D. LOURENÇO octogessimo sexto Arcebispo da Igreja Primacial de Braga naceo em a Villa da Lourinhãa do Patriarchado de Lisboa, sendo taõ ignorado o seu apellido, como os nomes de seus Pays que se illustravaõ com os timbres de antigua ascendencia. Desde a primeira idade foy taõ inclinado á cultura das letras, que para nellas profundamente se instruir deixou a patria buscando por escolas as Universidades de Mompilher, Toloza, e Pariz onde deu patentes argumentos do seu perspicaz talento, e como ainda com a doutrina de taõ celebres Mestres, que ouvira se naõ saciasse o apetite de adquirir novos thezouros de sabedoria passou a Bolonha a ser discipulo do famoso Jurisconsulto Baldo de cujo magisterio sahio egregiamente versado nas mayores dificuldades do Direito Cesario. Voltando para o Reyno com a fama merecida á sua grande litteratura obteve hum Canonicato na Cathedral de Lisboa, e conhecendo ElRey D. Fernando a sua capacidade o nomeou Desembargador, e Vedor da sua Fazenda, Bispo do Porto, e Arcebispo da Primacial de Braga em o anno de 1374. onde exercitando as obrigaçoens de vigilante Pastor concitou contra o seu procedimento a indignaçaõ de ElRey, e do Pontifice Gregorio XI. que mandando sindicar da sua Pessoa, foy sentenciado por indigno da Dignidade, que ocupava com confiscaçaõ dos seus bens. Para evitar mayores violencias, e justificar a sua innocencia passou a Roma quando estava sentado no solio do Vaticano Urbano VI. e sendo atentamente examinada a sentença pelo Cardial de Santa Sabina com outros Adjuntos foy annullada como injusta, e declarado em 14. de Fevereiro de 1378. innocente o Arcebispo, e como tal benemerito da Mitra que governava. Restituido a Portuga1 triumfante das falsas calumnias com que a emulaçaõ pertendeo manchar o seu caracter, foy recebido com aplauzo de toda a Corte. Na fatal tempestade do scisma em que se via soçobrada a Nao de S. Pedro persuadio eficasmente a ElRey D. Ioaõ o I. que obedecesse a Urbano VI. Canonicamente eleito, e naõ a Clemente VII. Saõ mais para admiradas que referidas as acçoens politicas e militares, que obrou este insigne Varaõ em obsequio delRey D. Ioaõ o I. sendo a mais memoravel quando vestindo sobre o roquete a Cota de armas, deposto o bago, e empunhada a espada foy hum dos gloriosos instrumentos de abater a soberba Castelhana na celebre batalha de Aljubarrota onde hum soldado com sacrilego atrevimento ferindo-o na face direita, lhe respondeo ao mesmo tempo com golpe taõ penetrante que o privou da vida. Depois de ter estabelecido com o braço a Coroa vacillante sobre a cabeça do seu Principe, partio para Braga onde igualmente religioso para com Deos, e benefico para com os pobres reedificou muitos edificios Sagrados, e dispendeu copiosas esmolas. Seis annos antes da sua morte fez testamento a 8. de Agosto de 1391, e nelle instituiu huma Capella situada no Claustro da Cathedral dedicada aos Mysterios da Espectaçaõ, e Assumpçaõ da Mãy de Deos, e aos invictos Martyres S. Lourenço e S. Vicente seus insignes Protectores a qual ornou com preciosos paramentos, e certo numero de Capellaens destinados para o Coro, e Altar. No meyo desta Capella mandou levantar hum tumulo de pedra, e na parte superior a sua figura de vulto vestida de Pontifical, e ainda que estava fabricada primorosamente, reparando, que lhe faltava no rosto o sinal da ferida, que recebera na batalha de Aljubarrota armando a maõ direita de huma espada fez com ella na face da estatua hum profundo golpe dizendo. Agora sim que está ao natural. Tendo governado o Arcebispado pelo espaço de 24. Annos deixou a vida caduca para possuir a eterna a 28. de Abril de 1397. segurando a gloria que logra o seu espirito a incorrupçaõ do seu cadaver que sendo visto a 4. de Junho de 1663. duzentos e sessenta seis annos depois do seu transito, foy achado incorrupto, flexivel, e palpavel com todas as vestes pontificaes inteiras, e sem diminuiçaõ nas cores. O Illustrissimo Cabbido de Braga para eterna memoria deste seu insigne Prelado lhe mandou edificar novo Mausoleo, e sobre elle se lhe gravou o seguinte epitafio.

D. O. M.

D. Lanrentius Archiepiscopus

Brach. Hispaniar. Primas LXXXVI.

Sepultus anno Domini. M.CCC. LXXXXVII.

Translatus á medio Sacelli integer, & incorruptus Die 4. Junii. 1663.

Fazem larga memoria deste Prelado o Illustrissimo Cunha Hist. Eccles. de Brag. Part. 2. cap. 47. 48. 49. 50. Soar. da Sylv. Mem. Hist. delRey D. Joaõ o I. Part. 2. I. liv. 3. pag. 243. Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litt. Lit. L. n. I.  Franc. de S. Maria Diar. Portug. Tom. I. pag. 526. Compoz.

Carta escrita a XXVI. de Agosto de M.CCCC.XXIV. a D. Fr. Joaõ de Ornelas D. Abbade de Alcobaça em que relata o sucesso da Batalha da Aljubarrota. Sahio impressa no estilo com que foy escrita na Hist. Eccles. de Brag. de D. Rodrigo da Cunha Part. 2. cap. 45. §. 9. e no fim da 2. Part. da Chron. delRey D. Joaõ o I. escrita por Fernaõ Lopes. Lisboa por Antonio Alvares 1644. fol. e tambem nas Mem. delRey D. Ioaõ o I. escritas por Jozeph Soar. da Sylva Tom. 3. p. 576. e na Europ. Portug. de Manoel de Faria, e Sousa Tom. 2. Part . 3 . c. I .§. 137.

Apologia que apresentou ao Summo Pontifice ácerca das culpas que falsamente lhe imputaraõ. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]