Por: Teresa Martins Marques

Márcia tinha 50 anos e um problema não resolvido com a solidão. Não procurava companhia de amigos reais. Não procurava a família. Não procurava terapeutas. Procurava amigos virtuais. Quem muito procura sempre encontra.

Encontrou um amigo muito giro e simpático. Mais novo uns aninhos do que ela.
Ganhava malzinho, Márcia ia pagando as contas. Ele fazia um ar envergonhado, tinha sido ensinado ao contrário, dizia. Ela que não… Os tempos mudaram.

Encontravam-se sempre em casa dela. Ele morava com os pais a contragosto.
Além de simpático, muito prendado. No primeiro fim de semana, pegou no aspirador e deixou-lhe a casa um brinquinho. Ela nem queria acreditar. Sorte assim! Como não tinha dinheiro para restaurantes ele mesmo faria o almoço em casa dela, no sábado seguinte. Foram os dois fazer as compras ao supermercado, pareciam um casal a sério. Já na cozinha, abre o armário das especiarias e desarruma os frasquinhos:

Ora bolas! Não tens açafrão!

Mas é tão importante o açafrão?

Claro que é! Como queres tu que o arroz fique amarelo?

Mas eu não preciso do arroz amarelo!

Algum dia viste paella branca?

Silêncio compungido.

Era muito chato se voltasses ao supermercado, enquanto eu limpo os mariscos?

Márcia pega na carteira e nas chaves do carro. Que fazer? Um rapaz tão simpático!

45 minutos mais tarde, entra em casa com o pacotinho amarelo. Vai à cozinha e não encontra o simpático. Procura na casa de banho, também não. Vai à sala e nada. Entra no quarto e só então repara no guarda-joias que era da avó. Tampa aberta. O ouro desaparecido. O branco e o amarelo.

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© Teresa Martins Marques