LOPO DE SOUZA COUTINHO, nasceo em a notavel Villa de Santarem, sendo filho segundo de Fernaõ Coutinho, e de D. Joanna de Brito, filha de Joaõ da Cunha Contador mor da Excellente Senhora, e neto de D. Gonçalo Coutinho segundo Conde de Marialva. Ainda naõ excedia a florente idade de 18. annos, quando estimulado dos marciaes espiritos que lhe animavaõ o peito, buscou para dilatada esfera o bellico theatro do Oriente, partindo de Lisboa em o anno de 1528. com o Capitaõ mor Pedro de Castello Branco, acompanhado de dez naos guarnecidas de valerosa Soldadesca. Emulo do valor intrepido, e prudente direcçaõ do grande Nuno da Cunha com que felizmente moderava as redeas do Imperio Asiatico, assistio como Soldado, e Capitaõ nas mayores emprezas militares assim maritimas, como terrestres, onde com o proprio sangue deixou immortal na posteridade o seu nome, distinguindo-se no cerco da celebre Praça de Dio defendida pelo claro Heroe D. Antonio da Silveira em o anno de 1538. devendo-lhe este glorioso theatro de façanhas Portuguezas, que semelhante ao primeiro Cezar o illustrasse com a espada, e com a penna escrevendo individualmente toda as acçoens obradas para gloria dos sitiados, e confuzaõ dos expugnadores. Cumulado de triumfos voltou para a patria no anno de 1535. e como achasse morto seu irmão mais velho Ruy Lopes Coutinho, entrou na herança de seus Mayores. Foy recebido com benevolas expressoens por ElRey D. Joaõ o III. que atendendo aos seus merecimentos o nomeou Governador do Castello da Mina, onde mostrou o seu zelo, e desinteresse, antepondo a ambiçaõ da honra á do ouro que a tantos injuriosamente arrastra. Acabando este governo, voltou para Portugal, casando com Dona Maria de Noronha Dama da Rainha Dona Catherina filha de D. Fernando, Capitaõ de Azamór, Commendador de S. Salvador de Villacova, e de sua mulher D. Anna da Costa filha de D. Alvaro da Costa Camareiro, e Armeiro mor delRey D. Manoel de quem teve Ruy Lopes Coutinho de Souza, que se achou na batalha de Alcacer, e cazou com Dona Maria de Ocem da qual naõ teve successaõ: Diogo de Souza Coutinho: Fr. Jorge de Jesus Erimita de Santo Agostinho: Ioaõ Rodrigues Coutinho Governador da Mina, e Angola que morreo no descubrimento das Ilhas de Cambebe pelo qual lhe estava prometido o titulo de Marquez: Gonçalo Vaz Coutinho de quem em seu lugar se fez larga memoria: Manoel de Souza Coutinho, que deixando a Ordem militar de Malta, abraçou a da dos Pregadores com o nome de Fr. Luiz de Souza, para eterno brazaõ desta esclarecida Familia: André de Souza Coutinho Cavalleiro da Ordem de Malta: Fr. Lopo de Souza Coutinho religioso Erimita Augustiniano onde foy Provincial: e D. Anna de Noronha religiosa Dominica no Convento das Donas de Santarem. Foy profundamente versado na lingua Latina, letras humanas, e antiguidades historicas. Da Poesia soube os preceitos, da Mathematica as demonstraçoens, da Filosofia as experiencias. Com a gravidade do aspecto conciliava universal respeito, e até ElRey no semblante, e nas palavras quando lhe fallava, dava manifestos indicios da distinçaõ com que devia ser tratado taõ grande vassalo. Todos estes dotes se illustravaõ com innocentes custumes, e virtudes heroicas de que deu claros argumentos na educaçaõ de seus filhos destinando-lhe horas para o exercicio das devoçoens, e dos estudos. Naõ lhe merecia mayor amor hum do que outro punindo, aos culpados, e premiando aos benemeritos, donde conseguio naõ haver Pay mais amado, nem mais obedecido. A todos mandou frequentar a Universidade de Coimbra e estranhando-lhe seus parentes, que entre elles fosse o herdeiro da casa, lhes respondeu que mal lhe tinha feito aquelle filho para o deixar ignorante, increpando com esta judiciosa resoluçaõ o abuzo observado nas Casas grandes de permitirem, que os seus herdeiros naõ cultivem as letras. Persuadindo-lhe que passasse a segundas vodas o naõ executou dizendo que naõ queria dar Madrasta a tantos filhos com que estava cazado, e muito menos fazer esta injuria a sua Mãy com a qual vivera em summa paz. Quem devia tantas obrigaçoens á natureza naõ podia esperar remuneraçocens da fortuna. Sendo acredor dos mayores premios nunca os solicitou satisfeito de que em beneficio da Patria posto de Capitaõ mor da Armada da  Corte. Morreo infelizmente na Villa de Povos pois hindo a apear-se de hum cavallo se lhe dezembainhou a espada, e  o movimento que fez o corpo o penetrou de tal sorte que logo falleceo a 28. de Janeiro de 1577. Jaz enterrado na Capella mor da Parochia do Salvador da Villa de Santarem da qual era Padroeiro onde juntamente com sua mulher D. Maria de Noronha instituhio a 15. de Mayo de 1557. Missa quotidiana para suas almas. Fazem da sua pessoa honorifica mençaõ Andrade Chron. delRey D. Ioaõ o III. Part. 3. cap. 52. e 53. Barros Decad. da Ind. 5. liv. 6. cap. 16. e liv. 8. cap. 5. e 16. e liv. 10. cap. 5. 6. 8. e 13. Maf. Hist. Indic. lib. 11. Ioan. Soar. de Brit. Theatr. Lusit. Lit. Lit. L. n. 51. Nicol. Ant. Bib. Hisp. tom. 2. p. 65. col. 2. Franco Bib. Portug. M. S. e D. Antonio Caetano de Souza Hist. Gen. da Cas. Real Tom. 12. p. 359. Compoz

Livro primeiro do Cerco de Diu que os Turcos pozeraõ à Fortaleza de Diu. Coimbra per Joam Alverez ymprimidor da Universidade aos XV. dias do mez de Setembro M.D.LVI. fol.

Consta de 15. Capitulos o primeiro livro e o segundo de 21.

Livro da perdiçaõ de Manoel de Sousa de Sepulveda sua mulher, e filhos. 4.  He composto em verso solto com alguns tercetos e outavas diferente daquelle que compoz neste assumpto Jeronimo Corte Real Lisboa por Simaõ Lopes 1594. 4.

Tradusio em o idioma materno em verso solto.

Comedias de Pindaro.

Tragedias de Seneca.

Poema de Lucano.

Empresas de Varoens illustres da India.

No Cancioneiro Geral impresso Anveres 1570. estaõ a pag. 177. 179. e 192. varias Obras Poeticas de Lopo de Sousa sem o apellido de Coutinho.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]