RUY DE PINA, natural da Cidade da Guarda segundo solar da Familia dos Pinas transferida de Aragaõ a Portugal por Fernaõ Fernandes de Pina. Foy filho terceiro de Lopo Fernandes de Pina Escudeiro da Casa de Affonso V. e Coudel mór do destrito da Guarda, e de Leonor Gonzalves. Desde os primeiros annos mostrou capacidade de talento, madureza de juizo, e aplicaçaõ incessavel á Historia sagrada, e profana por cujos dotes mereceo ser eleito por ElRey D. Joaõ II. Secretario de duas Embaxadas acompanhando na primeira ao Embaxador D. Joaõ da Sylveira Baraõ de Alvito, quando no anno de 1483 passou com este honorifico caracter a Castella, em cuja Corte foy repetidas vezes a tratar negocios em que era interessada a nossa Coroa. Na segunda partio no anno de 1485 com D. Pedro de Noronha Mordomo mór, e Commendador mór de Saõ-Tiago Embaxador a Santidade de Innocencio VIII para o congratular da parte do seu Soberano de ser assumpto ao Trono de Vaticano. Nesta grande Corte conciliou Ruy de Pina as estimaçoens das primeiras pessoas de huma, e outra Jerarchia, sendo as mais distintas que recebeo do Summo Pontifice devendo-se á sua grande actividade a concessaõ da Cruzada para este Reyno. Nomeado Chronista mór por morte de Gomez Eanes de Zurara lhe passou D. Joaõ II. hum Alvará em 16 de Fevereiro de 1491, em que lhe fazia mercê de nove mil quinhentos e sessenta reis de tença pela laboriosa ocupaçaõ, com que continuava as Chronicas do Reino. O mesmo Principe o mandou por seu Procurador a Barcelona, onde assistiaõ os Reys Catholicos em o anno de 1493 para compor as controversias que havia entre estes Principes sobre os descobrimentos do mundo novo. Alcançando tantas honras delRey D. Joaõ II. naõ foraõ inferiores, as que recebeo de seu sucessor o grande Rey D. Manoel, pois conservando os lugares de Chronista mór do Reino, Guarda mór da Torre do Tombo, e Escrivaõ das Confirmaçoens, que depois se anexou aos Secretarios das Merces, como se colhe do liv. 3. dos Mysticos, que está na Torre do Tombo p. 104. lhe deu sessenta mil reis de tença pela composiçaõ das Chronicas de Affonso V. e D. Joaõ II., e mil cruzados de ouro pela delRey D. Duarte, como tambem o Montado da Serra da Estrella que fora de Joaõ Freire de Andrade. Foy casado com Catherina Vaz de Gouvea, filha de Joaõ Vaz, de quem teve a Fernaõ de Pina, que lhe sucedeo nos lugares de Chronista mór, e Guarda mór da Torre do Tombo: D. Leonor de Pina, e D. Isabel de Pina, que casaraõ em vida de seu Pay deixando ambas illustre posteridade, assim em Portugal, como em Castella. Fez o seu Testamento em Lisboa a 21 de Mayo de 1515, no qual instituhio morgado vinculado á Capella do Espirito Santo situada na Cathedral da Guarda, e confirmado por ElRey D. Manoel a 24 do dito mez e anno, com obrigaçaõ, de que o sucessor usasse do apellido de Pina immediato ao nome que lhe fosse imposto no bautismo, e de servir aos Reys de Portugal, e naõ viver fora do Reino, com outras clausulas, que mostraõ o justo dezejo de conservar o esplendor de seus ascendentes. Retirado para a sua Quinta de Saõ-Tiago, distante meya legoa da Cidade da Guarda, falleceo entre os annos de 1519, em que se achaõ as suas ultimas noticias, e o de 1523 em que seu filho Fernaõ de Pina lhe sucedeo nos lugares de Chronista mór, e Guarda mór da Torre do Tombo, donde se colhe o engano em que cahio Damiaõ de Goes Chron. delRey D. Manoel. Part. 4. cap. 37. dizendo, que Ruy de Pina depois do fallecimento deste Monarca, que morreo no anno de 1521 vivera muitos annos, quando naõ passaraõ de dous. Foy sepultado por deposito na sua Parochia de N. Senhora do Mercado da Cidade da Guarda até ser transferido para a Capella mór do Convento de S. Francisco da dita Cidade, que tinha restaurado sua filha Isabel de Pina, como escreve Fr. Manoel da Esperança Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Part. 1. liv. 4. cap. 18. n. 3. Intentou effeituar esta tresladaçaõ no anno de 1642 Simaõ da Gama quarto Neto de Ruy de Pina, mas por obstaculos que lhe poz o Paroco se naõ effeituou. Tinha declarado Ruy de Pina no seu Testamento, que lhe puzessem na sua sepultura. Letreiros verdadeiros, e honestos como bem lhes parecer, e haverem por bom conselho havendo respeito a sua qualidade, serviços, e merecimentos. Por muitos annos se ignorou o lugar certo da sua sepultura, pois a pedra que cobria os seus ossos, e de seu Pay, onde se liaõ os seus nomes por incuria dos Priores da Igreja se tinha voltado para a terra, até que por deligencia de Francisco Xavier de Paiva Academico Supranumerario da Academia Real apareceraõ alguns fragmentos com estas letras. Sepultura de Ruy de Pina, e seu Pay Lopo Fernandes de Pina. Anno 152… Do seu nome fazem honorifica memoria, Manoel de Faria e Sousa Ind. dos Auth. Portug. no principio do Tom. 3. da Asia Portug. Resende Chron. de D. Joaõ II. cap. 34. e 57. Brandaõ Mon. Lusit. Part. 5. liv. 16. cap. 8. Barros Decad. 1. da Ind. liv. 2. cap. 2. Fr. Luiz de Sousa Hist. de S. Doming. da Prov. de Portug. no Prolog. Joan Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. R. n. 13. Macedo Flor. de Espan. cap. 8. Excel. 9. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. pag. 217. col. 1. Illustris. Cunha Hist. Eccles. de Braga. Part. 2. cap. 65. Franc. Soar. Toscan. Paralel. de Var. Illustr. cap. 16. 71. e 72. Zurita Annal. de Arag. Tom. 4. liv. 20. cap. 50. e Tom. 5. liv. 1. cap. 25. Compoz

