D. RODRIGO DE MENEZES, natural de Lisboa, e filho de D. Henrique de Menezes Governador da Casa do Civel, Comendador da Azinhaga, e Idanha Velha, e Capitaõ de Tangere, e de sua mulher D. Brites de Vilhena, filha de Ruy Barreto Alcaide mór de Faro. Ao tempo que frequentava a Universidade de Coimbra com as bem fundadas esperanças no seu illustre nacimento, e sublime comprehensaõ de chegar aos mayores lugares preferio com heroico desengano a pobreza evangelica a toda a pompa mundana vestindo a roupeta de Jesuita no Collegio de Coimbra a 14 de Junho de 1543. Com tal excesso estranhou esta resoluçaõ seu Pay que sem demora ordenou a seu filho D. Joaõ Tello que depois foy Embaixador a Castella, Presidente do Paço, Senhor de Aveiras, e Governador do Reino, partisse a Coimbra para obrigar a seu irmaõ a que dexasse a vida religiosa, como impropria do seu nacimento. Acompanhado D. Joaõ Tello de gente armada chegou ao Collegio de Coimbra, e depois de estranhar ao Superior de ter admitido á Companhia seu irmaõ sem o participar primeiramente a seu Pay, se valeo de todas as razoens que lhe dictava humas vezes o rigor, outras a benevolencia para atrahir a D. Rodrigo ao seu intento, qual era de voltar para Casa de seu Pay, porém como experimentasse frustrada toda a deligencia se restituhio á Corte, onde segurou a seu Pay, que foraõ taõ efficazes as palavras com que D. Rodrigo defendia a sua eleiçaõ, que quasi estivera rendido a ser seu companheiro. Triunfante destas, e outras maquinas armadas para deixar a Religiaõ continuou em ser exemplar de todas as virtudes, principalmente na obediencia, e mortificaçaõ. Foy dotado de engenho agudo, e de memoria taõ feliz, que repetio por ordem do Padre Simaõ Rodrigues hum Sermaõ que ouvira prégar ao Mestre Fr. Joaõ Soares Erimita de Santo Agostinho, que depois foy Bispo de Coimbra. Naõ permittio Deos que lograsse muitos annos de vida por ter tantos merecimentos para gozar da gloria. Passando a Lisboa para receber Ordens Sacras adoeceo mortalmente, e recebidos os Sacramentos com grande piedade falleceo a 9 de Agosto de 1548. Delle fazem honorifica memoria Nieremberg. Hist. de los Var. illustr. de la Comp. Nadasi Annus dier. mem. S. J. Part. 1. pag. 83. e Franco Imag. da Virt. do Nov. de Coimb. Tom. 1. liv. 3. cap. 65. Escreveo

Carta a sua Mãy D. Brites de Vilhena, em que lhe relata a causa do seu desengano, abraçando o estado Religioso. Começa A graça, e consolaçaõ do Espirito Santo visite, e more sempre na alma de V. S. &c. Sahio impressa na Imag. da Virt. assima allegada. cap. 66.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]