D. PEDRO I. do Nome, e VII. entre os Reys Portuguezes, naceo em Coimbra a 18 de Abril de 1320. Foraõ seus augustos Pays D. Affonso IV. e D. Brites filha del-Rey de Castella D. Sancho IV. o Bravo, e da Rainha D. Maria, filha do Infante D. Affonso Senhor de Molina, e da Infanta D. Mayor. Contava a robusta idade de 37 annos, quando tomou as redeas do governo, e nesta grande diuturnidade de tempo aprendeo a difficil arte de reinar distinguindo-se entre todos os seus coroados predecessores na administraçaõ da justiça que entre as virtudes logra o principado com a qual premiou benemeritos, e punio criminosos. Da severidade de que usava contra os violadores das leys divinas, e humanas naceo o epicteto de Cruel, com que impropriamente o denominaraõ alguns Escritores, quando todas as execuçoens ordenadas no Tribunal da sua rectidaõ eraõ mais contra os vicios, que contra os viciosos. Para beatificar com a sua presença aos seus Vassallos discorreo por todo o Reino dispendendo com taõ profusa maõ a todo o genero de pessoas, que por esta excessiva generosidade era digna do Sceptro, que empunhava. Na Arithmetica da sua liberalidade naõ contava por dia aquelle em que naõ fazia merces como se escreve do Emperador Tito Vespasiano. Promulgou rectissimas leys cominando em humas com pena Capital aos Juizes, que se deixassem corromper com sobornos, e em outras exterminando do Reino os Advogados, e Procuradores de Causas que com maliciosos artifcios as eternizavaõ em grave prejuiso dos litigantes. Mais parcial da paz, que da guerra conservou em beneficio dos povos, o Reino em summa tranquilidade, quando os Principes consinantes se combatiaõ com formidaveis exercitos. Deleitava-se da Musica servindolhe de parenthesis a cuidados mais severos. Algumas vezes sem offensa do decoro Real dançava acompanhado de instrumentos musicos pelos quaes regulava os movimentos. Foy sumamente religioso para com Deos zelando a honra, que lhe he divida com espirito de Principe Portuguez. Enfermou mortalmente na Villa de Estremoz, e conhecendo ser chegado o termo da sua vida ordenou o Testamento cheyo de piedosos legados, e recebidos os Sacramentos com sinaes de arrependido, falleceo a 18 de Janeiro de 1367, quando contava 46 annos e nove mezes completos de idade, dos quaes reinou nove annos, sete mezes e vinte, e hum dias. Teve estatura grande, aspecto gentil, testa dilatada, olhos fermosos, e pretos, cabello da cabeça, e barba compridos de cor castanha que mais declinava a loura, que negra, boca larga, e engraçada, rosto corado, e taõ balbuciente nas palavras, como maduro nas respostas. Foy casado duas vezes; a primeira sendo ainda Infante a 28 de Fevereiro de 1336 com a Infanta D. Constança, filha de D. Joaõ Manoel de Penafiel, Marquez de Vilhena, Adiantado de Murcia, e de D. Constança Infanta de Aragaõ, filha de D. Jaime II. Rey de Aragaõ, e da Rainha D. Branca sua primeira mulher, de quem teve a Infanta D. Maria, que se desposou com D. Fernando Infante de Aragaõ Marquez de Tortosa, filho de Affonso IV. de Aragaõ, e da Rainha D. Leonor, da qual naõ teve sucessaõ: O Infante D. Luiz, que vivendo o breve espaço de oito dias voou para a eternidade gloriosa: e ElRey D. Fernando que lhe sucedeo na Coroa. Passou a segundos desposorios em o 1 de Janeiro de 1354 ainda vivendo seu Pay, com a Infanta Dona Ignez de Castro sua sobrinha, filha de Pedro Fernandes de Castro o da Guerra, Senhor de Sarria, e Lemos, Mordomo mór delRey D. Affonso XI., e de D. Aldonça Soares de Valladares, filha de Lourenço Soares de Valladares Fronteiro mór de Entre Douro, e Minho, e de D. Sancha Nunes de Chacim, de quem teve ao Infante D. Affonso, que falleceo em tenra idade: o Infante D. Joaõ Senhor das Villas de Porto de Moz, de Cea, e das terras de Lafoens, Gulfar, Sataõ, Penalva, Besteiros, Sever, Fonte-Arcada, que casando clandestinamente com sua cunhada D. Maria Telles de Menezes, irmãa da