filha de Fernaõ Alvares de Andrade, Fidalgo da Casa delRey D. Joaõ III., e do seu Conselho, Escrivaõ da Fazenda, e seu Thesoureiro mór, e de Izabel de Paiva, filha de Nuno Fernandes Moreira, Escrivaõ da Camera de Lisboa. Na primavera dos annos se desposou com o Divino Cordeiro, em o Convento da Annunciada da illustre Ordem de S. Domingos preferindo com heroico desengano os rigores do claustro ás delicias da Casa paterna. A perspicacia do juizo, e felicidade da memoria contribuiraõ para ser insigne na intelligencia das lingoas Latina, Franceza, Italiana, e Ingleza, como nas Artes Liberaes, escrevendo com tal primor, e debuxando com tanta valentia, que igualmente arrebatava as attençoens dos mais excellentes professores da Pintura o seu pincel, e a sua penna. Na Architectura civil foy taõ perita que desenhou a Igreja, Officinas, e Varanda do Convento da Annunciada, que elegeo para sua habitaçaõ. Naõ lhe deveraõ menor disvelo a Arismethica, e a Musica regulando pelos seus preceitos a suave voz com que cantava, e a destreza com que tocava varios instrumentos. Para fugir do ocio se occupava compondo varios discursos na lingoa Latina, e Portugueza ornados de erudiçaõ sagrada, e profana. Unio com tal arte os dotes de prudente, e afavel que exercitou por quatro trienios o lugar de Prioreza, experimentando as subditas ternura de Mãy, e naõ severidade de Prelada. Informado Filippe II. da sua profunda erudiçaõ, como honrasse com a sua real presença a profissaõ de huma Religiosa, a ouvio recitar neste Acto huma Oraçaõ sobre os tres votos solemnes, deixando justamente admirado taõ grande Monarcha da elegancia, e discriçaõ com que ornou este discurso. Cumulada de virtudes, e cheya de annos falleceo piamente a 2 de Janeiro de 1636, quando contava 86 annos de idade. Fazem honorifica memoria da sua erudiçaõ, e Artes liberaes em que foy insigne Antonio de Sousa de Macedo Flor. de Espan. cap. 8. excel. 9. Duarte Nunes de Leaõ Descripc. de Portug. cap. 90. Pacheco Vid. da Infant. D. Mar. liv. 2. cap. 2. Fr. Franc. da Nativid. Lenit. da Dor. p. 130 Franc. de Santa Maria Diario Portug. p. 18. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. p. 71. e 347. onde erradamente escreve ser Religiosa Franciscana, cujo erro seguio indisculpavelmente Fr. Joaõ de S. Antonio. Bib. Franc. Tom. 2. pag. 321. col. 2. pois naõ devia ignorar, que o Convento da Annunciada de Lisboa fora sempre da Ordem de S. Domingos. Damiaõ de Froes Perim aliàs Fr. Joaõ de S. Pedro Theatr. Heroin. Tom. 2. p. 123. Fonseca Evor. Glor. p. 415 . Sousa Histor. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 5. p. 262. Traduzio da lingoa Latina em a materna

Regra, e Constituiçoens que professaõ as Freiras da Ordem do Patriarcha S. Domingos, com o modo que nella se usa de deitar o habito, fazer profissaõ ás Freiras, e Capitulos. No fim se contém dez Oraçoens á honra das Dores, e Lagrimas com que a Virgem Senhora acompanhou a Paixaõ de seu Filho, para com ellas se rezar cem vezes a Ave Maria, e o modo do Rosario. Lisboa por Pedro Crasbeeck 1611. 8.

Discursos Espirituaes. M. S. Desta obra fazem mençaõ Sousa de Macedo, Duarte Nunes, e Fr. Francisco da Natividade nos lugares assima allegados.

Relaçaõ do Caso de Prioreza da Annunciada Sor Maria da Visitaçaõ, que

fingio ter impressas as Chagas de Christo no seu corpo. M. S. Nella narra com toda a individuaçaõ este caso, que escreve com a sua natural elegancia o grande Fr. Luiz de Sousa Hist. da Prov. de S. Domingos de Portug. Part. 3. liv. 1. cap. II.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]