Isabel, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

A vontade de escrever surgiu cedo, muito cedo. Comecei a ler aos quatro anos, auxiliada pelas circunstâncias (não tinha irmãos, mas vivia rodeada de livros e beneficiei da presença meiga de uma tia-bisavó que me ensinou a ler). Depressa percebi que, quando fosse crescida, queria ser autora de livros, queria para mim essa forma de estar no mundo. Na realidade, como mostram as histórias que o meu pai carinhosamente guardou, não há separação entre o momento em que comecei a ler e aquele em que comecei a escrever. A ideia de publicar surgiu muito mais tarde, e confesso que durante muito tempo achei mais importante exercitar-me na escrita do que ser lida.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Muitas vezes basta uma palavra descoberta ao acaso numa página lida, uma ideia trocada com o Paulo, um retrato, um papel antigo. Às vezes há uma ideia vaga que se vai instalando, se vai definindo, até que o gesto da escrita se torna inevitável. Normalmente, tudo se consubstancia no título: quando chego ao título definitivo, estou verdadeiramente a escrever, sei que o livro acabado é uma questão de tempo. É verdade que me documento, leio, estudo, mas o clique inicial é um pouco misterioso.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Essa é uma pergunta que eu prefiro ver respondida pelos meus leitores, que muitas vezes as identificam bem melhor do que eu. Ainda assim, diria que há motivos recorrentes. A memória, o esquecimento, o sentimento do passado. Não o passado recriado como uma curiosidade ou uma extravagância, mas a capacidade de sentir outros tempos e outros seres humanos que neles viveram, os meus «amigos à distância», como costumo chamar-lhes. Creio que tenho a capacidade de encontrar a brecha por onde a imaginação consegue iludir as circunstâncias do presente para chegar a uma época outra, não a que foi, naturalmente, mas a que construo na ficção. Um exercício de fantasia, até porque o fantástico é outro dos meus apelos, mas onde também entra trabalho de pesquisa.

 

Que aspectos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “A Febre das Almas Sensíveis”?

Bem, este romance contém esse tipo de viagem a outro tempo e a um lugar hoje ignorado, a tal viagem emocional. Uma parte importante do enredo desenrola-se na década de 40, no Caramulo, na altura uma reputada estância sanatorial onde se internavam os doentes de tuberculose. Hoje, a maioria dos antigos sanatórios está em ruínas. No livro, há uma rapariga que visita essas ruínas, recolhe despojos, sobretudo papéis, e que se interessa pelo tema porque está a preparar uma tese sobre escritores oitocentistas vítimas da tuberculose, a tal febre das almas sensíveis. O livro também dá conta deles. Eu não tive tanta sorte como ela, não encontrei tesouros nos escombros, mas foi durante uma visita ao Caramulo e graças às impressões fortes que o local exerceu em mim que resolvi, definitivamente, escrever o romance.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritora?

Nesta pergunta, gosto mesmo da palavra “percurso”. Escrever é um caminho, uma longa e constante aprendizagem, e, a cada etapa, presumirmos que já somos fantásticos e não temos nada a aprender, mais do que ridículo, é muito triste. Na minha caminhada até aqui, destaco dois momentos. O primeiro em 2004, quando ganhei um pequeno concurso literário, na sequência do qual editei uma novela. Não saíram críticas ao livro, e quase ninguém o leu, mas aquele prémio foi para mim uma espécie de sinal. Estava prestes a entrar num pós-doutoramento e a tornar-me uma daquelas académicas empedernidas, e aquele prémio indicou-me que não, não seria a coligir referências e a produzir mais um livro secante sobre literatura que eu deveria gastar o tempo que me sobrava das aulas. O segundo foi a edição do «Rio do Esquecimento», esse sim, a ter leitores a sério, a receber críticas na imprensa. Confirmou-me não só que aquele era mesmo o caminho, mas que eu estava talhada para ele, até porque saberia lidar com o que de bom e menos bom surgisse com honra e humildade.

O que é, para si, um bom livro? 

Um livro que eu gostaria de ter escrito. Um livro que me transporte numa viagem emocional. Onde eu encontre uma personagem de quem gostaria de ser amiga. Onde haja frases que correspondam ao que eu sempre quis dizer, mas nunca consegui dizer assim tão bem. Que me arrebate nem que seja pela beleza da linguagem. Enfim, tenho um conceito abrangente do que é “um bom livro”, que me torna interessada por muitos autores, géneros, estilos e correntes, mas me distancia quase sempre dos livros demasiado cerebrais. Gosto, no fundo, que um livro me faça sentir.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Uma boa dose de talento. Trabalhar muito, ler muito. Aprender a ser lido. Saber escutar as críticas, mesmo as que lhe pareçam absurdas, sem se sentir tentado a responder com azedume, mas sem se desviar das suas convicções. Pessoalmente, gostaria que todos os bons escritores fossem também pessoas boas, mas sabemos que isso é pedir demasiado. Por isso, vou repetir a parte do trabalhar muito e ler muito.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Poderia fugir à questão, e ninguém me levaria a mal, porque escolher apenas sete numa vida inteira de leituras… Mas vou pegar o touro pelos cornos e recomendar sete duplas que irei continuar a considerar extraordinárias até ao final dos meus dias. Machado de Assis, Dom Casmurro; Agustina Bessa-Luís, Um cão que sonha; Gustave Flaubert, Madame Bovary; Albert Camus, O Estrangeiro; Gabriel Garcia Marquez, Cem anos de solidão; Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano; Jean Giono, Um roi sans divertissement (julgo que este não está traduzido).