D. VICENTE NOGUEIRA, naceo em Lisboa no anno de 1586, sendo filho do Doutor Francisco Nogueira Cavalleiro do habito de Saõ-Tiago, Desembargador da Casa da Suplicaçaõ, e Juiz da Coroa, e do Conselho de Estado de Portugal. Quando contava doze annos o fez ElRey moço fidalgo, e tal era o talento que mostrou em idade taõ tenra que contrahio grande amizade com o Condestavel de Castella D. Bernardino de Mendoça, e o Duque de Feria. Estudada Filosofia se graduou na Faculdade de Canones, e depois foy Senador na Casa da Supplicaçaõ, de que tomou posse a 13 de Março de 1613, e Conego da Cathedral de Lisboa. Soube com perfeiçaõ as lingoas Latina, Grega, Caldaica, Syriaca, Arabica, Italiana, Franceza, e Castelhana. Teve bastante instruçaõ da Historia sagrada, e profana, como tambem da Poezia, Mathematica, Musica, e Algebra. Sahindo involuntariamente da patria no anno de 1631 experimentou fóra della a fortuna mais propicia assim nos lugares que teve, como nas estimaçoens que alcançou das pessoas da primeira Jerarchia sendo Senhor de Rios frios, Referendario de ambas as Signaturas em Roma, Conselheiro da Magestade Catholica, e Cesarea, e Camarista da Chave dourada do Archiduque de Austria Leopoldo. Falleceo em Roma no Palacio do Cardeal Francisco Barberino Vice-cancellario da Igreja Romana em o anno de 1654, quando contava 68 annos de idade. Sobre a sua sepultura se lhe gravou o seguinte epitafio.

Vincentio Nogueirae Ulyssiponensi

Heriditario in Rios frios Domino

Utriusque Signaturae

In Romana Curia Referendario;

Caesareae Catholicaeque Maiestatis

Á Consiliis.

Leopoldi Anstriae Archiducis

Clavis aurae cubiculario.

Animo forti in adversa fortuna

Moderato in secunda;

Liberalium artium,

& linguarum etiam Orientalium Peritissimo

Profusa in pauperes pietate,

Magnificentia in amicos singulari,

M. Antonius de Nobilibus Bononiensis

Grati animi monumentum posuit.

Diversos Escritores lhe celebraraõ o seu nome buscandoo para Mecenas das suas obras, como foraõ Zacuto Lusitano Praxis Hist. Med. Tom. 7. Bento Gil de Privilegiis Advocatorum. Luiz Tribaldos de Toledo na Dedicatoria da Guerra de Granada, composta por Diogo de Mendoça. Gabriel Pereira de Castro Decis. 97. o intitula peritissimum. Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. V. n. 22. Vir eruditus peritia linguarum exoticarum. Barthol. Bib. Rabin. Tom. 2, p. 809. in hebraica lingua admodum versatus. D. Franc. Manoel Cart. dos Author. Portug. que he a 1. da 4. Cent. das suas Cartas, e Lopo Felix da Vega Laurel. de Apollo. Sylv. 3.

  1. Vicente Noguera

Tuviera assiento entre Latinos grave

Laurel entre Toscanos,

Palma entre Castelhanos

Por la dulçura del hablar suave;

Y entre Francezes, y Alemanes fuera

Florida Primavera;

Que como ella de tantas differencias

De alegres flores se compone y viste,

Assi de varias lenguas, y de sciencias

En que la docta erudicion consiste.

Que livro se escrivio, que nò lo viesse?

Que ingenio florecio, que nò le honrasse ?

En que lengua se hablò, que no supiesse ?

Que sciencia se inventò, que nò alcançasse ?

Ó Musas Castellanas,y Latinas,

Francezas, Alemanas, y Toscanas

Coronad las riberas Lusitanas

De Lirios, arrayanes,y boninas:

Nò quede en vuestras fuentes christalinas

Laurel, que en ellas su hermosura mire;

Donde Daphne amorosa nò suspire,

Por nò baxar a coronar la frente

Deste de todos vencedor Vicente.

Compoz

Carta escrita de Lisboa a 28 de Setembro de 1615 a Jacobo Augusto Thuano Presidente do Senado de Pariz. Começava. Si dixere a V. S. que nò he leido mejor Historia, &c. Sahio impressa no ultimo Tomo deste Author da ediçaõ moderna de Londres por Samuel Buckley 1733. fol. Está traduzida em Francez, e juntamente a reposta de Thuano em Latim a Vicente Nogueira escrita Julioduni Pridie Kal. Martii anni bissextilis 1616.

Relaçoens tiradas de varios papeis para a Historia delRey D. Sebastiaõ com as noticias de Francisco Giraldes em Roma, e Inglaterra, e de Lourenço Pires de Tavora em Roma escritas por Vicente Nogueira em Lisboa escritas por Vicente Nogueira em Lisboa a 12 de Setembro de 1618. fol. M. S. Conservaõ-se na Livraria do Real Convento de Thomar da Ordem Militar de Christo.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]