D. PEDRO, filho natural delRey D. Diniz, e de D. Gracia Senhora de Ribeira de Sacavem sahio á luz do mundo ornado de dotes taõ singulares que por elles se fez merecedor do excessivo affecto de seu Pay de tal sorte que a naõ ser filho pela natureza, o fora por eleiçaõ. Acompanhando a este Monarca no anno de 1304 na jornada que fez a Castella para pacificar como Juiz arbitro as discordias de seu genro D. Fernando com seu Cunhado D. Jaime Rey de Aragaõ, brilhou o seu grande talento na augusta presença de tres Reys, sinco Rainhas, e duas Infantas assistidos de toda a Nobreza de Portugal, e Castella, onde foy aplaudido de generoso, cortezaõ, afavel, e discreto. De seu heroico valor deu hum glorioso testemunho, quando sendo Fronteiro mór da Beira, e Entre Douro, e Minho rechasou o Exercito Castelhano capitaneado pelo Arcebispo de S. Tiago, o qual confusamente se retirou ao Castello de Tença confiando mais das pedras de seus muros, que das mãos de seus Soldados. Igual ao seu valor foy a sua discriçaõ dedicada á cultura das Musas, em cuja aplicaçaõ mostrou que naõ degenerava de seu grande Pay, e para que naõ perecesse o livro em que tinha escrito os seus versos o deixou como precioso legado no Testamento a seu Cunhado ElRey de Castella. De mayor aplauso he acredor o seu Nome pela estudiosa investigaçaõ, e indefesso trabalho com que compoz o livro das Linhagens deduzidas desde o principio do mundo até o seu tempo, renacendo a impulsos da sua penna toda a Nobreza de Hespanha, que jazia sepultada com injuria da memoria de tantos esclarecidos Heroes. Eternos monumentos da sua generosa piedade he a Capella de S. Gervasio erigida na Cathedral de Lisboa em obsequio de sua Mãy, de cujas casas fabricou hum Hospital, que foy a idéa por onde depois erigio D. Manoel o intitulado de todos os Santos para universal remedio dos enfermos. Sendo Senhor dos dominios de Gestaço, Lalim, e Varcea o creou seu Pay em o 1 de Março de 1304 Conde de Barcellos, e Alferes mor do Reino por morte do esclarecido Conde D. Martim Gil, cujo lugar exercitou, como da sua prudencia se esperava, posto que com menor felicidade entre as discordias de seu irmaõ o Infante D. Affonso com ElRey seu Pay, que injustamente intentou legitimar hum filho natural, para excluir da sucessaõ da Coroa ao que era legitimo herdeiro della. Tres vezes foy casado: á primeira com D. Branca Pires de Sousa, filha segunda de D. Pedro Annes de Aboim Senhor de Portel, e de Dona Constança Mendes de Sousa, de quem teve hum filho que sobreviveo a sua Mãy aquelle tempo, que foy bastante para herdar ametade de todos os bens, e Estados da grande Casa de Sousa. Casou segunda vez com D. Maria Ximenes Coronel, filha de D. Pedro Coronel, Senhor de Alfayarim, e de D. Urraca Artal de Luna, a qual veyo a este Reino por Dama da Rainha S. Isabel. Passou a terceiras vodas com D. Tereza Annes de Toledo Dama da Rainha D. Beatriz. Destes tres matrimonios naõ deixou decendencia, sendo a sua immortal sucessaõ as Familias que da urna do esquecimento fez renacer a nova vida para brazaõ de toda a Nobreza de Hespanha. Falleceo no anno de 1354, e jaz sepultado no Mosteiro de S. Joaõ de Tarouca da Ordem de Cister, situado no Bispado de Lamego, donde foy tresladado pelos Religiosos no anno de 1634 do Cruzeiro em que estava para a Nave direita do Templo. Aberto o caixaõ foy achado o cadaver organizado com todos os ossos, cuja vista causou grande admiraçaõ, e muito mayor á sua estatura que constava de onze palmos, e meyo sendo ainda pequeno deposito para a grandeza do seu espirito. Compoz

