D. PAULO DE LIMA PEREIRA. Naceo a 5 de Dezembro de 1538. Foy filho natural de D. Antonio de Lima Alcaide mór de Guimaraens do Conselho dos Serenissimos Monarchas D. Sebastiaõ, e D. Henrique, e de Anna de Sousa de Magalhaens descendente de familia nobre. A casa paterna foy a aula, onde aprendeo aquelles documentos com que se havia fazer memoravel na posteridade. Dotado pela natureza de juizo penetrante, e sublime comprehensaõ sahio profundamente versado na Poetica, Oratoria, e lingoa Latina recitando em metro heroico, quando contava 18 annos de idade huma Oraçaõ em aplauso da Fortaleza, como vaticinando os triunfos que havia alcançar o seu braço, animado pelos impulsos de taõ grande virtude. Estimulado de espiritos marciaes propoz a seu Pay, que na liçaõ das Chronicas dos Reys Portuguezes, e Historias da India Oriental achara que seus Avôs, e Tios tinhaõ obrado espantosas façanhas em obsequio da patria, e lhe parecia ser ja tempo de os imitar, degenerando de ser seu filho, pois em idade menos adulta, que a sua, tinha triunfado dos Mouros em Çafim; que lhe naõ faltava força para empunhar a espada, brio para defender a honra, e espirito para conservar o claro nome dos Limas, do qual eraõ eternos pregoeiros os Fastos Orientaes. A taõ briosa resoluçaõ condescendeu com grande alvoroço seu Pay, conhecendo que nelle tinha gerado hum Heroe. Embarcado na Armada, de que era Capitaõ mór D. Luiz Fernandes de Vasconcelos sahio da barra de Lisboa a 30 de Abril de 1557, a qual obrigada de calmarias, e tempestades, fataes remoras da navegaçaõ, surgio na Bahia de todos os Santos a 14 de Agosto, onde invernou até que sahindo a 14 de Janeiro de 1558, aportou em Moçambique em o 1 de Mayo, e ultimamente ferrou Goa a 3 de Setembro. Logo que desembarcou D. Paulo, como conhecesse o Vice-Rey o heroico espirito de que o animara a natureza, naõ permitio que estivesse ocioso em obsequio do Estado, ordenandolhe que acompanhasse a Luiz de Mello da Sylva, na Armada expedida contra os Malavares. Chegando a Mangalor acometeo a Cidade com tal furor, que naõ perdoou a sua espada a sexo, nem idade, e para que naõ restasse vestigio da sua existencia a entregou ao fogo, cuja voracidade reduzio a cinzas todos os edificios com hum sumptuoso Pagode. Desta grande acçaõ que foy preludio das muitas que obrou o seu destemido coraçaõ, foy feliz consequencia a seguinte. Para vingar a ruina de Mangalor se offereceo ao Samorim hum Rume por nome Oderabo por natureza arrogante, e por victorias respeitado, o qual eleito General de huma poderosa Armada que se fazia mais formidavel com o soccorro de Abdarragao, desejoso de ter parte na victoria, se avistou na Palmeirinha com a nossa, e depois de hum profiado combate em que foraõ destroçados os inimigos restando duas galeotas guarnecidas cada huma de cento e sessenta Soldados as investio D. Paulo, e ainda que ferido de duas balas clamava aos companheiros que naõ as deixassem fugir, pois nellas estava a coroa da victoria, e a honra da Naçaõ, e precedendo a todos com a propria espada lhe abrio largo caminho para o triunfo rendendo mais quatro, que com acelerada fugida buscavaõ a sua salvaçaõ. Igual, ou mayor gloria alcançou no espantoso sitio que os Malavares puzeraõ á Fortaleza de Cananor, sepultando de baixo dos seus muros a quinze mil barbaros. Excede a credulidade humana a victoria alcançada em Baticala de onze Galés capitaneadas por