D. LEAÕ DE NORONHA filho de D. Henrique de Noronha Commendador Mor da Ordem de Santiago, Terceiro Neto dos Reys D. Henrique II. de Castella, e D. Fernando de Portugal; e de D. Guiomar de Castro filha de D. Joaõ de Noronha chamado o Dentes, e D. Joanna de Castro do qual procedeo a Illustrissima Casa dos Marquezes de Cascaes, augmentou com acçoens virtuosas os herdados brazoens da sua esclarecida origem. Como desde a infancia fosse inclinado á virtude preferio os rigores do Instituto Serafico ás delicias da casa paterna vestindo o habito de S. Francisco, porém tendo professado o Instituto de S. Jeronimo seu irmaõ D. Pedro, e fossem fallecidos D. Jorge e D. Henrique para que naõ caducasse a memoria de taõ illustre varonia foy constrãgido por seu Pay a deixar a vida religiosa para suceder na casa de seus Mayores. Restituido ao seculo praticou as virtudes do claustro, naõ sendo poderoso o tumulto da Corte para perverter o seu espirito com os honorificos augmentos a que podia justamente aspirar o esplendor do seu nacimento, e ainda que era muito aceito aos Principes do seu tempo nunca quiz ocupaçaõ que o divertisse dos devotos exercicios em que consumia a mayor parte do tempo. Era a sua casa universal refugio da pobreza aflicta, e para naõ estragar o segredo com que dezejava fossem repartidas as esmólas, descobrio o arbitrio de destribuir pela Cidade diversas pessoas que remediassem aos necessitados sem saber o author de taõ compassiva providencia. A mayor excesso chegou a sua ardente charidade curando em a Villa da Arruda para onde se tinha retirado, com as suas maõs a muitos feridos de contagio, que no anno de 1569 devastou grande parte do Reyno, naõ lhe cauzando horror perder a propria vida por salvar a alhea. Na Oraçaõ vocal era continuo recitando noutes inteiras de joolhos Psalmos, e Hymnos com que anhelava ser emulo das incessantes vozes dos Espiritos Angelicos, que no Impirio louvaõ a Divina Magestade. Entre o magnifico ornato da sua casa, e grande numero de criados tinha taõ radicado no seu coraçaõ o desprezo das pompas do mundo, que permitia aquelle apparato para conservaçaõ do respeito, e naõ da vaidade. Sendo o seu mayor estudo ocultar as virtudes de que era depozito a sua alma, eraõ reveladas pelas vozes mudas de varios prodigios, que obrava multiplicando o trigo no celeiro, a carne na cozinha , restituindo o uzo do braço direito a hum paralitico, e o dos olhos a hum cego. A tantas virtudes com que se illustrava o seu espirito correspondiaõ as Sciencias com que nas Escolas admirou aos mayores sabios ouvindo como promptamente resolvia, e fortemente propugnava as mais dificultozas Questoens de Filozofia, e Theologia cuja profunda sabidoria lhe servia de modesto despertador do que ignorava, e naõ de vaõglorioso estimulo do que sabia. Juntou huma livraria composta de mais de sinco mil volumes cuja mayor parte se distribuio pelos Conventos da Provincia da Arrabida. Tinha deputado certas de noute para o seu estudo diante de hum Crucifixo do qual aprendia os documentos da perfeiçaõ Evangelica. Enfermando de hum tumor sobre o estomago que lhe dificultava a respiraçaõ conheceo ser infallivel anuncio da morte, e recebidos todos os Sacramentos com summa piedade fictando os olhos em o Crucifixo que sustentava nas maõs repetio estas palavras. Vayte alma a Deos que te criou, no fim das quaes se transferio o seu espirito para a Patria dos Escolhidos a 28. de Agosto de 1572. quando contava 62. annos de idade. Jaz sepultado em a Capella da casa do Capitulo de S. Francisco da Villa de Alanquer. Foy cazado com D. Branca de Castro filha de D. Gonçalo Coutinho Commendador da Arruda, e de D. Brites de Castro filha de Ayres da Silva Regedor das Justiças, e Camareiro Mor delRey D. Joaõ o II., e de D. Guiomar de Castro filha de D. Garcia de Castro, e D. Brites da Silva, de cujo consorcio foy unica produçaõ D. Thomaz de Noronha Ayo do Principe D. Joaõ filho delRey D. Joaõ III. e Embaixador a França, e Inglaterra que foy igualmente herdeiro da casa, como da virtude de seu grande Pay, e de quem fez larga memoria o Licenciado Jorge Cardozo Agiol. Lusit. Tom. 1. pag. 148. Fazem distinta lembrança de D. Leaõ de Noronha Fr. Luiz de Sousa Hist. da Prov. de S. Dom. de Portug. Part. 2.1iv. 4. cap. 22. Fr. Manoel da Esper. Hist. Seraf. da Provinc. De Portug. Liv. I. cap. 36. §. 7. Joaõ Franco Barreto Bib. Port. M. S. Carvalho Corog. Port. Tom. 1. p. 223. e o Padre D. Ant. Caet. de Sousa Hist. Geneal. da Casa Real de Portug. Tom. 11. pag. 902. nas Mem. Hist. e Geneal. dos Grand. de Port. pag. 190. e no 4. Tom. do Agiol. Lusit. pag. 687. col. 2. Compoz.

Tratados varios de Theologia Mystica. e Especulativa. Delles afirma o Padre D. Anton. Caet. de Sous. a pag. 687. col. 2. do Agiol. Lusit. Seriaõ de muito proveito se se poblicassem por ser de muito elevado espirito.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]