D. THEOTONIO DE BRAGANÇA Naceo em Coimbra a 2 de Agosto de 1530 para glorioso brazaõ desta Cidade, e immortal gloria de seus Serenissimos Progenitores D. Jaime IV. Duque de Bragança jurado Sucessor desta Coroa, e de sua segunda Consorte D. Joanna de Mendoça, filha de Diogo de Mendoça Alcaide mór de Mouraõ. Do Palacio Ducal de VillaViçosa em que foy educado passou para o Convento de Santa Cruz de Coimbra, que naquelle tempo era a palestra da Nobreza, e nelle aprendeo os rudimentos da lingoa Latina explicados por D. Maximo de Sousa Conego Regrante Author da primeira Arte de Gramatica que se imprimio em o nosso Reino. Atrahido da observancia religiosa, que praticavaõ os moradores daquelle Real Convento se resolveo a vestir o habito Canonico, mas impedido por seus Pays naõ pode effeituar o seu dezejo. Naõ foy efficaz esta oposiçaõ para desarreigar de seu animo as profundas raizes, que nelle tinha lançado o heroico desengano de preferir o silencio do Claustro ao tumulto do seculo, fugindo ocultamente para o Collegio da Companhia de Jesus de Coimbra, onde recebeo a roupeta a 12 de Julho de 1549. Neste Seminario de virtudes se distinguio com tal excesso dos seus companheiros que chamado a Roma por Santo Ignacio para provar o seu espirito, e conhecendo por superior illustraçaõ que fóra da Companhia havia ser glorioso ornato da Jerarquia Ecclesiastica o despedio, antes que a authoridade delRey, e dos Duques seus Pays o elevassem a alguma dignidade a que fechara a porta com o seu instituto. De Roma passou á Universidade de Pariz, onde estudadas as sciencias severas recebeo a borla doutoral na Faculdade de Theologia. Discorrendo por varias terras de França, Italia, e Inglaterra assistio ao Casamento de Filippe II. com a Rainha D. Maria herdeira desta Coroa celebrado no anno de 1554. Sendo Thesoureiro mór da Collegiada de Barcellos, foy provido em huma Igreja do Padroado da sua Serenissima Casa, a qual renunciando o nomeou para seu Coadjutor, e futuro sucessor com o titulo de Bispo de Fez o Cardeal Infante D. Henrique, quando segunda vez ocupava o Arcebispado de Evora, cuja nomeaçaõ foy confirmada pela Santidade de Gregorio XIII. a 28 de Junho de 1578. Tanta era a madureza do seu juizo, e rectidaõ do seu procedimento que lhe cometeo o Cardeal D. Henrique, como Inquisidor geral a visita do Santo Officio, cuja incumbencia desempenhou como delle se esperava. Como pela infeliz batalha de Alcacer acabasse tragicamente ElRey D. Sebastiaõ, e fosse coroado Principe desta Monarchia o Cardeal D. Henrique, cedeo o Arcebispado de Evora em D. Theotonio, do qual tomou posse em 7 de Dezembro de 1578. Todas as virtudes constitutivas de hum perfeito Prelado se admiraraõ por elle exactamente praticadas assim na reforma dos costumes, e administraçaõ dos Sacramentos, como no socorro dos pobres, e ornato dos altares. Da sua religiosa magnificencia seraõ eternos padroens o Hospital da Piedade, o Seminario de S. Manço, os Conventos de Carmelitas Descalsos, das Religiosas da Villa do Torraõ, e dos Capuchos da Provincia da Piedade que elegeo para seu jazigo. Entre estes sagrados edificios se distingue o celebre Mosteiro da Cartuxa ideado pelo que vira em Tarragona, e o intitulou com o mesmo nome de Scala Caeli, em cuja fabrica dispendeo mais de cento, e sincoenta mil cruzados, e lhe esatabeleceo rendas perpetuas para sustentaçaõ dos Monges que o haviaõ de habitar, do qual tomaraõ posse a 15 de Dezembro de 1598. Assistio nas Cortes de Thomar, onde a 16 de Abril de 1581 foy aclamado Rey desta Monarchia Filippe II. e em Lisboa a 30 de Janeiro de 1583 em que foy jurado o Prineipe D. Filipe, que depois foy Rey de Castella, e III. Deste nome. Do seu generoso animo deu os mais claros testemunhos nas duas magnificas hospedagens, que fez no seu Palacio; a 1. no anno de 1582, quando a Emperatriz D. Maria de Austria veyo visitar a seu irmaõ Filippe II. que estava em Lisboa: a 2. no anno de 1583, quando este Monarca se recolhia de Lisboa para Madrid. Na fatal epidemia dos annos de 1580, e 1599, e na fome do anno de 1597 manifestou a ardente caridade que lhe abrazava o peito em beneficio dos apestados, e dos famintos. Para evidente prova da sua solida virtude tinha familiar comercio com as pessoas mais abalizadas em santidade, como eraõ Santa Tereza de Jesus, S. Carlos Borromeu; Gabriel Paleoto Cardeal, e Arcebispo de Bolonha, e o V. Fr. Bartholameu dos Martyres, Arcebispo de Braga, cujas cartas se conservaõ no thesouro da Serenissima Casa de Bragança. O apostolico zelo de conservar pura a Fé neste Reino o impellio a oporse intrepidamente ás pertençoens dos Christãos novos com que solicitavaõ o perdaõ geral. Para este fim despresando todos os incomodos partio no anno de 1602 a Valhadolid, onde assistia ElRey, e lhe representou com liberdade catholica acompanhado dos Arcebispos de Braga, e de Lisboa D. Agostinho de Castro, D. Miguel de Castro, e outras pessoas graves, e eruditas, ser injurioso ao credito de Sua Magestade assentir á suplica dos sequazes da Sinagoga, e o mesmo mandou significar ao Pontifice, de cuja efficaz representaçaõ se seguio negarse o perdaõ geral. Na mesma Cidade de Valhadolid estando resando horas Canonicas, foy acometido de hum acidente apopletico a 24 de Julho de 1602 havendo celebrado Missa naquelle dia, que o privou da vida a 29 do dito mez, e anno, quando contava 72 annos de idade, e 24 de Arcebispo. Embalsemado o cadaver foy conduzido pelo Licenciado Alvaro Tinoco, Conego da Cathedral de Evora, e o Licenciado Miguel Nunes de Abreu Desembargador da Relaçaõ Ecclesiastica, com a comitiva de todos os criados, e de seis Religiosos do Convento de S. Francisco de Valhadolid, e chegando á Cathedral de Evora a 15 de Agosto depois de celebradas pelo Cabido as Exequias, foy levado com grande pompa ao Mosteiro de Santo Antonio fóra dos muros da Cidade que elle fundara, e recolhido em huma sepultura raza se lhe gravou o seguinte epitafio.

