D. PEDRO Infante de Portugal, naceo em Lisboa a 9 de Dezembro de 1392, sendo quarta produçaõ do augusto thalamo dos Serenissimos Monarchas D. Joaõ o I. e D. Filippa de Lancastro, merecendo pelas incomparaveis virtudes de que se ornou o seu grande espirito de ser o Primogenito entre todos seus heroicos Irmaõs. Para naõ degenerar do genio guerreiro de seu Augusto Pay o acompanhou na celebre expediçaõ de Ceuta em o anno de 1415, quando contava 23 annos de idade, em cuja ardua empreza mostrou taõ intrepido valor, e militar disciplina, que foy remunerado com o titulo de Duque de Coimbra, e os Senhorios de Tentugal, Pereira, e Condeixa. Logrando Portugal da paz segurada com tantas Victorias para naõ passar o tempo em torpe ocio se deliberou vizitar a Terra Santa, onde depois de adorados os vestigios do Redemptor do mundo observou com juizo prudente as principaes Cortes do mundo, as situaçoens das terras, e os custumes das Naçoens. Acompanhado de alguns Fidalgos, e grande numero de criados sahio de Portugal no anno de 1424, e fazendo hum giro pela Europa conciliou o affecto dos mayores Soberanos pela madureza, affabilidade, discriçaõ, e liberalidade de que era ornado, naõ havendo algum que lhe negasse a veneraçaõ devida ao seu Caracter. Depois de ver as Cortes do Graõ-Turco Amurates II, e do Soldaõ de Babilonia, foy recebido em Roma pela Santidade de Martinho V. com paternaes significaçoens concedendo-lhe a graça de serem ungidos nas suas Coroaçoens os Reys de Portugal, como os Monarchas de França. Naõ experimentou menor aplauso a sua Pessoa, quando juntamente com ElRey de Dinamarca Erico X. parente da Casa Real Portugueza soccorreo ao Emperador Sigismundo II. contra os Turcos, e Venesianos remunerando o Cesar ao seu valor com a doaçaõ do Estado da Marca Travisana, e o titulo de Marquezado para seus filhos legitimos. Na Corte de Inglaterra o armou Cavalleiro da Ordem da Jarratiere seu Sobrinho Henrique II. com grande jubilo naõ recebendo menores demonstraçoens em Castella delRey D. Joaõ II. seu Primo com Irmaõ. Restituido ao Reyno em o anno de 1428 conhecendo ElRey D. Duarte a capacidade do seu talento o nomeou Curador do Infante D. Affonfo seu filho, cuja incumbencia dezempenhou com tal satisfaçaõ, que sucedendo a morte daquelle Monarcha foy eleito em Cortes na menoridade de seu Sobrinho Affonso V. Governador do Reyno. A politica com que administrou os negocios, a justiça, com que punio os delinquentes, e a generosidade com que premiou os benemeritos mereceraõ os mayores elogios delRey, quando chegou a empunhar o Scetro, porêm como este Principe se deixasse inconsideravelmente persuadir das maquinas, que contra o Infante levantaraõ os seus emulos convertido o affecto, em aversaõ sem respeito á doutrina com que o educara, o perseguio com taõ furiosa paixaõ que della se originou acabar o Infante tragicamente na batalha da Alfarrobeira atravessado de huma festa a 20 de Mayo de 1449, quando contava 57 annos de idade digno certamente de fim mais glorioso, cuja memoria será igualmente lamentavel na posteridade, como horroroso o nome dos Authores da sua morte, a qual ainda do silencio da sepultura clama com estas vozes, que para epitafio escreveo a conceituosa Musa do Dcutor Antonio Ferreira nos seus Poemas fol. 201.

Filho Segundo delRey Joaõ primeiro

Tio, e Sogro delRey Affonso Quinto

Vesme em premio de amor taõ verdadeiro

De pó coberto, de meu sangue tinto;

De ingratos morto, & em morte prisioneiro,

Lè minha triste historia, que naõ minto.

A fama dá de mim fé verdadeira;

Do injusto, e cruel odio Alfarrobeira.

