D. RODRIGO PINHEIRO, natural da Villa de Barcellos em a Provincia de Entre Douro, e Minho, filho de D. Diogo Pinheiro D. Prior da Collegiada de Guimaraens, Comendatario de S. Simaõ da Junqueira, Desembargador do Paço, e primeiro Bispo do Funchal Capital da Ilha da Madeira. Foy ornado de grande talento, e sublime comprehensaõ assim para as letras humanas, e divinas em que fez admiraveis progressos recebendo a borla Doutoral em ambos os Direitos, como para a administraçaõ dos mayores lugares em que descubrio a madureza unida com a innocencia de costumes. Ordenado de Presbytero possuio a Abbadia de Santa Marinha de Ferreiro, em que foy provido no anno de 1528, da qual passou para a Igreja de Tougodinho pela renuncia que nelle fez á instancia de D. Joaõ III., D. Miguel da Sylva eleito Bispo de Viseu, que depois foy Cardeal. Obtendo a Abbadia de S. Martinho de Soago, que he do Padroado Real foy eleito Deputado do Conselho geral do Santo Officio, de que tomou posse a 16 de Junho de 1539. Certificado ElRey D. Joaõ III. da sua grande capacidade o nomeou seu Desembargador, e depois Bispo de Angra Capital da Ilha Terceira, em cuja dignidade foy confirmado por Paulo III. em o 1 de Outubro de 1548. Naõ partio para o Bispado por julgar ElRey ser-lhe muito conveniente ao seu serviço a assistencia de taõ grande vassallo nomeando-o Governador da Casa do Civel de Lisboa, de cujo lugar se fazia merecedor pela sua profunda sciencia, e admiravel expediçaõ em todo o genero de negocios. Foy taõ aplaudida esta eleiçaõ que da India a gratificou a ElRey o insigne Governador della D. Joaõ de Castro, por estas palavras. Das Cartas do Bispo de Angra, e assim de outras pessoas soube que V. A. lhe fizera merce de Governador de Lisboa, parece que esta eleiçaõ foy inspirada por Deos em V. A. pelas grandes virtudes, boas letras que no dito Bispo ha, eu recebi nisso toda a merce pela grande amizade que com elle tenho. Transferido D. Fr. Balthezar Limpo da Cadeira Episcopal do Porto para a Primacial de Braga em o anno de 1552 lhe sucedeo D. Rodrigo, quando contava 70 annos de idade, porem a tenacidade da memoria, a gentileza do semblante, e o vigor do espirito desmentiaõ os effeitos da Velhice. A primeira obra que emprendeo meditada na magnificencia do seu animo, foy a fabrica da Quinta de Santa Cruz distante legoa, e meya da Cidade do Porto, para deliciosa habitaçaõ de seus sucessores, onde se admiraõ sumptuosas casas, devotas Capellas, frondosas arvores, e copiosas fontes. Todo este sitio se fertiliza com o rio Lessa, que caminhando pelos Valles de Refoyos, Agrella, Alfena, e Agoas-Santas o atravessa com vagarosa corrente, até que no mar se sepulta. Desta sumptuosa casa de Campo, compoz huma elegante descripçaõ em versos heroicos latinos Alvaro de Cadabal Valadares de Sotto-Mayor conhecido pelo nome de Cadabal Gravio que intitulou Pythiografia alludindo á fabulosa Metamorphase de Atys em Pinheiro apellido do Bispo D. Rodrigo, a qual sahio impressa em Lisboa no anno de 1568, que era o decimo sexto do seu governo no Bispado do Porto elogiando com estas expressoens no fim da obra ao Author de taõ magnifico edificio. Est grave judicium, rerum prudentia maior

Est mens, est ratio linguae facundia solers,

Consilium velox, & pastoralibus actis:

Utile praeterea praestantis gloria formae

Nam veteres proavos, atavosque modestia vultus

Cum probitate refert,celebrataque facta tuorum.