Ad D.O.M.

Gloriam

Caenobium istud D. Ant. Ord. D. Franc. Prov. Pietatis ab Henrico Cardinali Infanti, & Archiepiscopo Eborensi, & postmodum Portugaliae Rege magna parte constructum Theotonius Jametis IV. & Joannae a Mendoça Ducum Bragantiae filius, cujus corpus hic in Domino quiescit, uti dicti Regis ejusdem Achiepiscopatus coadjutor, & futurus sucessor, ita suae voluntatis zelator propiis sumptibus perficiendum curavit, consumatumque vidit Obiit die xxix. Julii 1602.

Deste insigne Prelado fazem honorifica mençaõ Telles Chron. da Comp. de Jes. da Prov. de Portug. Part. 1 . liv. 2. cap. 37. Fr. Belchior de Santa Anna Chron. dos Carmelit. Descals. da Prov. de Portug. Part. 2. liv. 2. cap. 19. Fr. Manue1 de Monforte Chron. da Prov. da Piedade. liv. 4. cap. 2. Sousa Hist. de S. Dom. da Prov. de Portug. liv. 2. cap. 14. D. Nicol. de S. Maria Chron. dos Coneg. Reg. liv. 9. cap. 5. n. 3. e cap. 35. n. 7. Faria Europ. Portug. Tom. 3. Part. 3. cap. 12. n. 271. Imhof. Stem. Reg. Lusit. pag. 22. Nardi Genealog. Valignana. p. 169. Palafox Coment. ás Cart. de S. Teres. pag. 9. Sousa Cathal. Hist. dos Sum. Pontif. e Card. Portug. p. 230. Estaço Antiguid. de Portug. p. 45. Gusman Hist. de las Mission de la Comp. Part. 2. liv. 9. cap. 4. Charlovoix Hist. do Japon. Tom. 1. p. 440. e 463. Fonseca Evora Glorios. p. 302. Franc. de S. Maria Diar. Portug. Tom. 2. p. 472. D. Antonio Caet. de Sousa Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 5. p. 649. e no Agiol. Lusit. Tom. 4. p. 341. e no Coment. de 29 de Julho letr. B.

Compoz

Epistola ad Gregorium XIII. He escrita. Eborae Kal. Jan. 1583. Sahio impressa no Tom. 5. da Hist. Gen. da Cas. Real. Portug. composta por D. Antonio Caetano de Sousa.

Regimento do Auditorio Ecclesiastico do Arcebispado de Evora, e sua Relaçaõ. Evora por Manoel de Lyra 1598. fol. Desta obra como sua se lembra Nicolao Agostinho na Vida deste Prelado. cap. 6.

Pastoral passada a 30 de Mayo de 1601, em que encomenda aos seus subditos a observancia do Ceremonial dos Bispos confirmado por Clemente VIII.

Por sua industria, e dispendio sahio a primeira vez impressa a obra de Santa Madre Tereza de Jesus, intitulada

Camino de Perfecion.

Como affirmaõ Nicol. Agostinho Vida deste Prelado cap. 12. e o P. Telles Chron. da Comp. de Jesus da Prov. de Portug. Part. 1. liv. 2. cap. 40. n. 7.

Tambem por seu dispendio se imprimiraõ

Cartas, que os Padres, e Irmãos da Companhia de Jesus escreveraõ dos Reinos do Japaõ, e China, e os da mesma Companhia da India, e Europa desde o anno de 1545 até o de 1580. Tom. 1. e 2. Evora por Manoel de Lyra. 1598. fol.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]