Foy o Infante D. Pedro ornado de todas as virtudes que constituem hum Varaõ perfeito. Igual politica mostrou no Gabinete, como valor na Campanha. Das letras divinas, e humanas teve tanta instruçaõ, como intelligencia das linguas mais polidas. Observou taõ exactamente a continencia que naõ amou outra mulher que naõ fosse a sua Consorte. Aos Ecclesiasticos como Ministros da Casa de Deos nunca consentio que lhe beijassem a maõ, e lhe fallassem de joelhos. Tolerou consoante o odio dos seus emulos disfarçado em zelo do bem publico, e correspondeo com beneficios aos que experimentou mais ingratos. Sustentou huma Casa digna da sua representaçaõ composta de 363 Pessoas entre as quaes se distinguiaõ hum Bispo, Confessor, Capellaõ mór, Prégador, e muitos Fidalgos, e Officiaes com diversos foros. Cazou no anno de 1429 com a Senhora Dona Izabel filha de D. Jayme II. Conde de Urgel, e de D. Izabel Infanta de Aragaõ, filha de D. Pedro IV. Rey de Aragaõ, e da Rainha D. Sybilla de Forcia sua quarta mulher. Deste soberano Consorcio lhe naceraõ o Senhor D. Pedro IV. Condestavel de Portugal, Mestre da Ordem de Aviz, e Conde de Barcelona eleito pelos Catalaens no anno de 1462, de cuja dignidade o privou brevemente a vida a 30 de Julho de 1466: o Senhor D. Joaõ Duque de Coimbra que pelo desposorio celebrado com a Princeza Charlota herdeira presumptiva da Coroa de Chipre fiha unica de Joaõ II. Rey de Chipre, e Jerusalem, e de Helena Paleologo se intitulou Principe de Antiochia, e Regente do Reino de Chipre, cuja Coroa naõ cingio por morrer na vida de seu Sogro no anno de 1457. Foy Cavalleiro da Ordem do Tuzaõ de ouro criado no Capitulo, que no anno de 1456 fez Filippe o Bom Duque de Borgonha: a Senhora D. Izabel, que nacendo no anno de 1432 se despozou com ElRey D. Affonso V. em o anno de 1447, e falleceo em Evora a 2 de Dezembro de 1455. O Senhor D. Jayme criado Cardial pela Santidade de Calixto III. a 23 de Fevereiro de 1456, quando ja administrava o Arcebispado de Lisboa, e sendo eleito Legado de Latere ao Emperador Federico III. por Pio II. naõ teve effeito esta eleiçaõ morrendo intempestivamente em Florença a 15 de Abril de 1459: a Senhora D. Brites, que passando por ordem de sua Tia a Infanta D. Izabel Duqueza de Borgonha para a Corte de Flandes a cazou com Adolfo de Cleves Senhor de Ravesteym. Ultimamente a Senhora D. Filippa de Lencastre, da qual se fez larga memoria em seu lugar, depois de ter passado grande parte da sua vida entre as Religiosas Cistercienses do Convento de Odivelas impellida do sagrado dezejo de vizitar o Sepulchro de Saõ-Tiago, acabada esta perigrinaçaõ, e restituida ao Reino falleceo piamente no mesmo Convento de Odivelas a 11 de Fevereiro de 1493. Celebraraõ o nome do Infante D. Pedro varios Escritores como saõ Macedo Flor de Hespan. Excel. 8. cap. 8. Fue gran Poeta y hizo algunos Tratados en que mostrò mucha erudicion. Aeneas Sylvius in Europa p. 47. magni nominis Princeps per totam ferme Europam peragraverat suae virtutis documenta domonstrans. Maris Dialog. de var. Hist. Dialog. 4. cap. 4. Foy amigo de letras, e sciencias, e a seu estudo se dava taõ notavelmente que por ella deixava outros reaes passatempos, a que de natureza era muito affeiçoado, e participou dellas mais que outro Principe de seu tempo fazendo muitos Tratados para bom governo dos Principes, e Republicas em que elle era excellente, e outras obras em verso, e proza cheas de muita doutrina, erudiçaõ, e prudencia. Nunes de Leaõ Censur. in Teixeir. libelum pag. 22. vers. Virum bello, & pace clarissimum & prudentem, ut qui multas Europae, Asiae, & Africae vidit urbes in longissima illa peregrinatione qua Sigismundum Imperatorem juvit adversus fidei hostes. Fuit hic non solùm militari disciplina excellens, sed & litterarum studiis deditissimus, & multarum artium calens. Scripit multa prosa, & versu, & nonnulla e patrio sermone, in latinum vertit, cujus hodie extant carmina de moribus doctrina, & prudentiae plena. Sousa Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 2. liv. 3. p. 78. Excellente Principe naõ só valeroso mas eminente na arte militar versado nas letras divinas e humanas, instruido nas sciencias, e artes liberaes, perito nas linguas Estrangeiras, ornado de maximas Christaãs. Macedo Lusit. Infiel. p. 181. Principem comparatis bello, & pace laudibus clarissimum. Faria Epit. das Hist. Portug. Part. 3. cap. 11. Dado a los estudios que escrivio varias obras en prosa, e verso, dotado de muchas partes peregrino por las mayores del mundo, y aviendo, ya obrando cosas grandes, e no Coment. dos Lusiad. de Cam. a Out. 37. do Cant. 8. Fue el Ulysses de España de aquellos tiempos en que era prodigio salir alguna persona de su tierra a ver muchas. Nicol. Ant. Bib. Vet. Hisp. lib. 10. cap. 5. §. 297. pace, belloque aeque bonus. Fr. Luiz de Sousa Hist. de S. Domingos da Prov. de Portug. Part. 1. liv. 6. cap. 15. Foy indigna das suas grandes virtudes a morte com que acabou. Mariana de rebus Hispan. lib. 22. cap. 7. Vir meliori exitu dignus longiori vita; magnus animus fuit, exacta prudentia, quam ex multo rerum usu collegerat. Nunes de Leaõ Chron. de D. Joaõ o I. cap. 99. Principe de altos espiritos. Francisco de Santa Maria Chron. dos Coneg. Secul. liv. 2. cap. 19. Dotou-o a natureza, e a graça de excellentissimas partes, e prendas dignas do seu sangue. Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 1. p. 410. no Comment. de 11 de Fevereiro letr. A. Em dotes de natureza, e da graça foy hum dos mais esclarecidos Principes que em seu tempo teve a Christandade. O insigne Camoens Lusiad. Cant. 8. Estanc. 37.

