AFFONSO DE ALBUQUERQUE filho do celebre Heróe de que se fez a precedente memoria, foy não somente herdeiro das suas virtudes, e acçoens heroicas, mas ainda do seu mesmo nome. Naceo na quinta, que foy berço de ser grande Pay junto à Villa de Alhandra situada nas margens do Tejo no anno de 1500. O nome de Braz, que no batismo lhe fora imposto, o mudou no de Affonso por insinuação delRey D. Manoel, querendo este Principe igualmente eternizar na sua Pessoa a memoria de seu ilustre Progenitor, como continuar nelle a remuneração de tão altos merecimentos, de que forão manifestos argumentos o nomeallo Capitão de hum Navio de Armada, que conduzio a Infanda D. Beatriz, quando se foy despoza com o Duque de Saboya, e ser instrumento de que cazasse com huma Dama das mais ilustres, que venerava Portugal, qual era D. Maria de Noronha filha de D. Antonio de Noronha primeiro Conde de Linhares, e Escrivão da Puridade delRey D. Manoel, e de D. Joanna da Sylva, filha de D. Diogo da Sylva primeiro Conde de Portalegre, e lhe fez merce de hum juro de trezentos mil reis. Não só os merecimentos herdados mas os próprios o constituirão digno de mayores prémios. Foy dotado de insigne prudencia alcançada com a lição dos Livros, e continua administração de negócios, pela qual o nomeou ElRey D. João o III. Vedor da sua Fazenda, onde foy tão vigilante no obsequio do seu Principe, como desinteressado no aumento próprio. Grande providencia manifestou a sua capacidade quando no anno de 1569 sendo Presidente do Senado de Lisboa, aplicou todos os meyos para evitar os calamitosos damnos, que em toda a Cidade causava a peste, que com horrorosa voracidade tinha cõsumido a muitos milhares de homens, devendose à sua compassiva vigilância o total extermínio de tão medonho flagelo. Para alivio dos ministérios, que exercitava, edificou no lugar de Azeitão huma sumptuosa quinta povoada de frondosas arvores, e  regada de caudelosas fontes, de cuja antigua grandeza ainda hoje se conservão alguns vestígios. Cheyo de anos, e acçoens virtuosas morreo em Lisboa no anno de 1580 e foy sepultado na Parochial Igreja de S. Simão situada na Villa de Azeitão, onde instituhio duas Capellas cõ obrigação de que cada Capellão diga cada romana quatro Missas pela sua alma, de seus Pays, mulher, amigos, e inimigos, e das que estão penando no Purgatorio. Deixou huma filha única chamada D. Joanna de Albuquerque que casou com D. Fernando de Castro. Compoz: Commentarios de Affonso Dalbuquerque Capitão geral, e governador da India collegidos por seu filho Afonso Dalbuquerque das próprias cartas que elle escrevia ao muyto poderoso Rey Dom Manuel o primeiro deste nome em cujo tempo governou a India. Vam repartidas em quatro partes segundo os tempos dos seus trabalhos. Tem no fim as seguintes palavras: Forão impressos estes Commentarios Dafonso Dalbuquerque Capitão geral, e Governador da India, na Cidade de Lisboa, por João de Barreira impressor delRey Nosso Senhor. Acabaram-se de imprimir Vespera de S. Sebastião, dezanove dias do mez de Janeiro de mil, e quinhentos, e sincoenta, e sete anos, em cujo dia o Principe dom Bastiam nosso Senhor a quem esta obra vay oferecida faz trez anos, fol. Sahirão segunda vez impressos em Lisboa pelo dito Impressor 1576 fol. Traduzidos na língua Franceza. Pariz por João Marnef. 1579. No Cancioneiro, de que foy Collector Garcia de Resende, estão alguns Versos de Affonso de Albuquerque a fol 169, 170 e 176 dos quaes se manifesta, que tão versado foy na Poesia, como na Historia. Tratado da Antiguidade, nobreza, e descendência da família dos Albuquerque, M. S. Desta obra faz elle menção nos Comment., part 4, cap. 50 e o Padre D. Antonio Caet. De Sousa no Apparat. À Hist. Gen. Da Cas. Real Portug., pag. 38 & 17. Louvão ao author, e a obra dos Commentarios com os merecidos encómios Barros Decad. 2 da India liv. 10, cap. 8. Maffeo rer. Ind. Hist., lib. 5 in fine. Goes Chron. delRey D. Man., part. 3, cap. 80. Ant. de Leon, Bib. Orient., tit. 3. Nic. Ant. Bib. Hist., tom 1, pag. 6. D. Luiz Salaz. De Cast. Hist. da Cas. Dos Sylv., part. 2, l. 6 c 13 & 3 n 14. Far. Epit. Das Hist. Portug., part. 4, cap. 18. Joan. Soar. De Brit. In Theatr. Lusit. Litter., lit. A n 8. Ant. Ferreir. Nos Poem. Lusit., eleg. 6 e o P. Lafitau Hist. Des Descov. & Conquet des Port., tom 1, p. Mihi 521. Il y paroit un grand amour de a verité, une grande moderation beaucoup de management pour la perfonne des ennemis de son Pere, et tant de modestie dans le detail des actions de ce Heros, qú on peut dire que le portrait qú il enfait, bien loin d’étre outre, est beaucoup au dessous de son original.

