D. AFFONSO DE CASTELLO BRANCO igualmente famoso pelo esplendor do nascimento, como pela profundidade da Sciencia, teve por Patria a Lisboa, por Pay a D. Antonio de Castelobranco, e por Avós a D. Martinho de Castellobranco, e D. Mecia de Noronha primeiros Condes de Vallanova. Depois de estudar as letras humanas se aplicou em Coimbra às Sciencias  mayores, nas quaes fez taõ grandes progressos como Mestre de Theologia pelos mayores Professores da Universidade, e recebendo nesta faculdade a borla doutoral foy hum dos primeiros Collegas do Real Collegio de S. Paulo novamente fundado no anno de 1563 como diz Cabed. De Patronat., cap. 48. Pelo voto de todos os Academicos seria elevado a ilustrar como Mestre as mayores Cadeiras da Athenas Portugueza, se o Cardial D. Henrique neste tempo Arcebispo de Evora, que lhe era muito affecto, o naõ nomeasse Arcediago de Penella, e do Bago nesta Diocese, e depois seu Esmoler mór, e Capellão mór. Tendo exercitado com rectidão os lugares de Deputado da Mesa da Conciencia, e Ordens, e de Commissario da Bulla da Cruzada foy promovido à Episcopal Cadeira do Algarve no anno de 1581 succedendo nesta Prelasia ao insigne varaõ D. Jeronimo Osorio. Deste Bispado foy assumpto ao de Coimbra, de que tomou posso em 25 de Agosto de 1585. Conhecendo Filipe segundo a grande capacidade, e prudencia de que era ornado, o nomeou Vicerey de Portugal, cujo governo principiou a 22 de Agosto de 1603 e o dimitio a 26 de Dezembro de 1604 dizendo com apostólica liberdade, que governasse ElRey de Castella os seus Leoens, que elle queria apascentar as suas ovelhas. Entre tão grandes, e authorizadas dignidades sempre brilhárão com excesso as suas virtudes, de que foraõ manifestos argumentos a eloquente energia, com que prégrando reprehendeo os vícios; a perspicaz vigilância, com que defendeo o seu Rebanho; o incansavel trabalho, com que frequentemente visitou a sua Diocese; a impertubavel constancia, com que defendeo a Jurisdicçaõ Ecclesiastica; a profusa liberalidade, com que socorreo a pobreza; a clemencia unida com a severidade, com que emendou as culpas; a generosa magnificência, e o copioso dispêndio, com que ornou os Templos. Na cidade de Faro erigio o Palacio Episcopal, e a Casa da Misericordia. Em Coimbra reedificou o Palacio para digna habitação da sua Pessoa, e de seus sucessores. Nesta cidade levantou desde os fundamentos o Convento de Santa Anna de Religiosas Agostinhas naõ interior na Architectura, e na grandesa aos mais celebres, e o dotou de copiosas rendas. Novamente reparou o Coro, e grande parte dp Convento de Cellas de Religiosas Cistercienses. Ornou a sua Cathedral com edifício nobres, preciosas armaçoens, e diversos ornamentos promorosamente tecidos de ouro, prata, e seda. Naõ satisfeito de ter dispendido com larga munificência para a fabrica do Cofre de prata, em que jáz o corpo da Rainha Santa Isabel triumfante da jurisdição do tempo, deixou no seu testamento o legado, taõ pio, como generoso, de trinta mil cruzados para se gastarem nos applausos da sua Canonisação, além de vinte mil para reparo das esradas, que de seis legoas em circuito vinhaõ terminar em Coimbra. Ao Hospital, e Casa a Misericordia desta Cidade socorreo com magnificas esmolas no tempo, que se padeciaõ mais urgentes necessidades. A muitos varoens insignes, com que em utilidade da Republica litteraria laboriosamente se applicavaõ em doutas composiçoens, offereceo numerosas quantias de dinheiro, para que as imprimissem, sendo os principaes D. Diogo Soares de Santa Maria Bispo Sagiense em França, a Lippomano em Italia, e ao Cardial Cesar Baronio, a quem mandou vinte mil cruzados para a edição dos Annaes Ecclesiasticos, os quaes o Eminentissimo Annalista effectuosamente agradeceo, e modestamente naõ admitio. Ultimamente assim como naõ houve vitude alguma, em que naõ fosse insigne este Prelado, assim naõ houve género algum de Pessoa, a quem não se extendesse a sua charitativa, e generosa beneficência, merecendo por ella ser em toda a Diocese Conimbricense intitulado antonomasticamente Bispo Esmoler. Tendo governado este Bispado trinta anos, quando contava 93 de idade com eterna saudade das suas ovelhas, com as quaes dispendera quihentos mil cruzados, deixou a vida