A esta Quinta de Santa Cruz descreveo em sestilhas heroicas em Castelhano Manoel de Faria e Sousa, e sahiraõ impressas na Fuente de Aganip. Part. 2. Poem. 8. onde nas Advertencias no fim deste Poema intitula ao Bispo D. Rodrigo gran Prelado, Heroe famoso. Foy o principal instrumento de que no Porto se fundasse o Collegio dos Padres Jesuitas em que se lançou a primeira pedra a 10 de Agosto de 1560 estando prezente S. Francisco de Borja concorrendo para este edificio com largas esmolas, e triunfando com a efficacia das suas palavras de todos os obstaculos que contra a sua ereçaõ allegavaõ os moradores da Cidade. Entre os Bispos que foraõ convocados no anno de 1566 ao Synodo Provincial de Braga por seu Prelado o V. D. Fr. Bartholameu dos Martyres se distinguio nos votos derigidos para a reforma dos custumes, e administraçaõ dos Sacramentos. Restituido ao seu Bispado sempre observou a obrigaçaõ do seu officio dispendendo profusamente com os pobres aos quaes a condiçaõ do estado lhe impedia pedir publicamente remedio á sua necessidade. Como era muito douto se deleitava com a conversaçaõ das pessoas mais eruditas, e as que estavaõ auzentes comunicava por cartas em que testemunhava o seu genio sempre favoravel para as letras. Cheyo de merecimentos que excediaõ aos annos contando mais de 90 passou de mortal a eterno em o mez de Agosto de 1572. Do seu Nome fazem honorifica memoria Fr. Luiz de Sousa Vid. de D. Fr. Bartholameo dos Martyr. liv. 4. cap. 19. Ribad. Vid. de S. Franc. de Borja liv. 4. cap. 22. Sampayo Nobil. Portug. cap. 9. Poyares Paneg. da Villa de Barcel. cap. 16. Illustrissimo Cunha Cathal. dos Bisp. do Porto. Part. 2. cap. 36. Sousa Cathal. dos Bispos de Angra. §. 2. Monteiro Cathal. Dos Deput. do Cons. Geral. n. 6. Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Liter. lit. P. n. 14. Telles Chron. da Comp. de Jes. da Prov. de Port. Part. 2. liv. 4. cap. 19. n. 2. e 6. O divino Camoens lhe dedicou o seguinte Soneto que he o 90 da Cent. 2. Depois que vio Cybele o corpo humano

Do fermoso Atys seu verde pinheiro

Em piedade o vaõ furor primeiro

Convertido chorava o grave dano.

E á sua dor fazendo illustre engano

A Jupiter pedio, que o verdadeiro

Preço da nobre palma, e do loureiro

Ao seu pinheiro desse soberano.

Mais lhe concede o filho poderoso

Que crecendo ás estrellas chegar possa

Vendo os segredos lá do Ceo superno.

Ó ditoso Pinheiro, ó mais ditoso

Quem se vir coroar de rama vossa

Cantando á vossa sombra verso eterno.

Joaõ Rodrigues de Sá e Menezes Alcayde mór do Porto, o celebra com os seguintes versos.

Gaude magne Pater Vatum spes certa tuorum

Praesidium miseris quae dare saepe soles.

Tu decoras urbem Gallorum, &maenia, nec non

Lusitanorum gloria summa venis.

Das muitas Cartas latinas que elegantemente escreveo o Bispo D. Rodrigo Pinheiro he celebre a seguinte.

Epistola ad Cadabalem Gravium Calydonium. Sahio no principio das obras deste Author Part. 1. cap. 1. á qual lhe respondeo com estas expressoens. Quod ad m e scripseris, meque dignum tuis jucundissimis litteris quarum admirabilis stylus, doctus, gravis, compositus, amabilis, excussus emunctus, & ingeniosus in quo nil inconcisum, nihil denique humile videbatur, dignum existimaveris &c.

Carta escrita do Porto a 13 de Janeiro de 1561 á Rainha D. Catherina em reposta de huma que recebera desta Princeza, onde naõ aprova que deixe a regencia da Monarchia. Sahio impressa nas minhas Mem. para a Hist. delRey D. Sebast. liv. 2. cap. 3. desde pag. 339 até 353. He larga, e judiciosa.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]