D. AFFONSO filho sexto Serenissimos Monarchas D. Manoel, e D. Maria sua segunda mulher, filha dos Reys Catholicos Fernando, e Izabel, naceo na Cidade de Evora da Provincia Transtagana em 23 de abril de 1509, em cuja Cathedral recebeo a primeira graça no primeyro de Mayo do mesmo anno. Logo na infância deo claros indícios da agudeza do juízo, de que prodigamente o dotara a natureza. Aprendeo as letras humanas com Ayres Barbosa, e André de Resende, Oraculos da língua Grega, e Romana, e com a disciplina de taõ insiges Mestres fez taõ admiráveis progressos, que já ensinava quando aprendia. Ainda naõ excedia a idade de dez anos, quando Leão X no 1 de Julho de 1518 o ornou com a Purpura Vaticana do titulo de Santa Luzia in Septemsolijs (que depois foy mudado por Clemente VII para o de S. Braz no anno de 1524 e ultimamente para o de S. João, e S. Paulo por Paulo III no anno de 1536) querendo premiar com tanta antecipaçaõ em idade tão tenra as virtudes, que havia praticar na adulta, de cuja dignidade recebeo a posse a 28 de Mayo de 1526 das maõs de D. Fernando de Vasconcellos, e Menezes Capellão mòr e Bispo de Lamego. Das suas virtuosas acçoens foraõ gloriosos teatros as Dioceses da Guarda, Viseu, e Evora, nas quaes governou como vigilante Pastor numerosas ovelhas; servindo-lhe estas três Mitras de degráos para subir à dignidade Archiepiscopal de Lisboa no anno de 1523 onde desempenhou as obrigaçoens do officio Episcopal administrando os Sacramentos aos enfermos, explicando o Cathecismo aos rudes, e favorecendo com charitativa prosusão aos pobres. Ounou os Altares com preciosos paramentos; venerou com excessiva ternura a Maria Santissima, e com o mais profundo respeito a Christo oculto debaixo das espécies Sacramentaes. Foy exacto observador das Cerimonias Ecclesiasticas ordenando, que na Cathedral, e Arcebispado de Lisboa e naõ uzasse do officio Salisburgense introduzido desde o tempo delRey D. Affonso Henriquez, e somente se observasse como mais perfeito o Romano. Como era muito douto nas línguas Grega, e Romana, e versado nas letras sagradas, e profanas, estimava aos homens sábios, com quem tinha familiar comercio; e a alguns que floreciaõ com grande opinião em outros Reynos, os atrahia com generosos donativos para a sua companhia, na qual eraõ benevolamente tratados. Continuamente tinha patentes as portas a todo o género de pessoas, que buscavam na sua benevola comiseração refugio às suas necessidades, naõ permitindo, que se apartassem da sua presença queixosas, e desconsoladas, antes era naturalmente taõ liberal, que o dia, em que naõ fazia merces, e repartia dadivas, o julgava, como do Emperador Tito se escreve, por perdido. No tempo que Portugal gosava de hum Principe Ecclesiastico, cujas virtudes eraõ veneradas por todas as suas Jerarchias, foy acometido de huma grave doença, e conhecendo o perigo, que o ameaçava, fez que o levassem à Capella mòr da sua Cathedral, onde com terníssimos affectos, e devotas lagrimas recebeo o Sagrado Viatico, e recolhido ao Palacio entregou o espirito ao seu Creador na florente idade de 31 annos com geral sentimento desta Monarchia, e do Mundo Catholico em 23 de Abril, e naõ de Agosto, como erradamente escreveo Magesero no Diar. Austriac. p. 40 e 41 do anno de 1540 e não de 1537 como disseraõ Panvino, Ciaconio, os dous Irmaõs Luiz, e Scevola Santas Marthas. O seu corpo foy levado ao Real Convento de Belém, onde em hum soberbo Mausoleo espera a resurreiçaõ universal, tendo gravado no mármore o segunte epitáfio.

Heu quod in Alphonso viduantur honore Tiarae

Plorat Ulyssipo, Roma, rubensque toga.

Visenses pueri, quos ipse fide erudiebat

Solaque congaudent Sydera Cive suo.

Compoz.
Vita Alphonsi Lusitanorum Regum primi, que dedicou à Santidade de Leão X como diz D. Nic. de Santa Maria, na Chronica dos Coneg. Reg. liv.9, cap. 32, n. 6.

Das suas obras latinas assim em prosa, como em verso, fez huma collecção o celebre Antiquario André de Resende, e impressas as dedicou a ElRey D. João III como afirma o Padre Antonio de Machado in Lusit. Inful. & Purpur. pag. 225.

