D. SUEIRO GOMES, filho de illustres Progenitores, quaes eraõ D. Gomes Mendes, e D. Mór Paes. Dezejando illustrar o entendimento com a cultura das sciencias passou a Palencia, e na sua Universidade estudou Jurisprudencia Pontificia, em que sahio egregiamente instruido. Ao tempo que se restituhio a Portugal se achava D. Sancho I. conquistando o Algarve, e querendo mostrar que tinha igual impulso para as armas, como engenho para as letras assistio nesta Conquista em que deu manifestos indicios de intrepido valor. Lembrado do voto que fizera de ser Conego Regrante o cumprio, recebendo o habito no Real Convento de S. Vicente de Fora pelos annos de 1198. Por ser ornado de prudente capacidade o elegeraõ por seu Procurador na Curia Romana as Infantas D. Sancha, D. Tareja, e D. Branca para representar á Santidade de Innocencio III. a violencia com que Affonso II. seu irmaõ lhes queria uzurpar as terras de que seu Pay D. Sancho I. as fizera Senhoras. Logo que chegou a Roma, como nella assistisse o grande S. Domingos immortal gloria da preclarissima Casa dos Gusmaens lhe communicou a sagrada idéa que meditava de fundar a Ordem dos Prégadores, para cujo intento ja tinha juntos alguns companheiros, e lhe rogava quizesse entrar naquelle numero. Promptamente obedeceo D. Sueiro á persuasaõ do Santo Patriarca, o qual conhecendo o heroico espirito que lhe animava o peito o mandou a Hespanha para nella plantar o novo instituto da Ordem dos Prégadores. Corria o anno de 1217, quando entrou em Portugal D. Sueiro, e sendo benevolamente recebido pela Infanta D. Sancha, da qual fora Procurador na Curia lhe doou para solar da nova Ordem a Serra de MonteJunto, donde sahia a semear a palavra divina com tanto fruto dos ouvintes, que parecia se animavaõ as suas vozes com o espirito dos primeiros promulgadores do Evangelho. Divulgada por todo o Reino a fama deste apostolico Varaõ o mandou chamar D. Pedro Soares Bispo de Coimbra, para que na sua Diocese como vigilante agricultor plantasse virtudes, e extirpasse vicios, cuja sagrada incumbencia dezempenhou com tal efficacia, que atrahida a Infanta D. Branca da sua vida apostolica, lhe concedeo faculdade para edificar Convento na Cidade de Coimbra, envejando a sua irmãa D. Sancha que a tivesse preferido em obra taõ religiosa. Convocado Capitulo Geral a Bolonha partio a pé sem viatico, e achando naquelle congresso a seu Patriarcha lhe relatou os progressos que fizera em Hespanha, pelos quaes mereceo que o Santo testemunhasse com devotas lagrimas o jubilo do seu coraçaõ. Sendo eleito primeiro Provincial de Hespanha voltou com cartas de recomendaçaõ do Pontifice Honorio III. para que os Reys lhe fossem favoraveis em tudo quanto emprendesse. Logo que chegou a Portugal, como fosse manifesta a madureza do seu talento o elegeraõ por arbitro das suas controversias D. Affonso II. e o Arcebispo de Braga D. Estevaõ Soares da Sylva, as quaes compoz com igual prudencia, que suavidade. Terceira vez foy obrigado a assistir no Capitulo Geral celebrado em Pariz, em que foy eleito Mestre Geral Fr. Joaõ de Saxonia, donde retirado a Monte-Junto emprendeo, e conseguio a mudança do Convento que novamente edificou na celebre Villa de Santarem. Neste santo domicilio continuou com mayor disvello a praticar as virtudes que exercitara em toda a vida, até que partio a receber o premio dellas a 27 de Abril de 1233, deixando por herdeiros do seu apostolico espirito S. Raimundo de Penaforte em Catalunha: o Ven. Fr. Poncio de Placidis em Aragaõ: a S. Fr. Gil, e S. Pedro Gonçalves Telmo em Palencia: S. Fr. Lourenço Mendes, e S. Gonçalo em Guimaraens, e S. Fr. Payo em Coimbra devendo estas grandes Almas as virtudes em que floreceraõ ás instruçoens de hum taõ grande Prelado, celebrado igualmente em Hespanha, como em Portugal, de quem fazem honorifica memoria Fr. Luiz de Sousa Hist. de S. Dom. da Prov. de Portug. Part. 1. liv. 1. cap. 9. até 12. D. Nic. de S. Maria Chron. dos Coneg. Reg. liv. 4. cap. 8. n. 14. até 21. Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 2. p. 732 e 738. no Coment. de 27 de Abril letr. B. Lopes Chron. Gen. de S. Doming. Part. 5. liv. 2. cap. 32. Diago Chron. da Prov. de Arag. liv. 1. cap. 1. Maluenda Annal. Ord. Praed. Tom. 1. ad ann. 1217. usque ad 1233. Bzovio Annal. Eccles. Tom. 13. ad ann. 1220. Macedo Flor. de Hesp. cap. 9. excel. 8. Franc. de S. Maria Diar. Portug. Tom. 1. p. 519. Cunha Hist. Eccles. de Lisb. Part. 2. cap. 30. Monteiro Claust. Domin. Tom. 3. pag. 310. Compoz por ordem de Affonso II. Constituiçoens para o bom governo do Reino. Sahiraõ impressas na 4. Part. da Mon. Lusit. liv. 13. cap. 21. por deligencia do Doutor Fr. Antonio randaõ Chronista mór do Reino, o qual no cap. 13. do dito liv. 13. assevera ser seu Author Fr. Sueiro Gomes.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]