Fr. ROQUE DO ESPIRITO SANTO, natural da Villa de Castello-Branco do Bispado da Guarda. Teve por Pays a Francisco Martins da Costa, Doutor em Direito Civil pela Universidade de Pariz, e a Ignez da Gaya sua primeira mulher, e por meyos irmãos a Bartholameu da Fonseca Collegial do Collegio Real de S. Paulo, e Deputado do Conselho geral do Santo Officio: Fr. Egidio da Apresentaçaõ Erimita Augustiniano Cathedratico de Vespera em a Universidade de Coimbra, e ao Doutor Diogo da Fonseca do Conselho supremo de Portugal em Castella. Recebeo o habito da illustre Ordem da Santissima Trindade no Convento de Santarem em o anno de 1541, onde depois de estudar as sciencias severas, que compreendeo com felicidade, e ensinou com subtileza subio ao lugar de Provincial por quatro vezes, em cujo exercicio reduzio a Religiaõ á sua primitiva observancia, e fundou o Collegio de Coimbra, e o Convento de Ceuta. Como o mayor brasaõ do seu instituto seja resgatar os Christãos do barbaro cativeiro dos Mouros se dedicou a este piedoso ministerio com taõ ardente zelo, que sendo eleito Comissario geral da Redempçaõ libertou tres mil Christãos que gemiaõ nas masmorras de Africa. Meditando ElRey D. Sebastiaõ a jornada de Africa o dissuadio com fortes instancias para a naõ executar, como prevendo o tragico fim que fatalmente o esperava. Recebendo a noticia infausta da batalha de Alcacer pelo Cardeal D. Henrique lhe ordenou que partindo do Convento de Ceuta onde assistia fosse a Marrocos resgatar o Duque de Bragança, e outros Fidalgos, cuja incumbencia desempenhou com grande credito da sua prudencia. Regeitou heroicamente as Mitras de Goa, Lamego, e Viseu, sendo o seu mayor empenho obedecer, do que mandar. Chegada a hora de passar para a eternidade, exhortou os circunstantes que observassem exactamente o seu instituto, e pedindolhes, que cantassem o Credo, naquellas palavras Carnis resurrectionem, & vitam aeternam, voou o seu espirito ao Impirio a 11 de Mayo de 1590. Foy sepultado no pavimento da Capella mór, com grande concurso de pessoas de ambas as Jerarchias fazendolhe o officio da sepultura o Bispo de Targa Deaõ da Capella Real Sobre a sepultura se lhe gravou este epitafio

Qui jacet hic clarus captivorum juste Redemptor

Extitit, ac hujus Religionis amor.

Ille reformato primus fuit ordine Praesul

Et morum pretio nomen in astra tulit.

Terrestres liquit tractus, renuitque Tyaras

Evolat ad superas vita soluta plagas.

Passados 27 annos, que estava sepultado o seu cadaver na Capella mór foy transferido por deligencia do P. Fr. Rafael Dias Castelhano de naçaõ, Visitador da Provincia, que depois foy Bispo de Mondonhedo a hum nicho aberto na parede do Claustro, junto da porta do Refeitorio, e a 7 de Junho de 1617 se lhe gravou a seguinte inscripçaõ ainda que errada no mez da sua morte.

Venerabilis Pater Fr. Rochus à Spiritu Sancto, Religionis splendor, virtutum exemplar, Captivorum solatium, sapientia clarus. Post multos exantlatos labores pro ipsis quorum plusquam tria millia redemit, Regni Tyaris contemptis ,magna captivorum, &Religionis jactura, maximo omnium desiderio feliciter obiit v. Idus Octobris anno 1590 & hic tumulatus jacet.

A.G. P.

Fazem delle honorifica memoria o Licenciado Jorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 3. p. 163. e no Coment. de 11 de Mayo letr. C. Fr. Anton. Correa Vid. do Ven. Fr. Anton. da Conc. liv. 2. cap. 6. o Reverendo P. Joaõ Col. Cathal. dos Bisp. de Viseu. Fr. Pedro Lopes Chron. Ger. de la Ord. liv. 2. cap. 9. e liv. 3. cap. 1. Fr. Bernard. á D. Anton. Epit. Redempt. lib. 2. Osorio Pancarpia. fol. 160. Fr. Joan. Felix Isagoge ad Laud. Princip. fol. 170. n. 30. Franc. de S. Maria Diar. Portug. Tom. 2. p. 65. Bavia Hist. Pontif. Part. 3. que com erro palmar o faz Religioso Mercenario, cujo engano seguiraõ os Chronistas desta Ordem como saõ Fr. Alonso Ramon Vid. del Caval. de la Graç. cap. 4. Fr. Bernard. Varg. Chron. Part. 2. cap. 4. §. 7. e Fr. Marcos Salmeron Recuerd. Hist. Siglo 4. Recurd. 42. §. 1. Em mayor absurdo cahio Jacobo Thuano. Hist. sui temp. Part. 3. lib. 35 fazendo-o da Ordem militar de Santo Espirito equivocado com o apelido do Espirito Santo, que teve Fr. Roque.

Compoz

Doutrina Christã para aquelles, que estaõ em poder dos infieis. Desta obra mandou imprimir innumeraveis exemplares, que repartia com todos os Cativos.

Papel acerca da Reforma que ElRey D. Joaõ III. intentava fazer na sua Religiaõ Trinitaria, o qual affirma Jorge Cardoso assima allegado, que era doutissimo.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]