Chronica delRey D. Affonso IV. assim como a deixou escrita Ruy de Pina  Chronista de Portugal, e Guarda mór da Torre do Tombo. Lisboa por Paulo Crasbeeck 1653. fol.

Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Sancho I. segundo Rey de Portugal fielmente copiada do seu Original que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. Lisboa na Officina Ferreiriana 1727. fol.

Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso II. Terceiro Rey de Portugal fielmente copiada do seu Original que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. ibi na dita Officina 1727. fol.

Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Sancho II. Quarto Rey de Portugal fielmente copiada do seu original que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. ibi na dita Officina 1728. fol.

Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso III. Quinto Rey de Portugal fielmente copiada do seu Original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. ibi na dita Officina 1728. fol.

Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Diniz sexto Rey de Portugal fielmente copiada do seu Original que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. ibi na dita Officina 1729. fol.

Chronica do muy alto, e poderoso Principe o Rey D. Affonso deste nome o quinto, e dos Reys de Portugal o duodecimo. fol. M. S. Começa. O mais singular, e proveitoso conselho, &c. Consta de 213. Capitulos. Esta Chronica principiada por Gomes Eanes de Zurara reformou no estylo, e acabou na materia Ruy de Pina.

Chronica do muito alto, e poderoso Principe o Rey D. Joaõ II. deste nome, e dos Reys de Portugal decimo tercio. Começa. Este officio historial, &c. Consta de 75. Capitulos. He toda de Ruy de Pina, como confessa Damiaõ de Goes, que lhe foy pouco affecto, na Chron. delRey D. Manoel Part. 4. cap. 38. com estas palavras. Quanto a Coronica delRey Dom Joaõ segundo, naõ ha duvida o ser feita pelo mesmo Ruy de Pina, e delle se lhe naõ póde negar ho trabalho, porque ho estilo, e processo da obra dam verdadeiro testemunho ser tudo seu sem outra nenhuma mistura. Conserva-se huma copia de letra antiga na Livraria do Excellentissimo Conde de Vimieiro.

Chronica do mui alto, e poderoso Principe ElRey D. Manoel. Della faz mençaõ Damiaõ de Goes na Chron. do mesmo Rey. Part. 4. cap. 37. dizendo. Começou a Chronica delRey D. Manoel convidado por elle com grandes merces, e premios, continuou até a tomada de Azamor, e morte de D. Joaõ de Menezes, que  foi no anno de 1514. Della ainda que imperfeita se aproveitou o mesmo Goes para a composiçaõ da que escreveo, e publicou, como diz o insigne Historiador Fr. Luiz de Sousa no Prolog. da 1. Part. da Hist. de S. Doming. da Prov. de Portug. Valeo-se Damiaõ de Goes entre os nossos para a Chronica delRey D. Manoel dos trabalhos de Ruy de Pina, e Fernaõ de Pina seu filho que a tinhaõ quasi toda feita, confessao elle lá em hum canto della, pudera-o fazer no rosto.

Compendio das grandezas, e cousas notaveis que ha entre Douro, e Minho, e em sua Comarca vistas pelo mui douto Chronista Ruy de Pina por mandado delRey D. Joaõ III. Lisboa 1608. 8. Sem nome do Impressor.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]