D. THEODOSIO, Principe de Portugal, naceo em Villa-Viçosa, Corte dos Serenissimos Duques de Bragança a 8 de Fevereiro de 1634. Foraõ seus augustos progenitores D. Joaõ VIII. Duque de Bragança, que depois subio ao Trono de Portugal, e a Senhora D. Luiza Francisca de Gusmaõ, feliz produçaõ do thalamo dos Excellentissimos Duques de Medina e Sydonia. Empenhou-se a graça emula do disvelo, com que a natureza o formara, a copiar no seu espirito o mais perfeito modelo de Principes ornandoo de dotes singulares, que logo começaraõ a brilhar no Oriente da sua idade, pois naõ contando cinco annos já repetia sem a menor interrupçaõ o Cathecismo em que se comprehendem os principaes Mysterios da nossa Religiaõ, como tambem o Symbolo dos Apostolos, e as Ladainhas da Senhora, e dos Santos. Competia com a memoria o juizo aprendendo a ler, e escrever por hum Alfabeto formado pela sua Aya. Teve por Mestre da lingoa Latina a Pedro Pueros Fidalgo Irlandez, a qual no breve espaço de dous annos escrevia, e fallava pura, e correntemente como a materna, naõ sendo menos instruido na Grega, e Hebraica com as quaes marginava os livros de que usava. Nas artes de mandar os cavallos, e jogar as armas foy dextro, forte, e airoso gloriando-se os mais insignes professores dellas Manoel Galvaõ, e Diogo Gomes de Figueiredo que foraõ seus Mestres de serem excedidos por hum tal discipulo. Recebeo a instruçaõ das Disciplinas Mathematicas do P. Joaõ Paschasio Ciermans da Companhia de Jesus, e nellas fez taes progressos a sua grande comprehensaõ, que passando de discipulo a Mestre explicou parte dos seis livros de Euclides conforme a exposiçaõ de Clavio a Joaõ Rodrigues de Sá, e Joaõ Nunes da Cunha, que com elle frequentaraõ o mesmo estudo. Das difficuldades da Filosofia, e Theologia tinha tal conhecimento que concorrendo diversos Doutores das Universidades de Coimbra, e Evora a provar a sua sciencia se retiraraõ confusos, e admirados da sua profunda especulaçaõ. Do Direito Pontificio, e Cesareo teve aquella instruçaõ, que era bastante para o governo da Monarchia sendo mayor a da Historia, donde extrahia os mais prudentes documentos. Nas Artes da Fortificaçaõ, e Pintura, como na fabrica dos Relogios era perfeitamente exercitado. Entre estes pacificos estudos naõ deixava de cultivar a Arte Militar para a qual naturalmente propendia, de tal modo, que sendo muito obediente a ElRey seu Pay, sem faculdade delle passou a Elvas para se expor aos mayores perigos, donde sendo chamado por ElRey querendo lisongearlhe o genio o nomeou quando contava quinze annos Governador, e Capitaõ General das Armas de todo o Reino a 25 de Janeiro de 1652. Ornado seu grande talento com tantos dotes scientificos ainda eraõ mayores os que illustravaõ o seu espirito praticando cõ tal exaçaõ as virtudes moraes, e Catholicas que sem converter o Palacio em Convento parecia ser mais religioso austero, que Principe soberano. Basta para eterno monumento da sua inculpavel vida affirmar o seu Confessor que até a morte conservara illeza a virtude da continencia. Os obsequios quotidianos que dedicava a MARIA Santissima, e a diversos Santos seus Tutelares eraõ evidentes indicios do cordial affecto em que se abrazava seu pio coraçaõ. Para que nunca tivesse manchada a conciencia com a mais leve culpa, frequentava continuamente o Sacramento da Penitencia fazendo nos tres ultimos annos da sua vida treze confissoens geraes, sendo a ultima no principio da enfermidade, que intempestivamente o arrebatou para o Impirio com eterna saudade dos Portuguezes a 15 de Mayo de 1653, quando contava a florente idade de 19 annos, 3 mezes, e 7 dias. Foy jurado sucessor da Monarchia nas Cortes celebradas em Lisboa a 28 de Janeiro de 1641, porém por disposiçaõ de mais alta Providencia naõ chegou a cingir a Coroa, de cujo governo se auguravaõ as mayores

