Fr. MARTINHO MONIZ, filho de Jeronymo Moniz de Lusignano, e D. Elvira de Alarcaõ, que o pario na Capella de N. S. da Piedade do Real Convento do Carmo de Lisboa, a tempo que estava rogando a esta imagem lhe desse feliz parto. Recebeo a graça bautismal na Parochia de S. Nicolao a 14 de Agosto de 1585. Como tinha nacido para a vida natural no Templo dos Carmelitas, em memoria de taõ alto beneficio, renaceo em o mesmo lugar para a vida espiritual vestindo o habito Carmelitano a 13 de Dezembro de 1599, cujo instituto professou solemnemente a 15 de Agosto de 1601. Estudada a Filosofia no Convento de Lisboa, e Theologia em o Collegio de Coimbra, em cuja Faculdade sahio eminente, se dedicou ao ministerio do pulpito, onde conciliou geral applauso. A prudencia, de que se ornava o seu juizo o habilitou para duas vezes ser Provincial da sua Provincia: a primeira eleito a 2 de Fevereiro de 1625, e a segunda a 7 de Mayo de 1634, e sendo instado a aceitar terceira vez este lugar o naõ aceitou, para naõ ser arguido de ambicioso. Foy nomeado pela Santidade de Urbano VIII. Visitador da Congregaçaõ dos Conegos Regulares, para pacificar as inquietaçoens originadas da eleiçaõ do seu Prior Geral, cuja incumbencia desempenhou, como do seu grande talenlo se esperava. Com semilhante prudencia serenou as discordias dos Conventos das Religiosas de S. Anna, e Santa Clara de Coimbra. Entre as pessoas Ecclesiasticas, e Seculares, de que recebeo estimaçoens se distinguio ElRey D. Joaõ IV. o qual na primeira ocasiaõ, que veyo ao Convento do Carmo lhe fez a especial honra de entrar no seu aposento, e nelle beber agoa. Naõ foy inferior merce a esta a que recebeo deste Principe, quando acompanhando a Procissaõ no 1 de Dezembro de 1641, que sahio da Cathedral até o Convento do Carmo, em acçaõ de graças pela sua faustissima Aclamaçaõ, como chegasse a horas em que naõ podia recitar o Sermaõ, lhe mandou que logo o imprimisse, querendo suprir com os olhos, o que naõ pode perceber pelos ouvidos. Regeitou com modestia religiosa o governo do Bispado de Angra, e a Mitra da Cidade do Porto, em que fora nomeado por motu proprio de Innocencio X. no tempo que o Pontifice negava em obsequio de Castella Pastores para as Igrejas de Portugal. Dos copiosos legados, que lhe deixara sua Tia D. Anna de Ataide, mandou fazer oito grandes quadros, que ocupaõ as paredes da Capella mór do Convento de Lisboa; o Coro dourado até a simalha, e o candieiro de Prata, que serve nas Festas mayores de Christo, e sua Mãy Santissima, com as banquetas do mesmo metal. Foy excessivamente caritativo despojando-se muitas vezes dos proprios vestidos, para cobrir os pobres. Cumulado de obras meritorias, e recebidos todos os Sacramentos, falleceo piamente a 13 de Novembro de 1653, quando contava 68 annos de idade e 53 de religioso. Dedicou-lhe sumptuosas Exequias, Fr. Sancho de Fáro, Prior do Convento de Lisboa, a que assistiraõ toda a Nobreza, e Communidades Religiosas. Foy sepultado no Cemiterio amigo, com o seguinte epitafio Aqui jaz o M. R. P. M. Fr. Martinho Moniz, Provincial que foy duas vezes

desta Provincia, e pelo Papa Urbano VIII. Visitador Apostolico dos Conegos Regrantes da Ordem de Santo Agostinho, Varaõ insigne em Religiaõ, e em pulpito. Falleceo a 13 de Novembro de 1653. Publicou

Sermaõ, que fez para o dia da Aclamaçaõ delRey D. Joaõ. IV. Lisboa, por Lourenço de Anveres 1642. 4. O Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha Arcebispo de Lisboa, na licença que deu em 13 de Dezembro de 1641 para se imprimir diz: Damos Licença que se imprima, para que se possa comunicar a todos conforme o desejo, que todos tinhaõ de o ouvir.

Fazem delle honorifica mençaõ Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. M. n. 11. Franc. Bib. Hisp. M. S. Costa Corog. Portug. Tom. 3. p. 632. e Fr. Manoel de Sá Mem. Hist. dos Escrit. do Carm. da Prov. de Portug. cap. 83.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]