Da criação do nosso projeto, iniciado em Lisboa em 2014, do qual resultou a realização de quatro congressos (em Lisboa, Nápoles, Lisboa e Viterbo), envolvendo participantes de todo o mundo e a publicação de dois ebooks, entre outras iniciativas, muito discutimos sobre as problemáticas de género na língua, literatura e cultura de países falantes da língua portuguesa e italiana. A realização deste V Congresso Internacional em Estudos de Género no contexto italiano e em língua portuguesa propõe alargar esses debates e reflexões.

O próprio termo género tem gerado diversas conjeturas. Por exemplo, na língua inglesa, gender foi um termo que surgiu desde a década de 70, na senda dos movimentos feministas, e foi, posteriormente, adotado pelos cientistas sociais nos anos 80 do século XX, para se referirem à construção social em torno do masculino e do feminino, analisada sob a ótica de diferentes culturas. Contudo, seria em 1968, com Sex and Gender de Richard Stoller, que se assinalaria a origem deste conceito, problematizado, depois, pelos estudos feministas e pelas teorias queers. Lembremo-nos que, em português e em italiano, a palavra parece passar por alguma indefinição, registada em dicionários, já que, nessas línguas, gender (ou melhor dizendo, a sua tradução: género/genere) pode ter diferentes acepções, percorrendo o campo literário e gramatical e inclusive designar gosto, classe ou estilo.

Aliás, nas línguas românicas, o termo genere/género, e ao contrário do inglês gender, não contém o conceito de neutro; ou seja, ignora a existência de outra condição além do masculino e do feminino, porque tal conceito não faz parte das culturas neolatinas. Assim, género/genere parece definir uma estrutura dicotómica, puramente binária, gerando imensas confusões, principalmente quando os Estudos de Género se ocupam de contextos trans-género, e não binários.

Esta mudança e flutuação do conceito acontecem, segundo Judith Butler, porque para cada sociedade e contexto histórico esse vocábulo é entendido de modos diferentes, sendo uma das propostas centrais de Butler no seu famoso texto Gender Trouble (1990), a de desconstruir o conceito divisório entre género e sexo, termos que podem ser tomados como sinónimos, mas que de facto não o são.

Quando falamos de sexo, de facto, falamos de um conjunto de características biológicas, hormonais e físicas que definem a pessoa como homem, mulher ou intersexo. Quando falamos de género falamos de construções sociais, muitas vezes impostas culturalmente. Por isso, o conceito de género é fluido, depende da época histórica, do ambiente cultural, do país.

A antropóloga americana Gayle Rubin (1975) usa pela primeira vez a expressão “sex/gender system”, que, como ela afirma, é “the set of arrangements by which a society transforms biological sexuality into products of human activity, and in which these transformed sexual needs are satisfied.” Mas será Joan Scott (1989) a dar à palavra a sua definitiva afirmação, analisando a diferença entre sexo e género dum ponto de vista histórico-social partindo da análise linguística.

Para alargar o debate e discutir sobre a importância que os Estudos de Género têm vindo a assumir num momento histórico tão difícil do ponto de vista político e do reconhecimento dos direitos humanos, nessa V edição privilegiamos comunicações que foquem os seguintes temas:

1. A condição feminina no mundo lusófono e italiano: violência, abusos, direitos e desigualdades;
2. Língua, linguagem e género(s) nas línguas italianas e portuguesa;
3. Escritoras e personagens femininas na literatura italiana e/ou nas literaturas em língua portuguesa;
4. Escritores que falam de mulheres na literatura italiana e/ou nas literaturas em língua portuguesa;
5. Além da biologia: identidades trans-género e não binarias;
6. Teoria dos Feminismos, teoria queer e gay’s studies;
7. Infância, educação e estereótipos.
8. O conceito e a construção da masculinidade e da feminilidade na sociedade lusófona e italiana.
9. Género(s) e cultura (música, banda desenhada, cinema, artes plásticas sob a ótica do género).
10. Mass Media e questões de género.

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