LOPO VAZ DE SAMPAYO nono Governador do Estado da India teve por progenitores a Diogo de Sampayo Senhor de Anciaens, Villarinhos, Castanheira, e Linhares, e a Dona Briolanja de Mello filha de Joaõ de Mello de Serpa, e Dona Beatriz da Sylveira filha de Fernaõ da Sylveira Regedor, e Coudel mòr. A palestra onde começou em idade florente a exercitar o seu belicoso espirito foy a regiaõ de Africa, sendo Alcacer Quibir, Alcacer seguer, e a Praça de Tangere cercada por ElRey de Fez os theatros onde como soldado, e Capitaõ deu patentes testemunhos do seu intrepido valor. Passando ao Oriente acompanhou na empreza de Benastarim, e de Adem ao famoso Afonso de Albuquerque de cuja disciplina militar passou de discipulo a ser emulo devendolhe a obrigaçaõ de sacrificar a propria vida para que a naõ perdesse taõ celebre Heroe. Pela morte de D. Henrique de Menezes que em poucos annos de idade tinha numerado seculos de gloria tomou em o anno de 1526. o gouerno do Imperio Asiatico que pertencia a Pedro Mascarenhas manchando com esta violenta acçaõ a authoridade da sua pessoa, posto que sustentou o credito das nossas armas com gloriosas vitorias alcançadas do Samorim, dos Reys de Cambaya, e Calecut, e do Arel de Porcà, reformando, e bastecendo todas as Fortalezas do Estado, e expedindo a mayor Armada que vio o Oriente a qual constava de cento e quarenta navios guarnecidos de todo o genero de muniçoens. Sucedendo no governo do Estado o grande Nuno da Cunha, e informado da injusta violencia com que Lopo Vaz de Sampayo privara delle a Pedro Mascarenhas chegando a tal excesso a sua ambiçaõ, que alem de lhe negar a obediencia o mandou prender em Cananor por Antonio da Sylveira, ordenou Nuno da Cunha que em castigo de acçaõ taõ enorme fosse prezo e remetido a Lisboa. Tanto que chegou foy recluso no Castello com prohibiçaõ de que nem sua mulher lhe fallasse. Toleradas com heroica constancia pelo espaço de tres annos as molestias de prizaõ taõ rigorosa alcançou faculdade por intervençaõ do Duque de Bragança D. Jayme seu parente, de ter audiencia delRey D. Joaõ o III. em cuja prezença apareceo estando este Principe na Relaçaõ acompanhado de todos os Dezembargadores, e posto em pé como Reo com o rosto macilento povoado de veneraveis cañs, conservando o animo sempre imperturbavel recitou hum discurso em que com elegantes expressoens naõ somente relatava as gloriosas façanhas que obrara no Oriente em serviço da Patria, mas satisfazia os cargos com que era acuzada a sua Pessoa. Toda esta eloquencia animada da penetrante dor que lhe ofendia o credito naõ foy bastante para modificar a severidade dos Juizes condenando-o à satisfaçaõ dos ordenados, que injustamente percebera no seu intruzo governo, e dez mil cruzados para Pedro Mascarenhas, e desterro para Africa. Consternado com o rigor desta Sentença se auzentou do Reyno, escrevendo de Badajos huma carta a ElRey na qual com palavras sentidas e reverentes mostrava o rigoroso excesso com que fora castigado esperando que com a mudança da terra mudaria de fortuna. Compadecido ElRey D. Ioaõ o III. das lastimozas queixas de hum Vasalo taõ distinto lhe perdoou por hum Alvara toda a pena fulminada na sentença, e voltando daquelle involuntario exterminio para a Patria retirado ás terras de que era Senhor faleceo a 18. de Abril de 1538.

Fazem delle mençaõ Couto Decad. 4. da India liv. 2. cap. 6. 7. 9. 10. e 11. liv. 3. cap. 8. 9. liv. 4. cap. 1. liv. 5. cap. 3. 4. 5. 6. Barros Decad. 4. da Ind. liv. 2. Andrade Chron. de D. Joaõ o III. Part. 2. cap. 1. 2. 3. 9. 10. 14. 15. 52. 54. Maris Dial. de Var. Hist. Dial. 5. cap. 1. Franc. de S. Mar. Diar. Portug. pag. 487. Faria Azia Portug. Tom. 1. Part. 4. cap. 1. 2. e 4. Compoz.

Discurso recitado na prezença delRey em que relata os Ascendentes de que procedia, como os serviços militares que obrara em obsequio da Coroa Portugueza. Sahio impresso na Decad. 4. da India de Diogo de Couto liv. 6. cap. 7. Vertido em Castelhano, e reduzido a mais breves periodos o publicou Manoel de Faria e Souza Asia Portug. Tom. 1. Part. 4. cap 4.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]