D. PEDRO AFFONSO, trigessimo quarto Bispo da antigua Dioceze do Porto naõ sómente foy illustre pela sua ascendencia derivada por huma parte delRey D. Ramiro de Leaõ, e por outra do Conde D. Gonçoy Irmaõ de Santa Senhorinha, e primo de S. Rozendo, mas pelas açoens com que immortalizou o seu Nome na posteridade. Educado na casa de seus Pays com os documentos proprios do seu nacimento estudou a lingua Latina com tal applicaçaõ que a fallou, e escreveo com summa elegancia, e pureza em tempo que dominava em Hespanha a ignorancia deste idioma. Mayores progressos fez o seu talento no estudo dos sagrados Canones estabelecendo sobre elles os Memoriaes, que em defensa da sua Igreja offereceo a Clemente VI. com assombro dos Advogados Consistoriaes. Conciliou universal aplauso no pulpito principalmente em Salamanca, em cuja Universidade tinha estudado a Jurisprudencia Canonica. Ao tempo que era Conego da Cathedral de Lisboa acompanhou no anno de 1329 a Infanta D. Maria filha de Affonso IV. de Portugal, quando se foy desposar com Affonso XI de Castella. Nos primeiros annos que assistio a esta Princeza foy eleito Bispo de Astorga conservando-se no seu serviço com igual fidelidade, que prudencia, e animando-a a tolerar o odio que lhe tinha seu esposo por ter lascivamente sacrificado o coraçaõ a D. Leonor Nunes de Gusmaõ com universal escandalo de seus Vassallos. Para que Affonso IV. concorrente com as suas armas auxiliares contra os mouros que tinhaõ cercado Tarifa, passou a Portugal a nossa Princeza, e reprezentando efficasmente a seu Pay a consternaçaõ em que se achava seu marido Affonso XI, foy instrumento o Bispo D. Pedro que acompanhou a dita Princeza para se dar a batalha de Bellamarin a 30 de Outubro de 1340 em que foraõ derrotados os Reys de Cordova, e Alboacem. Transferido do Bispado de Astorga para o do Porto em o anno de 1342 padeceo fortissimas oposiçoens contra a liberdade Ecclesiastica, e conservaçaõ de seus Privilegios, chegando a tal excesso a violencia que se lhe fazia da parte delRey, que duas vezes o excomungou, e outras tãtas fugitivo passou a Avinhaõ a reprezentar aos Summos Pontifices Clemente VI, e Innocencio VI. A justiça da sua cauza sacriligamente impugnada pelos Ministros Reaes. Serenada esta tormenta em que ficou triunfante dos seus emulos falleceo piamente em o anno de 1357, que he o ultimo que della se acha noticia governando o Bispado do Porto 14 annos. Delle faz mençaõ Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. P. n. 18. genere illustris, litteris illustrissimus, sed pietate, zelo, christianaque constantia, ao sortitudine longe illustrior; e mais largamente seu sucessor o Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha Cathal. dos Bisp. do Porto. Part. 2. cap. 19. Escreveo na lingua latina.

Informaçaõ ao Papa Clemente VI. de tudo quanto tinha obrado em Castella, e Portugal principalmente para defensa da sua jurisdiçaõ episcopal. Conserva-se na Casa do Senado da Cidade do Porto escrita em pergaminho, e consta de 288 paginas, e encadernada em bezerro sobre taboas com pregaria de bronze. Della extrahio muitas paginas o Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha, e as imprimio no Cathal. dos Bispos do Porto pag. 151. 155. 160. 167. e 170.

 

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III