D. LEONARDO DE S. JOZÉ chamado no século Leonardo Sarayva Coutinho, nasceo em Lisboa em o primeiro de Janeiro de 1619. e na tenra idade de quinze annos antepoz o silencio do claustro ao tumulto da Corte recebendo o habito Canonico Augustiniano em o Real Convento de S. Salvador de Grijo, distante duas legoas da Cidade do Porto em o primeiro de Janeiro de 1634. renacendo para Deos em o mesmo dia, que para o mundo tinha nascido. Aprendidas as Sciencias severas no Collegio de Coimbra em que fez o seu talento excellentes progressos, acompanhado de D. Jozé de Christo, e de D. Antonio de Christo ambos alumnos da sua Canonica Congregaçaõ, e igualmente doutos, e virtuosos se embarcou para Hybernia com o designio de reduzir á sua primitiva observancia a celebre Congregaçaõ de S. Patricio, que militava de baixo da Canonica Regra de Santo Agostinho; porem como achasse aquella Ilha inficionada com o veneno da heresia, passou a Pariz esperando ocasiaõ que descubrisse algum arbitrio com que se conseguisse o seu intento. Todo o tempo, que assistio nesta Corte foy hospede do Marquez de Niza Embaixador desta Coroa com o qual se restituhio a Lisboa onde exercitou nove annos o lugar de Procurador Geral da sua Congregaçaõ alcançando pela afabilidade do genio, e capacidade do talento os mais graves negocios com igual utilidade da Religiaõ, como credito da sua pessoa. Foy morador no Real Convento de S. Vicente de fóra o largo espaço de 35. annos adquirindo universal aceitaçaõ no exercicio do Pulpito pelo qual foy nomeado Pregador delRey. Entre a continua ocupaçaõ dos Sermoens cultivava as Musas com taõ inocente comercio, que nunca consta contaminar as suas Poesias com algum termo indecorozo. Foy insigne na practica das Ceremonias Ecclesiasticas, sendo sempre consultado como Oraculo pelos Mestres da Capella Real, e Cathedraes do Reyno. Nos ultimos trinta annos da vida exercitou o lugar de Capellaõ de N. Senhora do Pilar que se venera em huma magnifica Capella do sumptuoso Convento de S. Vicente de fora, e com tal excesso se dedicou ao obsequio de taõ soberana Princeza, que pedio ao Pontifice huma Bulla para naõ ser obrigado a votar nas eleiçoens, e muito menos aceitar algum ministerio na Religiaõ. Observou taõ rigoroza clausura que sómente a rompeo na ocasiaõ, que acompanhou a Imagem da Senhora do Pilar quando foy levada ao Palacio de Palhavãa onde jazia gravemente inferma a Serenissima Rainha D. Maria Francisca Izabel de Saboya. Todo o tempo, que lhe restava da Oraçaõ mental, e vocal em que era continuo, e fervoroso o consumia na composiçaõ de livros asceticos com que instruia as almas para o caminho da perfeiçaõ. Correspondeo a felicidade da morte a reforma da vida, pois certificado de estar proximo o tempo de pagar o indispensavel tributo de mortal, recebeo devotamente os Sacramentos, e com saudade dos seus domesticos espirou a 28 de Fevereiro de 1703. quando contava 84. annos de idade, e 69. de Religioso taõ livre das agonias daquella fatal hora que tomando a vela ao meyo dia, a conservou na maõ até as cinco para as seis horas da tarde em que falleceo. Compoz.

Assumpto glorioso do Certame Academico dos Generosos de Lisboa em louvor da Purissima Conceçaõ de nossa Senhora Protectora deste Reyno debaxo de cuja proteçaõ conseguiraõ os Portuguezes o felicissio sucesso da Vitoria do Canal. Lisboa por Domingos Carneiro 1663. 4. Consta de Outavas.

Meditaçoens de Santa Brigida com hum tratado para antes, e depois da Comunhaõ do Padre Francisco Bermudes de Castro da Companhia de Jejus. Coimbra por Manoel Dias 1664. 12.

Aplauzos Lusitanos da Victoria de Montes Claros que tiveraõ os Portugueses contra os Castelhanos em 17. de Junho de 1665. Lisboa por Domingos Carneiro 1665. 4.

Arte da Oraçaõ sem arte para saberem orar os que naõ sabem. Lisboa por Domingos Carneiro 1668. 16.

O Divino Pelicano para sustento das almas na frequencia do Augustissimo Sacramento da Eucharistia. Lisboa por Joaõ da Costa 1670. 8.

Rozeto Augustissimo plantado no Jardim florente da Sagrada, e Apostolica Ordem Canonica. Lisboa por Domingos Carneiro 1678. 8.

Cartilha nova para ensinar com clareza, e facilidade a Doutrina Christaã. Lisboa por Antonio Leyte 1692. 16. & ibi por Joaõ da Costa 1676. 24.

Divina Aurora N. Senhora do Pilar. Lisboa por Domingos Carneiro 1677. 12.

Guia de penitentes, e modo facil de fazer huma Confissaõ Geral. Lisboa por Joaõ da Costa 1680. 12. & ibi pelo mesmo 1675. 16. e Coimbra por Antonio Dias da Costa 1655. 12. & ibi por Francisco de Oliveira Impres. da Univ. 1731. 8.

Economicon Sacro dos Ritos, e ceremonias Ecclesiasticas. Lisboa por Manoel Lopes Ferreira. 1693. 4.

Aureola da Corte Santa Tratado I. Triduo dos Panegyricos, Sacros, e felices triunfos celebrados em o Real Mosteiro de S. Vicente de fóra de Lisboa da augusta Religiaõ dos Conegos Regulares do grande Patriarcha Santo Agostinho na solemne Beatificaçaõ do triunfante Martyr S. Pedro de Arbues em 17. de Setembro de 1672. Lisboa por Joaõ da Costa 1674. 4. No Trat. 2. Comprehende a vida, e Relaçaõ da gloriosa morte do B. Pedro de Arbues traduzida em Portuguez do Castelhano em que a escreveo o Inquisidor D. Diogo Garcia de Transmiera.

Contra si faz quem mal cuida. Comedia da qual he assumpto a morte de Dona Maria Telles. Sahio com o nome de Leonardo Sarayva Coutinho.

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]