temporal pella eterna em 12 de Mayo de 1615. Jáz sepultado ao lado esquerdo da Capella mór do Convento de Santa Anna, que elle fundára, em cujo Mausoleo se lé gravado este epitáfio, que faz mayor relação das suas dignidades, que das suas virtudes: Sepultura de D. Affonso de Castellobranco de boa memoria, que foy Collegial do Real Collegio, Bispo do Algarve, e de Coimbra, Conde de Arganil, Esmoler mór do Cardeal D. Henrique, Viso-Rey de Portgal, o qual entre muitas obras ilustres com que honrou esta Cidade, fundou, e dotou com magnificência este Convento insigne. Fez-se esta obra em 12 de junho de 1635 sendo Proreza a Madre Maria de Menezes sua sobrinha. Compoz: Sermão do Auto da Fé em Coimbra; o qual verteo em Latim Franisco Fernandes Galvaõ, e o dedicou ao Pontifice Xisto V. sahio Romae apud Titum & Paulum de Dianis, 1589, 4, e tem este titulo. Celebris concio in publico sanctae Inquisitionis Actu Conimbriae habita ab Illustrissimo Domino S. Alphonso de Castel-Branco ejusdem Civitatis Episcopo Reverendissimo, Arganili Comite. Sermaõ na Collocaçaõ das Reliquias que foraõ levadas da Seé de Coimbra e o Real Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, e sahio impresso na mesma Cidade por Antonio de Mariz 1596 em a Relaçaõ do solemne recebimento das mesmas reliquias, e está à pag. 57 v.º até pag. 76. Constituiçoens de Coimbra. Coimbra por Antonio Mariz, 1591, fol. Resolucion del Señor D. Alonso de Castelobranco Obispo de Coimbra y Conde de Arganir &c. y del D. Francisco Suares Lector de Prima dela Universidad de Coimbra sobre el caso, que se movió en Toledo cerca dela profession de os hermanos Terceros Seglares. Saragosa por Lucas Sanches, 1610, fol. Carta Pastoral escrita em 9 de Fevereiro de 1607 na qual dá aos Prégadores admiráveis documentos. Conservase na Livraria do conde Vimieiro. Sermoens M. S. que se conservaõ no Cartorio do Collegio da Companhia de Jesus de Coimbra sendo o primeiro de S. Francisco, o segundo do Domingo primeiro de Quaresma, terceiro do Nascimento de N. Senhora, quarto, quinto, e sexto da Purificação de N. Senhora pregados os dous primeiros no anno de 1602 e o último em 1603 e delle consta, que era o nono, que tinha pregado na mesma Festividade em a sua Cathedral. Sermão no Auto da Fé de Coimbra. Domingo dezanove de Mayo de 1591 M. S. o qual he diferente do que assima se faz menção, e delle conservo huma copia em meu poder. Diversas foraõ as pennas, que elogiaraõ a sabedoria, piedade, e merecimento deste grande Prelado, como foraõ  Joaõ de Almeida Soares na sua vida, que estava prompta para a impressão. Brand. Mon. Lusit., part. 4, liv. 12, cap. 36 e part. 5, liv. 17, cap. 9. Mendonça in Viridar. lib 6, orat. 11 n 142. Tuam ego eloquantiam, Praesul Illustrissime, & Amplissime, quem singularem novit Lusitania, vidit Conimbrica, Societas nostra expert est, & Pastorem, & Praedicatorem, tuam inquam, eloquentiam augustam verbis, virtutibus augustiorem desidero & in Orat. 14 n 170. D. Nicol. de S. Mar. Chron. dos Coneg. Reg., liv. 7, cap. 20 n 10. Pregoeiro divino, Pontifice Catholico, Conde Illustrissimo, taõ zeloso da virtude como sabio nas divinas letras, e lib. 10, cap. 15 n 8. Cardoso Agiol. Lusit., tom. 3, pag. 689 no Comment. De 14 de junho letr. A onde lhe chama de inclyta memoria. Fr. Franc. De Maced., tom. 1. Collat. D. Thom. Et Scot. Collat 12 differ. 1, pag. 524, intitulando-o Illustrissimum, et doctissimum virum in Sanctis Patribus, ac imprimis Augustino versatissimum. Masseus in vit. P. Franc. Soar. cap. 16 doctissimum Fr. Fernand da Soled. Hist. Seraf. Part 4, cap. 8 n 63 dizendo A sua grandeza, e liberalidade naõ necessita da nossa memoria para ser plausível, pois anda taõ vulgarmente celebre nos clamores da fama. Telles Chron. da Companhia de JESUS na Prov. De Port., part. 2, liv. 4, cap. 53 n 1. Prelado taõ celebrado neste Reyno. Antonio Ferreir. Nos Poemas Lusit., liv. 1 das Odes. Ode 5 Fr. Man. Da Esper. Hist. Seraf. Da Prov. De Portug., part. 1, liv. 2, cap. 32 n 4 e 6 e part. 2, liv. 12, cap. 6 n 15. Franc. Leit. Ferr. No Cathal. Dos Bisp. De Coimb. & 71. Em semelhantes elogios da sua Pessoa se difundiraõ D. Diogo Soares de Santa Maria, e Fr. Antonio Feyo da Ordem dos Prégadores nas Dedicatorias, que