D. MIGUEL DE CASTRO, natural da Cidade de Evora, e quinto filho de D. Diogo de Castro Capitaõ de Evora, Alcaide mór de Alegrete, Mordomo mór da Princeza Dona Joanna de Austria, mãy delRey D. Sebastiaõ, e de Dona Leonor de Ataide, e irmaõ de D. Fernando de Castro I. Conde de Basto. Desde a primeira idade deu claros argumentos da innocencia de costumes, e prudencia das ações que havia praticar em todo o discurso da sua vida. Consumados com grande credito do seu talento os estudos em a Universidade de Coimbra, onde recebeo a borla doutoral na faculdade de Theologia, foy provido no Priorado da Igreja de S. Christovaõ de Lisboa, que foy o preludio para o governo de mais dilatado rebanho. De Inquisidor da Inquisiçaõ de Lisboa, de que tomou posse a 18 de Junho de 1566 passou a Deputado do Conselho Geral a 3 de Setembro de 1577, e como com o progresso dos annos se augmentassem mais os seus merecimentos, foy assumpto ao Bispado de Viseu em 15 de Setembro de 1579, donde subio á Cadeira Metropolitana de Lisboa em o anno de 1585. Em ambas estas Dignidades desempenhou as obrigaçoens de vigilante Pastor socorrendo copiosamente aos pobres, ornando generosamente os altares, evitando prudentemente os escandalos, e introduzindo suavemente as virtudes. Como era grande a esfera do seu talento resolveo a Magestade de Filippe III. que se naõ limitasse ao governo espiritual, mas tambem se extendesse ao temporal nomeandoo no anno de 1615, Vice-Rey de Portugal, cujo honorifico lugar aceitou constrangido considerando, que as suplicas dos pertendentes, e a multidaõ dos despachos lhe haviaõ perturbar a tranquilidade do seu espirito. Em todo o tempo do seu governo servindo-lhe de conductores das suas acçoens a rectidaõ do animo, e a madureza do juizo se viraõ refreadas as insolencias, premiados os merecimentos, e punidos os delictos. Cumulado mais de obras virtuosas, que cheyo de annos esperou constante a morte, que o transferio á eternidade gloriosa em o 1 de Julho de 1625. Foy geralmente lamentada a sua morte naõ sómente pelos pobres, dos quaes era amoroso Pay, mas de todas as Familias Religiosas, que com exemplo nunca visto lhe dedicaraõ pelo espaço de oito dias solemnes exequias com Panegyricos funebres na Cathedral de Lisboa, em que se relatavaõ as virtudes heroicas de taõ vigilante Prelado. Instituhio em o anno de 1601 seis Capellaens, para que quotidianamente assistissem no Coro da sua Cathedral, e offerecessem o incruento Sacrificio do Altar pela sua Alma. Entre as generosas dadivas, que generosamente pio deixou á sua esposa se distingue hum ornamento tecido todo de ouro para com elle se celebrarem os Pontificaes avaliado em tres mil cruzados. Jaz sepultado á entrada da porta da Sé com este breve, e humilde epitafio

  1. Miguel de Castro Arcebuspo que foy de Lisboa se mandou enterrar neste lugar: pede lhe lancem agoa benta, e lhe rezem hum Pater Noster, e huma Ave Maria. Falleceo ao 1 de Julho de 1625.

Fazem honorifica lembrança deste Prelado Fr. Fernando da Soled. Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Part. 4. liv. 4. n. 766. Argaes Soledad. Lauread. Tom. 4. p. 64. Faria. Eur. Portug. Tom. 3. Part. 1. cap. 1. n. 34. Fr. Pedro Monteiro. Cathal. dos Inquis. de Lisboa. n. 13. e no Cathal. dos Deput. do Cons. Geral. n. 15. O Reverendissimo P. Joaõ Col. Cathal. dos Bisp. de Viseu. §. 55. e D. Ant. Caet. Sousa Agiol. Lusit. Tom. 4. pag. 3. e no Coment. do 1. de Julho letr. B. e o P. Francisco da Fonseca Evor. Glor. p. 324. §. 386. Promulgou

Constituiçoens do Arcebispado de Lisboa, assim as antigas, como as extravagantes. Lisboa, por Belchior Rodrigues. 1588. fol. Eraõ as Constituiçoens que tinhaõ promulgado os Serenissimos Infantes D. Affonso, e D. Henrique seus Predecessores na Cadeira Metropolitana de Lisboa.

De Viris illustribus. M. S. Desta obra o faz Author o P. Fonseca Evor. Glorios. p. 413.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]