Constituiçoens para o Bispado de Evora, que foraõ as primeiras, que teve, e reduzio a melhor methodo as do Bispado de Viseu.

Varis são os elogos, com que diversos Authores celebraõ este grande Principe. Ayres Barbosa seu Mestre na Antimoria fol. 39 o congratulou com este celebre dístico, quando foy eleyto Cardial : Roma tibi donat Princeps Alphonse galerum. Dat tibi Roma decus, nec minus illa capit. Palat. in Fastis Cardinal. Tom 2, pag. 719. Alphonsus Princeps religiosissimus, litterarum, litteratorumque omnium máxime fautor, et Maecenas, qui magnanimitate, clementia, magnificêntia certavit cum omnibus Terrae Principibus. Ab eo tristis nemo umquàm discessit. Auctoritatem augens famulitij nobilitate, cutu domus, misericordia in pauperes, vere Rex hominum, Phaebique Sacerdos, inter Episcopos optimus, inter Reges clarissimus, quaesivit sollicitus Religionis augmentum, & observantiam sine strepitu, bosque gladio, solo verbo, & exemplo. Ciacon. de Vitis Pontif. Tom 3, pag. 414. Princeps munificentissimus, & magnanimus, ac tanta insuper mansuetudine, & clementia, ut nemo unquàm abe o tristis discesserit, quanta autem fuerit morum suavitate, & comitate, obitu illius intellectum est; non enim alio affectu eum universa luxit Lusitania, quám si communis omnium parens interiiset. Osor. de reb. Emman lib. 6. Singulare specimen religionis, & probitatis, & magnificentiar. Goes na Chron. DelRey D. Manoel. Part. 2, cap. 42. Foy assás douto na lingua latina. Cardos. Agiolog. Lusit. Tom 2, pag. 659. Mecenas sigular dos doutos, e beneméritos, favorecendo-os, e honrando-os em toda a occazião. Maris Dialog. 4 de varis Histor. Cap. 20. Douto na língua latina, e estudosissimo de letras, e sciencias. Pedro Sanches no Poema Laudatorio dos Poetas Portuguezes:

At Te Rege Sate Heros Emmanuele potente

Qui Tyrium Syrma ornasti, sacrumque Galerum

Ipse canat Phaebus; nos Te, & rua funera quondam.

Flevimus Alphonse, & gemitu lacrymisque profusis.

Ad tumulum maesta ter você vocavimus umbram,

Magne tuam, extremumque vale ter diximus. Eheu!

Quantum praesidij docti amisére Poetae

Morte tua! Quant~u decoris Parnasia Laurus,

Nã tibi s~eper erant cordi doctissime Princeps

Vates: muneribus vates, vultuque forebas:

Temporis, & si quid tibi forte vacabat ab almi

Praesulis officio, quod verbo, & rebus obibas

Donasti id totum Musis, placidaeque Poesi.

Jorge Coelho Secretario do Cardial D. Henrique nas suas obras poéticas impressas em Lisboa no anno de 1540 traz huma larga Elegia à morte deste Principe, que começa.

Defflebam Aphonsi fat~u quem funere acerbo

Tam juvenem nobis abstulit atra dies.

Garibay Comp. Hist. de Espan. liv. 35, cap. 30 e 31. Maffeo Hist. rer. Ind. lib. 10. Jongelin in Purp. D. Barnard. pag. 49 & 50. Cunha Hist. Ecles. de Lisb. part. 2, cap. 2 n 5. Sous. de Maced. Flor. de Espan. cap. 23 excel 3. Vasc. Anaceph. Reg. Lusit. pag. 272. Bsov. Annal. Eccles. Tom 19 ad ann. 1509 e 1516. Spondan. tom 2 ad an.1512 n 5. Padre D. Manoel Caetan. de Sous. Catal. Hist. dos Sum. Pontif. e Card. Portug. pag. 21. Manoel Pereir. da Sylv. Leal Catal. dos Bisp. da Guard. & 29. Fonseca Evor. Glorios. pag. 294. Manrique Annal. Cisterc. Tom 2 in serie Abbat. Alcobat. pag. 11 in fine. D. Antonio Caet. de Souza Hist. Geneal. da Cas. Real Portug. Tom 3, liv. 4, cap. 10.

 

[Bibliotheca Lusitana, Historica, Critica e Chronologica, vol. 1]

 

D. AFFONSO (O Infante), sexto filho d’elrei D. Manuel, Bispo d’Evora, Arcebispo de Lisboa, e Cardeal. – N. em Evora a 23 de Abril de 1509, e m. em Lisboa a 21 d’egual mez de 1540, contando apenas 31 annos d’edade. V. Constituições Synodaes do Arcebispado de Lisboa, e do Bispado d’Evora.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]