Rainha de Portugal D. Leonor Telles de Menezes a matou injustamente por querer casar com sua sobrinha a Infanta D. Brites, filha delRey D. Fernando, e como naõ conseguisse este intento se ausentou para Castella, onde se desposou com D. Constança, filha de Henrique II., e foy creado Duque de Valença de Campos por D. Joaõ I. de Castella, o qual por tomar armas contra Portugal naõ possuio a Coroa, que lhe era devida. O Infante D. Diniz: A Infanta D. Brites, que casou no anno de 1377, com D. Sancho Conde de Albuquerque, filho delRey de Castella D. Affonso IX., e de D. Leonor Nunes de Gusmaõ, de cujo consorcio naceo D. Leonor Urraca Condessa de Albuquerque, que se desposou com seu sobrinho o Infante D. Fernando Duque de Penafiel, Conde de Mayorga, dos quaes naceraõ dous Reys, e duas Rainhas. Foy D. Ignez de Castro tragicamente despojada da vida a 7 de Janeiro de 1355 por ordem de Affonso IV., cuja acçaõ que manchou a gloria do seu nome, executaraõ Diogo Lopes Pacheco, Pedro Coelho, e Alvaro Gonçalves, sendo estes dous ultimos victimas horrorosas do furor delRey D. Pedro, com que desagravou a offensa cometida contra sua Esposa, e para testemunhar o excessivo affecto com que idolatrara a sua rara fermosura, ainda depois de morta, ordenou que o cadaver fosse transferido de Coimbra até o Real Convento de Alcobaça, ocupando o caminho das 18 legoas, que correm daquella Cidade a este Templo duas fileiras de homens com tochas acezas nas mãos. Teve de Tereza Lourenço a D. Joaõ Mestre de Aviz, que com a propria espada lavrou a Coroa que cingio, sendo o nono Rey de Portugal, e huma filha assistente no Cõvento de S. Clara de Coimbra, a quem no seu testamento deixou sinco mil libras para seu casamento. Deste grande Monarcha se pódem ler os Elogios em Vasconcel. Anaceph. Reg. Lusit. pag. 129. Brito Elog. dos Reys de Portug. p. 47. Duart. Nun. Chron. dos Reys de Portug. fol. 187. Faria Europ. Portug. Tom. 2. Part. 2. cap. 4. §. 26. Caramuel Philip. Prud. p. 47. S. Marthe Hist. de la Maison de France. Tom. 2. liv. 54. cap. 2. Maced. Propug. Lusit. Gallic. p. 93. Mariana Hist. de Hesp. Tom. 2. liv. 17. cap. 9. Barbuda Emprez. Milit. fol. 25. Natal Alex. Hist. Eccles. Saecul. 14 cap. 11 art. 5. §. 6. Zurita Annal. de Aragon. lib. 9. cap. 2. Neufuille Hist. de Portug. Tom. 1. p. 340. Carrillo Annal. del Mund. al año de 1367. Mariz Dial. de var. Hist. Dialog. 3. cap. 4. Eperança Chron. de S. Franc. da Prov. de Portug. Tom. 2 liv. cap. 13. n. 4. Garibay Comp. Hist. de Hesp. liv. 34. cap. 33. Franc. de S. Maria Diar. Portug. p. 5. 42. e 87. Sousa Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 1. liv. 2. cap. 6. Barbosa Fast. Polit. e Milit. da antig. e nova Lusit. Tom. 1. p. 11. 96. e 208. Cultivou as Musas com inclinaçaõ natural compondo muitos versos, que se ven en las obras de los Poetas illustres Portuguezes de aquellos tiempos, como escreve Manoel de Faria e Sousa Epit. das Hist. Portug. Part. 3. cap. 9. No Cancioneiro de Garcia de Resende impresso em Lisboa por Fernaõ de Campos 1516. fol. estaõ 4. Cantigas delRey D. Pedro a fol. 72. e no Cancioneiro M. S. do P. Pedro Ribeiro escrito no anno de 1577 , que se conserva na Livraria do Illustrissimo e Excellentissimo Duque de Lafoens está a seguinte obra composta por D. Pedro I.

A dò hallarà holgança

Mis amores:

Adò mis graves temores

Segurança:

Pues mi suerte

De una en otra cumbre llevantado

Llegome a ver d’ elado tu hermosura

Despues la frente para frente a frente

Vi en brando accidente amortecido:

Passome el sentido tan a dentro

Que hà llegado al centro dò amor vive:

Mas como nò recibe mi razon

Tu fiera condicion entre las manos

Desechos mis deseos

De un sobresaltado

El alma hás arrazada;

Los montes echos llanos

Dò toda mi esperança era fundada:

Si esto das por vida, que por muerte

Dar Señora podrà pecho tan fuerte.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]