D. VASCO DA GAMA, naceo em a maritima Villa de Sines situada na Provincia Transtagana podendo competir com as mais famosas Cidades do mundo por ter dado o berço a taõ illustre Heróe. Foraõ seus Progenitores Estevaõ da Gama Alcaide mór de Sines, e Sylves, Commendador do Seixal, Vedor do Principe D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II, Senhor das Saboarias de Estremoz, Souzel, e Fronteira, e D. Izabel Sodre, filha de Joaõ Rezende, Provedor das Valas, e de D. Maria Sodre, filha de Fradrique Sodre, dos quaes sendo descendente pela natueza, foy seu ascendente pela gloria que lhe adquirio. Desde os primeiros annos foy ornado de genio heroico para emprender açoens arduas, e dificultosas em que ja levava o aplauso de as intentar por naõ ter tempo para as conseguir. Com a idade foy crecendo este generoso ardor até que chegou o feliz complemento de que o manifestasse com assombro, e enveja de todas as Naçoens que se jactaõ de formidaveis, e belicosas. Meditando o Augustissimo Rey D. Manoel com madura reflexaõ o modo com que dilataria o seu Imperio pelas Regioens Orientaes, como estivesse informado dos dotes que ornavaõ a taõ insigne Vassallo lhe cometeo a empreza de descobrir o berço do Sol. Naõ cauzou horror ao impavido coraçaõ de Vasco da Gama estca ordem do seu Soberano, antes como quem se lizongeava dos perigos lhe agradeceo a eleiçaõ com que queria illustrar o seu nome. Sahio do porto de Lisboa a 8 de Julho de 1497. acompanhado de seu irmaõ Paulo da Gama, e Nicolao Coelho em tres navios guarnecidos de cento, e setenta homens a emprender huma jornada que do Ocazo até o Oriente se estendia em mais de tres mil legoas surcando mares nunca cortados de outras quilhas, tolerando a inclemencia de novos climas, e triunfando de naçoens barbaras, taõ differentes nas lingoas, como nos costumes, cuja assombrosa façanha, em que se admiraraõ tinidas inalteravel constancia, e resoluçaõ estupenda, eclypsou toda a gloria dos famosos Argonautas Ulysses, e Jasaõ celebrada com tantos elogios da eloquencia Grega, e Romana. Descuberta a Ilha de Santa Helena dobrou a 20 de Novembro aquelle tormentoso Cabo que o divino Camoens descreveo na formidavel figura de Adamastor, sendo hum dos mais elegantes Episodios do seu inimitavel Poema. Avistada a Costa da Etiopia Oriental descubrio a 28 de Fevereiro de 1498 a Ilha de Moçambique, que depois foy a escala para as nossas armadas que navegaõ para o Oriente, e lançando ferro a 7 de Abril na barra de Mombaça triunfou da infidelidade do seu Principe assim como passados dous dias achou benevola hospitalidade no porto delRey de Melinde naõ sendo inferior a recepçaõ que lhe fez o Samorim Rey do Malabar, quando lançou ferro a 18 de Mayo na Cidade de Calicut. Concluida taõ dilatada navegaçaõ, em que gastou dous annos, e vinte e hum dias voltou ao porto de Lisboa a 29 de Julho de 1499, onde foy recebido por ElRey D. Manoel com excessivas demonstraçoens de alvoroço louvando-lhe o intrepido animo com que humilhara a soberba nunca domada do Imperio de Neptuno, e fizera que o seu Nome fosse respeitado pelos Principes de Melinde, e Malabar dos quaes com as suas cartas recebia preciosas primicias de taõ illustre descobrimento. Segunda vez sahio este Argonauta de Lisboa para o Oriente a 10 de Fevereiro de 1502 com os honorificos titulos de Conde da Vidigueira, Almirante dos mares da India, Persia, e Arabia acompanhado de huma Armada composta de vinte navios, e chegando a 12 de Julho á Cidade de Quiloa fez ao seu Principe tributario anualmente em dous mil meticaes de ouro ao nosso Monarcha. Restituido a Lisboa em o 1 de Setembro de 1503 lhe offereceo o tributo delRey de Quiloa do qual mandou com generosa piedade fabricar huma Custodia para deposito do Santissimo Sacramento que deu ao Convento de Belem que magnificamente edificara. Tendo este Heróe por duas vezes navegado ao Oriente, que o foy da sua immortal gloria, o mandou ElRey D. Joaõ III. seguindo nesta eleiçaõ aos vestigios de seu grande Pay que terceira vez intentasse taõ dilatada jornada para a qual partio com o titulo de Vice-Rey do Estado a 9 de Abril de 1524 acompanhado de seus talhos Estevaõ, e Paulo da Gama com quatorze Náos grossas, sinco Caravelas guarnecidas de tres mil soldados. Chegando á Costa de Cambaya se sentio na Armada hum formidavel marimoto do qual consternados excessivamente os navegantes os animou como superior a todos os perigos dizendo-lhe que trocassem o temor em jubilo, e o susto em alegria, porque o mar com aquelle movimento testemunhava o medo que tinha ás novas armas. Naõ mereceo o Estado da India, que hum Heróe que tinha domado o orgulho das ondas, abatesse a soberba dos Principes Orientaes no tempo do seu governo que foy taõ breve, como dilatada a sua fama, fallecedo em Cochim 25 de Dezembro de 1524 ás tres horas depois da meya noite havendo recebido com piedade catholica todos os Sacramentos. Foy cazado com D. Catherina de Attayde, filha de Alvaro de Attayde, Senhor de Penacova, e Alcaide mór de Alvor, e D. Maria da Sylva de quem teve a D. Francisco da Gama segundo Conde da Vidigueira Senhor da mesma Villa, e da de Frades, Almirante mór da India, e Estribeiro mór delRey D. Joaõ o III. que cazou com D. Guiomar de Vilhena, filha de D. Francisco de Portugal I. Conde de Vimioso, e de sua primeira mulher D. Brites de Vilhena de quem teve descendencia: D. Estevaõ da Gama Governador da India: D. Paulo da Gama Capitaõ de Malaca: D. Christovaõ da Gama que com o proprio sangue tyranamente derramado pela impiedade do Imperador da Etiopia nobilitou os Fastos do Christianismo: D. Pedro da Sylva Capitaõ de Malaca: D. Alvaro de Attayde da Gama: D. Izabel de Attayde mulher de D. Ignacio de Noronha, filho herdeiro do primeiro Conde de Linhares D. Antonio de Noronha Escrivaõ da Puridade delRey D. Manoel de quem naõ teve sucessaõ. Da sepultura do Convento de S. Francisco de Cochim se tresladaraõ os seus ossos, como ordenara em seu Testamento para o Convento dos Religiosos Carmelitas Calçados da Villa da Vidigueira, cuja Capella mór he jazigo da sua Excellentissima Casa, e no Presbiterio da parte do Evangelho está hum caixaõ cuberto de veludo preto, e em huma pedra se lê gravada a seguinte inscripçaõ.