Canatale, em cujo heroico conflito ferido de quatro setas, e huma bombarda sem socorro de outra nao mais que a sua, as reduzio á ultima ruina. Abateo com o seu invensivel braço a soberba dos Reys de Colle, e Sarcetas na Fortaleza de Assari, e reduzio á nossa obediencia as Fortalezas de Onor, e Bracelor. Novos tymbres adquirio á sua fama no espantoso sitio de Goa, que lhe poz o Hidalxa no anno de 1570, onde vingou sinco feridas penetrantes, com a morte de innumeraveis barbaros. No Rio de Dabul desbaratou a Armada dos Malabares, cujo feliz sucesso lhe congratulou com publicas demonstraçoens o Vice-Rey D. Luiz de Ataide. Coroou esta corrente de victorias, com a celebre conquista da Cidade de Jor, presidiada de oito mil homens, e socorrida com a presença de tres Principes, authorizadas testemunhas do seu heroico valor publicando a gloria de taõ grande triunfo outocentas peças de bronze, que se tomaraõ por despojos álem da excessiva copia de prata, e ouro que satisfez a cobiça dos Soldados. Por morte do Vice-Rey D. Duarte de Menezes se abrio a sucessaõ deste lugar em Manoel de Sousa Coutinho, e julgando por injuriosa ao seu credito esta nomeaçaõ, sendo preferido por quem lhe era muito inferior no merecimento se embarcou para o Reino em a Nao S. Thomé a 16 de Janeiro de 1589, da qual era Capitaõ Estevaõ da Veiga. Passados poucos dias de viagem começou a Nao em altura de 18 graos para o Sul a fazer agua por duas partes com tanta copia que era inexhaurivel á diligencia dos mareantes. Para evitar o ultimo perigo se embarcou D. Paulo com sua mulher D. Brites de Montarroyo, e 120 pessoas no batel que naõ podendo sustentar taõ grave pezo, foy precizo para se naõ afundir lançar vinte e duas pessoas ao mar. Sahio D. Paulo com aquella comitiva a huma praya situada na Costa de Cafraria, que se chamava Terra dos Fumos, e depois de experimentar fomes, sedes, e aleivosias de diversos barbaros pelo espaço de sinco mezes, como já naõ podesse resistir á torrente de tantas adversidades cahio enfermo de huma maligna, e assistido do seu Confessor Fr. Nicolao do Rosario da Ordem dos Prégadores, espirou contrito, e resignado na divina vontade a 2 de Agosto de 1589, quando contava 51 annos de idade, e muitos seculos de gloria. Foy sepultado na margem do rio por ser rito observado pelos barbaros da Ilha delRey de Manica naõ admittir defuntos no povoado. Passados dous annos se tresladaraõ os ossos deste grande Heroe por sua mulher inseparavel companheira das suas infelicidades para o Convento de S. Francisco de Goa, onde se lhe deraõ sepultura, e em huma lamina de cobre se gravou a seguinte inscripçaõ

Canatale, Dabul, e Jor diraõ, que está aqui D. Paulo de Lima a quem os trabalhos acabaraõ na Cafraria na era de 1589.

Fazem delle honorifica memoria Couto Decad. 8. cap. 2. e 28. e em a Relaç. Do Naufrag. da Nao S. Thomé, que escreveo á infancia de D. Anna de Lima irmãa de D. Paulo em 1611 Faria Asia Portug. Tom. 3. Part. I. cap. 5. e 7. Fr. Joaõ dos Santos Etiop. Orient. Part. 2. liv. 3. cap. 4. Mem. Milit. de D. Seb. Part. 2. liv. 2. cap. 16.

Escreveo

Relaçaõ da victoria que alcançou dos Malavares hindo soccorrer Malaca. fol.

Relaçaõ do sitio, e conquista da Fortaleza Jor. fol.

Conservaõ-se M. S. na Livraria delRey Catholico, como affirma o addicionador da Bib. Orient. de Ant. de Leaõ Tom. 1. Tit. 3. col. 65.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]