felicidades. Do lugar de Alcantara suburbio de Lisboa, onde falleceo foy transferido com magnifica comitiva para o Real Mosteiro de Belem. Teve estatura proporcionada, galharda presença, rosto grave, branco, e corado, cabellos negros, e corpo robusto. As açoens da sua vida escreveo diffusamente na lingoa Latina o P. Manoel Luiz da Companhia de Jesus, com o titulo Theodosius Lusitanus, sive Principis perfecti imago. No mesmo idioma lhe levantou á sua saudosa memoria Luiz de Sousa assistente entaõ em Roma, que depois foy Capellaõ mór, Arcebispo de Lisboa, e Cardeal da Igreja Romana hum Tumulo ornado das quatro partes do mundo que com enternecidas elegias lamentavaõ a morte de taõ illustre Principe. Na lingoa Portugueza escreveraõ as suas acçoens o Licenciado Jorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 3. p. 266. e no Coment. de 15 de Mayo letr. L 33. Luiz de Menezes Conde da Ericeira Portug. Rest. Tom. 1. liv. 12. p. 799. D. Ant. Caet. de Sousa Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 7. pag. 263. Francisco de S. Maria Diar. Portug. Tom. 2. pag. 81. e o Doutor Joaõ Bautista Domingues na Vida impressa no anno de 1747. Ao seu Soberano Nome dedicaraõ, D. Fernando de Menezes Conde da Ericeira a Vida delRey D. Joaõ I. Duarte Madeira Arraes Nova Filosophia, & Medicina, e Francisco de Brito Freire Nova Lusitania. Compoz

Regia Occupatio. Consta de huma instruçaõ politica para os Reys mostrando-lhe com sentenças da sagrada Escritura, e de Authores gravissimos como se haõ de haver para com Deos, para com suas pessoas, e para com seus Vassallos.

O Prologo desta obra imprimio o P. Manoel Luiz na vida Latina que escreveo deste Principe lib. 1. cap. 20. §. 241.

Dosithei Macariopolis, id est Theodosii Civitas beata. Em lugar da Dedicatoria tem estas palavras. Nulli dedicaris libelle, singularitatem non patitur, qui communia agit. O Prologo desta obra o transcreveo o Padre Manoel Luiz na

obra assima allegada lib. 1. cap. 20. n. 243. A esta obra ajuntou seu Author outra intitulada Dosithei aureum Saeculum.Nelle explicava mais claramente o que tinha ideado na Macariopolis, que constava da forma, como se havia instituir ir huma Republica semelhante á idéa de Xenofonte. Remeteo o Principe esta obra á Rainha de Suecia Christina Alexandra pelo seu Residente em Lisboa Joaõ Federico Frissendorf com huma carta escrita a 8 de Fevereiro de 1651, a qual como era dotada de juizo agudo a estimou tanto que a mandou guardar no seu Gabinete, onde tinha os livros mais selectos. Huma copia assim da Macariopolis, como do aureum Saeculum escrita em Caracter taõ perfeito que igualava ao da impressaõ vimos em 8. no thesouro da Serenissima Casa de Bragança, onde se conserva.

Commentaria Sueciae, & Gothicae Historiae. O 1. Capitulo desta obra traz impresso o P. Manoel Luiz na Vid. do seu Author lib. 1. cap. 21. n. 269.

De Emmendatione. O Proemio tem este titulo. Omnibas & singulis totius mundi sapientibus, &c. Impressa no livro assima allegado n. 272.

Cartas Latinas escritas ao seu Confessor D. André Fernandes Bispo do Japaõ. Sahiraõ impressas na Vida do Author escrita pelo P. Manoel Luiz no lib. 1. cap. 12. n. 131. e 134. cap. 19. §. 222. e 223. cap. 28. n. 372. lib. 2. cap. 2. n. 40.

cap. 3. n. 30. cap. 7. n. 77. cap. 8. n. 92.

Duas Cartas Latinas escritas á Rainha de Suecia. A 1. escrita a 27 de Setembro de 1649, e a 2 a 8 de Fevereiro de 1651. Impressas na Vid. escrita pelo P. Manoel Luiz lib. 1. cap. 21. n. 256. e 261.

Tres Cartas a ElRey seu Pay, que traduzidas em Latim as imprimio o P. Manoel Luiz lib. 1. cap. 25. n. 329. e cap. 26. n. 330. e cap. 27. n. 347. e 348. Huma dellas em Portuguez sahio na Vida deste Principe escrita por Joaõ Bautista Domingues p. 149.

Exhortatio ad Serenissimum Portugalliae Regem, ejusque a secretis Consiliariis de non deserendis Principibus Ruperto, & Mauritio pro causa Regis Magnae Britaniae, nec admittendo Parlamentariorum in eos hostili ingressu. Sahio impressa no 4. Tomo das Provas da Hist. Gen. da Cas. Real Portug. escrita pelo P. D. Antonio Caetano de Sousa; e traduzida em Portuguez pelo Conde da Ericeira D. Luiz de Menezes Portug. Rest. Tom. 1. liv. II. p. 717.

Summa Astronomica in duos divisa libros. Primum de Astronomia. Secundus de Astrologia anno aetatis 12 labente 1646. M. S.

Compendio da Grammatica, Rhetorica, Astrologia, e Astronomia para sua instruçaõ, e de seus Condiscipulos. M. S.

Christiana Philosophia. M. S. Nesta obra faz mençaõ de outra intitulada Septica.  Confutaçaõ dos erros dos hereges antigos, e modernos.

Fabulas moralizadas semelhantes ás de Esopo. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]