AFFONSO DE MIRANDA, Contador do Reyno, e Casa Real como fosse muito douto na faculdade da Medicina querendo emendar muitos erros, que na aplicação dos remedios commetião os professores daquela arte com grande prejuízo dos enfermos, se empenhou a formar hum Medico perfeito com a instrução que para este fim compoz; porem receando que contra elle e conjurassem os Medicos, que florecião no seu tempo, teve oculto o livro em quanto viveo deixando recomendado a seu filho Jeronimo de Miranda Medico da Camara de ElRey D. Sebastião, que depois da sua morte o imprimisse, o qual obedecendo ao preceito de seu Pay o dedicou àquelle Principe, que então governava, com este titulo: Dialogo da perfeiçaõ, e partes, que saõ necessárias ao bom Medico. Lisboa por João Alvres Impressor de ElRey 1562, 4. Nicolao Ant. falando desta obra na Bib. Hisp. diz que este Tratado parece não ser de Affonso de Miranda , mas de outrem, sendo traduzido de Latim em vulgar, cuja opinião além de naõ ter fundamento solido, consta claramente de hum soneto escrito em aplauso desta obra ser seu verdadeiro Author Affonso de Miranda, e nunca se descubrir o exemplar Latino donde se traduzira.

Por el Cielo aqui conocimiento

Que todo lo que quiere está en su mano

En el Doctor Miranda Lusitano

Quiere poner el bien fuera de cuento.

De Gracia, de valor, de entendimento

De letras, y de ingenio sobre humana:

De estilo tan capaz, y cortezano

Que nó terá segundo a lo que siento.

 

[Bibliotheca Lusitana, Historica, Critica e Chronologica, vol. 1]

 

AFFONSO DE MIRANDA, Contador do Reino e Casa Real, que viveu no tempo d’elrei D. João III. – Barbosa lhe attribue:

52) Dialogo da perfeição & partes que sam necessarias ao bom Medico. Dirigido ao muyto alto e Serenissimo Principe Rey dom Sebastiam, primeiro deste nome, Nosso Senhor. Em Lixboa, por Joam Alvares impressor delRey. Anno M.D.LXII. 4.º Consta de 25; folhas numeradas só na frente, e são interlocutores Phyliatro e o commendador Fernan Nunez, que viveu noventa annos, e nunca se curou com medicos!

Posto que o titulo e a dedicatoria sejam em portuguez, o dialogo é todo escripto em castelhano. Se houvermos d’estar pelo que diz Barbosa no tomo I, art. «Affonso de Miranda» este é o verdadeiro auctor do livro, que depois sahiu posthumo por diligencia de seu filho Jeronymo de Miranda. No tomo II porém, a pag. 509, contradiz‑se, como ás vezes lhe acontece, dando por auctor da obra o proprio Jeronymo de Miranda, sem que se faça cargo ou dê razão da sua desconcordancia. E o peor é que ahi mesmo diz que a obra fora impressa por Antonio Alvares, o que é manifestamente falso, como tive occasião de verificar por exame no exemplar que existe na Bibl. Nacional de Lisboa. Confesso que á vista do mesmo exemplar não sei a quem deva attribuir a composição d’este opusculo, que se diz traduzido, ao que parece de latim, por mandado de Affonso de Miranda, e por elle deixado a Jeronymo de Miranda, para que o publicasse, como fez, depois da sua morte. Não se estabelece porém entre um e outro razão alguma de parentesco, apesar da identidade dos appellidos, e muito menos a paternidade, que Barbosa gratuitamente quiz suppôr.

Antonio Ribeiro dos Sanctos chama a esta obra «rara, e de estimação»: diz que possuia d’ella um exemplar, e vira outro na livraria de Monsenhor Hasse, o qual deverá ter passado para a da Univ. de Coimbra com os mais livros d’aquelle prelado.

Encontro tambem n’este livro uma singularidade, que por notavel merece que d’ella se dê conta. Traz no verso do rosto estampada a licença do P. Fr. Manuel da Veiga, dominicano, na qual – Attesta que vira a sobredita obra, e que não achara cousa alguma contra a nossa sagrada religião e bons costumes: E por tanto (diz) dou licença para se imprimir oje 9 de Julho de 1562. Fr. Emmanuel da Veiga.-Da phrase dou licença parece que legitimamente se deve inferir que a este padre competia sómente o concedel‑a: e portanto vê‑se que o processo das licenças não estava áquelle tempo regulado do modo por que o foi depois.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]