lhe consagrfáraõ, aquelle no livro intitulado Concion. Pro Solemnit. Corp. Christ. E este nos Sermoens Quadragesimaes, na parte 1 do Santoral onde diz que naõ aceitara o Arcebispado de Evora oferecido por Felipe III fazendo-lhe excesso na pompa das palavras, e copia de louvores o insigne Jurisconsulto Gabriel Pereira de Castro na Dedicatoria, que lhe fez da 3 parte de Jure Emphyt. composta por seu Pay Francisco Caldas Pereira onde lhe forma este elegantíssimo elogio. Te nostra colit Lusitania patriae parentem amantissimum: Hispani suspiciunt: mirantur Itali, quos tuae aloquentiae, & Sanctimoniae divulgata opinio circunstrepit. Et quis non mirabitur tam reconditam divini Pastoria doctrinam; tam absolutan religionem, tam perfectam, veréque Christiánam pietatem cum vera modéstia conjunctan sub tam sereno vultu delitescentem? Tuam raram prudentiam, maturum tam in publicis, quám in privatis actionibus consilium regiamque magnificentiam, qua reliquos Antistites antecessores tuos ita longo intervallo praecellis, ut si de ijs pro dignitatequis velit disserere, omnishumana dicendi ratio, atque facultas, omnisque orationis ubertas obruatur necesse est. Ut ínterim ilustrem sanguinis tui splendorem, ac nobilitatem praetermittam, quantúmque bonarum artium praesidiis, Sacraeque Theologiae, cui te totum in D. Paulo Collegio addixisti, Civilisque etiam disciplinae opibus ad haec belli, pacisque tempora sic abunde instructus, ut regere Consiliis Urber, fundare legibus, & emendare judicio possis, & valeas. Deterrent plane mortalium judicia tot inexhaustae liberalitatis tuae, numquámque audita exempla: tot in hanc Civitatem postquám ad hanc Pontificalem dignitatem felicibus auspiciis evectus es: singularia beneficia omnium animos in admirationem rapiunt; tot insígnia opera, que molitus es; tot ingenes sumptos, quis in exornanda, & amplificanda tui almi Templi sede consumpsisti, & in extruendis Divorum Sacrariis, ac delubris, & Sacrarum Virginum Deo militantium aedibus àprimo lapide extructis, tot opes, totque grandes expensae magnitudine sua cogitationes humanas opprimunt. Jam veró quanta tibi in concionando eloquentia, quanta gravitas, quantum Orationis flúmen, quanta copia, quantus lepos in dicendo! Haec sane majora sunt quám que calamo, ne dicam, cogitatione possint concipi. Non immeritó igitur Te omnis nobilitas intuetur; omnis Lusitania laude, & celebratione praedicat incolumitatis publicae defensorem maximum: prodiens in publicum populi gratulantis audis sempre laetas acclamationes, & vulgi iucundae vocês fausta tibi ominantis aures tuas circumsonant. Ultimamente coroa todos estes elogios meu Irmão D. José Barbosa Chronista da Serenissima Casa de Bragança, e Academico da Academia Real nas Memor. do Colleg. de S. Paul., pag. 79 e no Archiathae. Lusit., pag. 13 onde com portica elegância descreve compendiosamente as acçoens deste Prelado: En Alfonsus adest clara de stirpe creatus, Praesulum & ornatos, decus immortale, corona, Infula sacra comas cinget Colimbria, pastor Largus opum, solitusq~ pios diffundere nimbos. Tempore devicto famam servabit in aevum. Quis gazas numerare potest, quas dextera fundet? Põdera ve argenti tabulis mandata supremis? Romano dicet cinctus Baronius ostro Elisabethque choris dicet socianda beatis, Et saxis reparanda novis convulsa viarum. Machina, quae long~u complectitur ardua circ~u, Vestalis qua pura focos servabit, & ignem Offeret intacto divino faedere sponso, Alphonsus referet, quantum sit prodigus aeris. Munere Proregis Lysiae dominabitur alto, Grandior ast annis, tardusque aetate senili Ductus amore gregis vanos cõtemnet honores Ut vacuus curis rutilam conscendat in arc~e.

 

[Bibliotheca Lusitana, Historica, Critica e Chronologica, vol. 1]

 

D. AFFONSO DE CASTELLO BRANCO, bastardo da casa dos Condes de Villa Nova, Dr. em Theologia pela Univ. de Coimbra, Commissario da Bulla da Cruzada, successivamente Bispo do Algarve e de Coimbra, e ViceRei de Portugal, de quem Barbosa fez larga menção no logar competente, posto que lhe occulte a qualidade de illegitimo. – N. em Lisboa, e m. em Coimbra a 12 de Maio de 1615, com 93 annos de edade. V. Constituições do Bispado de Coimbra.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]