Olha cá dous Infantes Pedro, e Henrique

Progenie generosa de Joanne,

Aquelle faz, que fama illustre fique

Delle em Germania com que a morte engane.

Obras impressas

Coplas fechas por el muy illustre Señor Infante Don Pedro de Portugal: en las quales ay mil versos com sus glosas contenientes del menosprecio, e contempto de las cosas fermosas del mundo: demonstrando la su vana: e feble vanidad. Deste livro impresso em letra gothica em folha que naõ vio Nicolao Ant. como confessa na Bib. Vet. Hisp. lib. 10. cap. 5. §. 298 conservava meu Irmaõ D. Jozé Barbosa Clerigo Regular Chronista da Serenissima Casa de Bragança hum exemplar do qual extrahi o titulo assima posto com a mesma orthografia com que está impresso. Consta de 124 Outavas commentadas a mayor parte dellas por Anton Durrea a D. Affonso de Aragaõ Administrador perpetuo do Arcebispado de Saragoça que morreo no anno de 1520, donde se colhe ser este livro impresso antes deste anno o qual acaba com estas palavras Acaban-se las Coplas fechas por el muy illustre Señor Infante Don Pedro de Portugal sem declarar o anno da Impressaõ.

Poesias varias. Sahiraõ no Cancioneiro de Garcia de Resende. Lisboa por Herman de Campos 1516 fol. desde fol. 72 vers. até 79 vers.

Poema em louvor da Cidade de Lisboa. O principio desta obra imprimiraõ o Doutor Fr. Bernardo de Brito Mon. Lusit. Part. 1. liv. 2. cap. 15. e Fr. Bernardino da Sylva Def. da Mon. Lusit. Part. 2. cap. 31.

Carta escrita de Santarem a 12 de Março de 1446 ao Duque de Bragança D. Afonso.

Carta escrita de Coimbra a 30 de Dezembro de 1448 a D. Fernando II. Duque de Bragança, e Conde de Arrayolos. He muito extensa e judiciosa. Sahiraõ estas duas Cartas no Tom. 5. da Hist. Gen. da Casa. Real Portug. escrita pelo Padre D. Antonio Caetano de Sousa a pag. 64 a primeira; e a segunda a pag. 120 até 139.

Auto do Infante D. Pedro, e das sete partidas do mundo. Sahio varias vezes impresso mas com tantos erros geograficos, e noticias apocrifas que se naõ deve atribuir esta obra a taõ illutre Author da qual se póde ver o juizo que formaõ Nicol. Ant. Bib. Vet. Hisp. liv. 10. cap. 5. n. 298, e Manoel de Faria e Sousa no Comment. das Lusiad. de Cam. Cant. 8. Estanc. 37. pag. 433. e 434.

Obras M. S.

Da virtuosa bemfeitoria com humma confissaõ a qualquer Christaõ mui proveitosa. Desta obra faz mençaõ Ruy de Pina Chron. delRey D. Affonso V. pag. 133.

Traduzio da lingoa Latina na materna as obras seguintes.

Tullio de Officiis.

Vegetio de re militari.

Foraõ dedicadas estas duas Traduçoens a seu Irmaõ ElRey D. Duarte, e dellas faz memoria o grande Joaõ de Barros Paneg. a Infanta D. Maria impresso na vida desta Senhora composta por Fr. Miguel Pacheco da Ordem de Christo.

De Regimine Principum. Composto por Fr. Gil Correa. Desta traduçaõ faz

mençaõ Pedro de Maris Dialog. de var. Hist. Dial. 4. cap. 4.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]