 

[Bibliotheca Lusitana, Historica, Critica e Chronologica, vol. 1]

 

AFFONSO DE ALBUQUERQUE, antes chamado BRAZ DE ALBUQUERQUE, filho natural do grande Affonso d’Albuquerque. – N. na Villa d’Alhandra, e m. em Lisboa com 80 annos de edade no de 1580. – E.

36) Commentarios de Afonso Dalboquerque capitão geral & gouernador da India, colligidos… das proprias cartas que elle escreuia ao muyto poderoso Rey dõ Manuel, o primeyro deste nome… Lisboa, por João de Barreira 1557. fol.

(C) Sahiram segunda vez impressos, com este titulo: Commentarios do Grande Afonso Dalboqverqve, Capitam Geral que foy das Indias orientaes. Em tempo do muito poderoso Rey dom Manuel, o primeiro deste nome. Nouamente emendados & acrescentados, etc… Lisboa, por João de Barreira 1576. fol. de IV‑578 paginas, sem contar as do indice final.

Esta edição é muito mais estimavel que a primeira, por ter n’ella seu auctor, «emendado algumas cousas que tinha escriptas, e acrescentado outras, advertido de maiscertas informações» como elle diz na sua dedicatoria a elrei D. Sebastião. O sr. Figaniere na sua Bibliogr. Hist. n.° 891 descreve e confronta exacta e minuciosamente, como costuma, os titulos de ambas as edições, por modo que não podem ser confundidas; como com inadvertencia indesculpavel o foram, na descripção que d’esta obra faz o benemerito professor Pedro José da Fonseca no seu Catalogo dos Auctores que precede o Diccionario da Lingua Portugueza publicado pela Acad. das Sc.; onde principiando por transcrever o rosto da segunda edição, acaba copiando o da primeira, quanto á data; do que resulta uma confusão e transtorno inexplicaveis. Erro que d’ahi passou para o denominado Catalogo da Academia impresso em 1799, e para a Bibliotheca Lusitana Escolhida do sr. José Augusto Salgado.

Os Commentarios sahiram pela terceira vez, Lisboa, na Reg. Off. Typ. 1774, 8.º 4 tomos, com retrato e mappas. Esta é a edição vulgar: qualquer das outras é rara, e a de 1576 merece por todos os titulos a preferencia. Os exemplares d’esta ultima em soffrivel estado de conservação tem valido no mercado de 4:000 a 4:800 réis, e talvez mais.

Da de 1774, que hoje custa na Imprensa Nacional 1:200 réis, acho memoria no Manual de Brunet de terem sido vendidos em Paris um exemplar por 31 francos, e outro por 27!

Esta obra é uma das fontes originaes a consultar para a historia da India. Seu auctor é contado geralmente no numero dos bons classicos da lingua, e o P. Antonio Pereira de Figueiredo não duvidou dar‑lhe o quinto logar na serie em que os collocava com respeito ao merito relativo de cada um, antepondo‑lhe apenas João de Barros, Damião de Goes, Francisco de Andrade, e Diogo do Couto. Parece‑me comtudo que esta opinião do illustre philologo terá poucos seguidores.

Não fecharei este artigo sem insistir mais uma vez na leviandade com que Diogo Barbosa attribue ao nosso Affonso de Albuquerque as trovas, que sob este nome se lêem no Cancioneiro de Rezende a fol. 169, 170 e 176: como é possivel que ao douto Abbade escapasse que o Cancioneiro foi publicado em 1516, quando aquelle acabava de completar quinze annos de edade, e ainda se chamava Braz; pois só mudou de nome por insinuação de elrei D. Manuel, e depois da morte de seu pae, falecido em Goa a 16 de Dezembro de 1515, como o mesmo Barbosa refere pouco antes!

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]