Do linhagem dos homens como vem de Padre a filho destro começo do mundo, e do que cada hum viveo, e de que vida foy, e começa em Adaõ o primeiro homem que Deos fez quando formou o Ceo, e a terra. Este he o titulo do Nobiliario, como elle escreveo. Sendo esta obra pouco perceptivel assim pela rudeza da lingoa, como pela confusaõ do methodo a ordenou em melhor estylo, e ordem illustrandoa com eruditas Notas Joaõ Bautista Lavanha Chronista mor do Reino em obsequio da curiosidade de D. Manoel de Moura Corte-Real II. Marquez de Castello Rodrigo, e sahio no tempo que este Fidalgo era Embaxador de Filippe IV. na Curia Romana com o seguinte titulo

Nobiliario de D. Pedro Conde de Barcelos hijo delRey D. Dioniz de Portugal. Roma por Estevan Paulinio. 1640. fol. Sahio traduzido em Castelhano, e castigado com novas illustraçoens de varias Notas por Manoel de Faria e Sousa. Madrid por Alonso de Paredes 1646. fol. Os mais insignes Genealogicos de Hespanha, e Portugal celebraõ a esta obra, e a seu Author com elegantes elogios, como saõ Argote de Molina no Prologo. á Nobleza de Andaluz. Nel libro de Linages en que mostrò su gran deligencia, y aquien la Nòbleza de Hespaña debe todo lo que della se sabe con ser la lumbre que oy tenemos deste genero de Historia. Ambros. de Moral. Gen. del Patriarch. S. Doming. no fim do 3. Tom. da Hist. de Hespan. Es la escritura de mas authoridad, y de mayor cumplimiento, y certidumbre, que en esta materia tenemos. Todos lo que bien sienten le dan esto al Conde por su mucha antiguidad y por la gran diligencia que puzo en adquirir lo que con mucho dezeo queria enteramente saber, y ver como lo pudo hazer siendo tan grande Principe aquien todos ayudarian de muy buera gana con sus particulares relaciones. Sin todo esto se ve en su obra, como no faltò al Author buen juizio, ni hasta deligencia en lo que escrevià. Fr. Franc. Brandaõ Mon. Lusit. Part. 5.liv.17. cap. 5. A quem toda a Nobreza està justamente devedora pelo grande cuidado, e estudo com que descubrio os principios das familias com seus solares, e descendencias relatando tudo com verdade singela, e liberdade desapaixonada. Nic. Ant. Bib. Vet. Hisp. lib. 9. cap. 5. n. 265 Reliquit nobis monumentum aere perennius, opus genealogicum praecipuarum Castellae, & Portugalliae familiarum illustrium: quodquidem opus esse maxime inter nos authoritatis, ejusque absolutionis, & certitudinis qua maior vix dari possit Ambrosus noster Morales flos historicorum cum omnibus aliis censet. Gaspar Estaço Antig. de Portug. p. 7. Digno de louvor pelo trabalho, que tomou em fazer o seu livro das Linhagens buscando por muitas terras escrituras que dellas fallavaõ. Resende Epist. ad Barthol. Kabed. no Tom. 2. Hisp. Illustrat. p. 213. Liber iste etsi stylo rudi, ut illud erat saeculum, lectione tamen; non indignus. Naõ sómente foy celebrado este livro pelas pennas de taõ graves Escritores, mas addicionado por outros Varoens eruditos com doutissimas Notas, como foraõ Diogo Lopes Toledano, D. Francisco de Mendõça, filho dos Condes de Canhete, Jeronymo Zurita, Joaõ Rodrigues de Sá, Joaõ Bautista Lavanha Chronista mór do Reino de Portugal, Felix Machado de Castro e Sylva Marquez de Monte-Bello, Alvaro Ferreira de Vera, e Manoel de Faria e Sousa. Sendo esta obra taõ estimavel esteve oculta até o reinado delRey D. Pedro I. de Portugal, e como fosse Fernaõ Lopes Chronista deste Principe, e ocupasse juntamente o lugar de Guarda mór da Torre do Tombo, ondee se conservava, o mudou, e acrecentou conforme o seu