Aqui jaz o grande Argonauta D. Vasco da Gama I. Conde da Vidigueira, e Almirante das Indias Orientaes, e seu famoso Descubridor.

Eternizaraõ a memoria deste Heróe com elegantes elogios diversos Escritores, como saõ Goes Chron. delRey D. Manoel. Part. 1. cap. 24. 38. 41. e 44. Barros Decad. da Ind. 1. liv. 4. cap. 1. e seguintes. Faria Asia Portug. Tom. 1. Part. 1. cap. 4. Solorzan. de Jure Indiar. Tom. 1. lib. 1. cap. 3. n. 30. San Roman Hist. de la Ind. Orient. liv. 1. cap. 8. 10, e 13. Osorius de reb. Emman. lib. I. Andrade Chron. delRey D. Joaõ III. Part. 1. cap. 58 e 64. Sousa Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 3. p. 167. 169. e 480, e Tom. II. p. 551. Franc. de Santa Mar. Diar. Portug. Tom. 3. p. 535. Fr. Jozé Pereira Chron. dos Carm. da Prov. de Portug. Tom. 2. Part. 4. cap. 4. n. 595. Sá Mem. Hist. do Carm. da Prov. de Portug. Part. 1. liv. 3. cap. 4. pag. 236.

Compoz

Relaçaõ da Viagem que fez á India em o anno de 1497. M. S.

Desta obra, e seu Author fazem mençaõ Nicol. Ant. Bib. Hisp. Vet. lib. 10. cap. 15. §. 843, e Antonio de Leaõ Bib. Ind. Tit. 2. e o seu addicionador Tom. 1. Tit. 2. col. 25.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]