PEDRO ALVARES CABRAL, filho terceiro de Fernaõ Cabral Adiantado da Provincia da Beira, Senhor de Azurara, e Alcaide mór de Belmonte, e de D. Isabel de Gouvea, filha de Joaõ de Gouvea Senhor de Almendra naceo para augmentar com açoens heroicas os herdados brazoens da sua illustre casa. Desde a adolecencia frequentou com espantosos sucessos a escola de Marte que o achou a prudente eleiçaõ do Serenissimo Rey D. Manoel de ser digno successor do famoso Argonauta D. Vasco da Gama em a dilatada, e perigosa navegaçaõ do Oriente para a qual sahio da barra de Lisboa a 9 de Março de 1500 em huma armada composta de 13 naos, e guarnecida de mil e  duzentos homens. Tendo navegado o espaço de desaseis dias se converteo na altura do Cabo-Verde a bonança em taõ horrivel tempestade, que arribando hum dos navios a Lisboa, foraõ, os outros vagamente discorrendo sem rumo, até que conduzidos pela divina Providencia. á altura do Polo Antartico em desanove graos e meyo da parte do Sul se avistou a 24 de Abril huma terra, até aquelle tempo ignorada, cuja perspectiva causou excessivo jubilo aos navegantes assim pela frondosa verdura das arvores, como pela eminente elevaçaõ dos montes, e dilatada extensaõ dos campos Acompanhado dos principaes Cabos da armada deceo á terra Pedro Alvres Cabral, e mandando levantar o sagrado sinal da nossa Redempçaõ se celebrou o incruento sacrificio da Missa, e no fim delle ouve Sermaõ, a cujas Cerimonias assistiaõ os barbaros igualmente admirados, que reverentes. Para eterno monumento da sua piedade intitulou Pedro Alvares a nova terra com a religiosa antonomasia de S. Cruz, que depois se mudou em America por ter demarcado as terras, e costas maritimas della Americo Vespucci insigne Cosmografo, e ultimamente Brasil pela produçaõ da madeira, que tem cor de brazas. De taõ importante descobrimento informou logo Pedro Alvares a ElRey D. Manoel por Gaepar de Lemos, segurandolhe que havendo dilatado o seu Imperio pelas tres Partes do mundo lhe offerecia o Ceo a quarta para ser Senhor do globo do Universo figurado na esfera que tomara por empreza. Sahindo deste Porto que lhe impoz o nome de Seguro, por assim o ter experimentado, se vio hum Cometa, que extendendo a cauda sobre o Cabo da Boa Esperança, foy funesto anuncio da horrorosa tempestade que padeceo a armada, da qual naufragaraõ lastimosamente quatro navios. Passada taõ fatal tormenta aportou a 20 de Julho na Cidade de Quiloa, situada na Costa  Oriental, onde recebeo do seu Principe distinctas significaçoens, e celebrando com elle pazes se alteraraõ brevemente pela inconstancia daquelle barbaro. De Melinde passou a Anchediva, e a 13 de Setembro e entrou em Calicut destinada baliza da sua jornada, e como experimentasse o fementido animo do Samorim para castigo da sua perfidia lhe abrazou quinze naos ancoradas no porto, e com a artelharia derrubou grande parte da Cidade com a morte de quinhentas pessoas. Chegando a Cochim em 4 de Dezembro, onde estabelecidas pazes com o seu Principe, e ElRey de Cananor voltou para o Reino, entrando em Lisboa a 23 de Junho de 1501. Foy recebido por ElRey D. Manoel, com aquellas honras de que eraõ acredoras as açoens obradas sem obsequio de taõ generoso Principe. Foy casado com D. Isabel de Castro, filha de D. Fernando de Noronha irmaõ do Mordomo mór D. Pedro de Noronha, e de sua mulher Dona Constança de Castro, de quem teve Fernaõ Alvares Cabral, e Antonio Cabral que morreraõ sem sucessaõ: D. Constança de Noronha, que casou com Nuno Furtado Comendador de Cardiga; e D. Guiomar de Castro religiosa Dominica no Convento da Rosa de Lisboa. Fazem illustre memoria do seu nome Barros Decad. I. da Ind. liv. 5. cap. 1. até 10. Castanheda Hist. da Ind. liv. 1. cap. 30. até 42. Maf. Hist. Indic. lib. 2. Faria Asia. Portug. I. Part. I. cap. 5. Fr. Gio Giusep. di S. Teres. Istoria del Brasile. Part. I. liv. I. cap. 5. Rocha Amer. Portug. pag. 6. Solorzano de Jure Indiar. Tom. 1. lib. 1. cap. 3. n. 31. 32. 33. Franc. de S. Maria Diar. Portug. Tom. I. p. 104. 411. e 668. e Tom. 2. p. 15. 71. e 415. Fr. Ant. de S. Roman Hist. de la Ind. Orient. liv. 1. cap. 11. 12. 13 Puente Comp. de la Hist. de la Ind. Orient. liv. 2. cap. 3. Vasconcel. Notic. do Brasil. liv. 1. e seguintes. Lasitau Conqestes de Portugais Tom.1.liv.2. Le Clede Hist. de Portug. Tom. 1. p. mihi 568. Mariz Dial. de var. Hist. Dialog. 4. Barbuda Emprez. Milit. da Lusit. pag. 116. Camillo Borrel Comment. in Arbor. Lusit. Reg. pag. 119. Escreveo

Relaçaõ da sua Jornada. M. S. A qual sahio traduzida em Latim por Luiz de Cadamusto, e sahio em o livro Novus Orbis Regionum, ac Insularum, collegido por Simaõ Grineo. Basileae apud Joan. Hernagium 1555. fol. a pag. 46. Na lingua Italiana sahio vertida, e impressa por Joaõ Bautista Ramusio nel primo volume delle Navig. e viagi. Venesia nella stamperia de Giunti 1563. fol. a p. 121. vers. até 127. Como Author desta Relaçaõ he allegado por Nicol. Anton. Bib. Hisp. Tom. 2. p. 134. col. 2. e pelo Addicionad. da Bib. Oriental. de Anton. de Leaõ Tom. 1. Tit. 2. p. 26.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]