capricho, e inclinaçaõ como affirmaõ com solidos fundamentos o Doutor Fr. Francisco Brandaõ Chronista mór do Reino, e D. Antonio Alvares da Cunha Senhor de Taboa Guarda mór da Torre do Tombo, insignes professores da Historia, e Genealogia. Daquella indiscreta mudança, e alteraçaõ feita por Fernaõ Lopes naceo a atrevida malicia, com que se adulterou o Nobiliario do Conde D. Pedro manchando-o com noticias apocryfas, e sucessos posteriores á morte de seu Author, por cuja causa naõ merece o credito que lhe era devido, como doutamente escreveo Manoel de Faria e Sousa no Prologo ao dito Nobiliario impresso em Madrid anno no de 1646. Porque el es (de manera que oy fe ve) de muchos. y nò suyo solo, y por esso proprio affirmo no deverse crédito alguno. O mesmo Author no Cathalogo dos livros que vio para escrever a sua Historia no principio do 1. Tomo da Asia Portug. §. 67. Libro de Linages del Conde D. Pedro hijo delRey D. Diniz aun que el proprio, y realmente suyo que era breve lo tiene oy pocas personas, y el que corre es añadido y aun viciado por muchas, y a que nó se deve credito alguno en aquellas cosas (y son las màs) que nò constare son escritas por el Conde. Este mesmo conceito tinha ja formado o Doutor Fr. Antonio Brandaõ Mon. Lusit. Part. 4. liv. 14. cap. 31. O escreve tambem o Conde D. Pedro, mas devia de ser penada do Author, que lhe acrescentou o seu Nobiliario. Amplificou mais esta adulteraçaõ em o Nobiliario do Conde D. Pedro Fr. Francisco Brandaõ sobrinho do precedente, e seu sucessor no lugar de Chronista mór do Reino Mon. Lusit. Part. 5. cap. 17. n. 5. Que esteja variado, e acrecentado o livro de que fallamos naõ póde duvidarse por muitas razoens que obrigaõ a confessallo, as quaes evidentemente foy expondo, e se pódem ler no lugar citado, e muito mais no Cathalogo das Rainhas de Portugal, composto por meu irmaõ D. Jozé Barbosa, Chronista da Serenissima Casa de Bragança, onde a pag. 222. e seguintes mostra diversos factos cheyos de contradiçoens assim na Historia, como na Chronologia de que está cheyo o Nobiliario, por cuja causa he indigno de fé o tal livro. As diversas copias que se fizeraõ desta obra se podem ler no Tom. 1. da Hist. Gen. da Cas. Real Portug. p. 269 e 276, sendo dellas a mais estimavel, a que mandou tresladar Damiaõ de Goes, quando era Guarda mór da Torre do Tombo continuando em volume separado algumas Familias, sem confundir com aquellas de que escrevera o Conde D. Pedro, como devia fazer Fernaõ Lopes. ElRey D. Joaõ III. ordenou, que se guardasse o livro do Conde D. Pedro no Archivo Real, como taõ conveniente á Nobreza do Reino, porém com toda esta recomendaçaõ padeceo o infortunio de lhe faltarem algumas folhas que foraõ supridas no anno de 1638 pela diligencia do Desembargador Gregorio Martins Homem, Guarda mor da Torre do Tombo alcançando de huma copia authentica, que se conservava no Archivo da Serenissima Casa de Bragança o Suplemento que lhe faltava. Ultimamente D. Antonio Alvares da Cunha Guarda mor da Torre do Tombo no tempo delRey D. Pedro II. vendo a confusaõ com que estava escrita esta obra, a reduzio com erudito trabalho á forma que hoje tem mandandoa encadernar em veludo carmesim, com chapas novamente douradas que tinha o antigo, e o dedicou á Magestade delRey D. Pedro II. entaõ Regente desta Monarchia, e se conserva na Gaveta 15 da Casa da Coroa da Torre do Tombo.

Obras Poeticas. Consta do seu testamento que as deixara a seu Cunhado ElRey de Castella, como assima se notou.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]