“Entrei em contacto com a poesia de João Rui de Sousa por acaso, jovem perdido nas alturas de Bragança: ao analisar “Meditação em Samos” (1970), em “A Poesia Portuguesa Hoje” (1973) – longe de imaginar que João Rui e eu nos tornaríamos amigos, regularmente à mesa, cúmplices em certas aventuras e até companheiros de uma volta à ilha da Madeira em bicicleta(…)”

Por: Ernesto Rodrigues

Nos 89 anos do Poeta (12-X-1928)

 

  1. 1. Entrei em contacto com a poesia de João Rui de Sousa por acaso, jovem perdido nas alturas de Bragança: ao analisar Meditação em Samos(1970), em A Poesia Portuguesa Hoje(1973) – longe de imaginar que João Rui e eu nos tornaríamos amigos, regularmente à mesa, cúmplices em certas aventuras e até companheiros de uma volta à ilha da Madeira em bicicleta –, Gastão Cruz identificava nesse quarto livro alguns pressupostos clássicos do autor, como equilíbrio, harmonia, ordem, nitidez. Penhor dessa sintaxe íntima era o fogo – e O Fogo Repartido (1960-1980; 1983) reuniria a produção de duas décadas, com inéditos, outros saídos na revista & etc.

As opiniões que nesta soma se congraçavam eram de monta, tendo algumas merecido embora alfinetada de João Gaspar Simões em recensão do Diário de Notícias (9-VI-1983). Assim, Jorge de Sena, nas Líricas Portuguesas(II, 21983), considerou a «grande arte da metrificação fluente, severidade da expressão irónica, viril secura no manejo das metáforas, e um moralismo áspero que nunca se concede a facilidade do protesto retórico». David Mourão-Ferreira (Portugal – A Terra e o Homem, 3.ª Série, II, 1981), enquanto lamentava a «extrema discrição com que [João Rui de Sousa] vem aparecendo», o que lhe retirava «uma notabilidade mais ampla, a que os seus textos têm irrecusável direito», mostrava-o inserindo «a fixação do insólito e a transfiguração do quotidiano em quadros muito pessoais de permanente meditação ontológica, através de uma linguagem por vezes elíptica mas nunca descarnada, numa sistemática recusa a todas as seduções da facilidade». Do mais falam ilustres resumidos na Concisa Instrução aos Nautas (1999), seu décimo segundo título – decerto, a sua edição mais breve e modesta, folhas soltas presas por um fio, em que assenta este meu texto –, devendo retomar-se a síntese de Fernando J. B. Martinho no capítulo “Fidelidade ao humano” de Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50 (1996: 271 ss; 22013), quando cura da Cassiopeia, «antologia de poesia e ensaio» co-fundada, em Março de 1955, por João Rui de Sousa. Dito isto, como quem faz balanço para fecho de contas do autor de Fernando Pessoa – Empregado de Escritório (22010), o que acrescenta aquele hoje raro livro de cordel, cuidado no Funchal pelo comum e malogrado Amigo José António Gonçalves?

Em primeiro lugar – e mais do que no luxuoso, circunstancial, descritivo Respirar pela Água (1998; com pinturas de Carmo Pólvora), afirmando a mudança de paradigma no que toca aos elementos naturais –, temos um propósito de unidade que o vocábulo ‘instrução’ indicia. Esta provê à técnica do olhar, qual arte de marear na costa madeirense, mas sulcam-na interrogações em cinco dos onze poemas em trânsito para aquela “Visão primeira do Porto da Cruz”, último texto, e matriz, inaugural memória do chão paterno. Recordação, este «retrato» na câmara escura da intimidade vem disparado «em transe» – atitude, já, do poeta iónico, picado pelo espírito do lugar. Neste sentido, João Rui de Sousa tornou-se emérito poeta madeirense – se quiserem laureá-lo, e ele aceitar… –, como não há muitos:

Ter as mãos que se entreabrem

à ilha que seja berço,

[…].

Um desejo.

…Porque, e num segundo momento, o inspirado caminho de regresso, «conciso», se possível, à casa do Pai, acontece de fora (e, com o Poeta, estivemos frente à casa do Pai), mar fora, até à exclamação de “Terra à vista!”, e, logo, este verso semiparentético, que encaminha para história pessoal:

Voltar. Voltar a onde não estive

(ou estive?). […]

Balouçados na estrutura anaforizante das redondilhas iniciais, agora retomada no impositivo «Voltar» – antes de, à frente, o polissíndeto reforçar a copulativa existencial –, percebe-se um conhecimento «ao menos pela névoa», aquela (quem sabe?) reminiscência de velhos filósofos, momento em que a contingência vira essência, as coisas só existem enquanto conservam «o sonho por sentido» e o poeta se transforma na mítica tripulação em busca da «luminosa / penumbra de emoção e afecto», de fantástico (aí estão os «animais faustosos, retumbantes»), já longe dos ‘sombreados’ que envolvem Enquanto a Noite, a Folhagem (1991).

A erótica de Obstinação do Corpo (1996), entretanto, não se mostrará tão feliz, ou optimista – subsiste um grito quase cinquentenário quando interpela o “Ilhéu de Baixo (ou da Cal)” –, como este abraço-revisitação à casa «com traves de magia e alimento». Eis como do fogo se veio à água; raiz, enfim, para fechar a parábola. A imagem do farol em centelhas de letras, na capa de 1999, é, por isso, um achado.

No peregrinar costeiro – elemento calmo, alma enraizada, inscrita «neste rosto e nesta fala» –, temos, derradeiramente, nauta pacificado, em visões pacientes e desenhadas das naturezas humana e marinha. A paisagem transmuda-se em não raros quadros à Bosch ou de herdeiros surrealistas (por exemplo: «Eis as trepadeiras coleantes / que vão do mar ao fundo / (com olhos muito grandes de cobalto) / ao trono mais íngreme da verdura»), o que significa recomposição da ilha – e dou exemplo chagalliano –,

com telhados planando entre animais

suspensos entre a pedra e um fio de treva.

Na lógica quinhentista, por outro lado, nauta avisado aparelha também «a alma para a morte», como diz Camões (Os Lusíadas, IV, 86). Ora, este descobrimento de João Rui de Sousa, que se lê ao contrário, se informado não fosse, mais aparelhado do que é – do argumento ao léxico, do búzio regular de toantes e consoantes a sinestesias e imagens visualmente fortes, como aquela «extensa lança arremessada / ao coração das águas» referida à Ponta de São Lourenço –, e para uso próprio e alheio, seria difícil de encontrar. Depara-se-lhe a origem da vida, não perigo de morte. Não é subversão pequena.

Em transe prosodicamente vigiado – interpolo a notável imagem de “Cuidar a razão”, num já bastante diferente Os Percursos, as Estações (2000: 29): «Administra a tua razão / como um anjo louco» –, este, digamos, poema em 11 cantos ao Arquipélago acrescenta-lhe uma espécie bibliográfica – logo, regional –, e, face ao sobressalto temático na produção de João Rui de Sousa, retempera a sua lira, que também reequaciona.

Como será, doravante, esta lírica, já sobre a praia dos afectos, e despedidas, como se deve a quem embarca? Encontro uma síntese admirável dessa caminhada de quatro decénios em “Colar” (2000: 131):

As vozes são pátrias repartidas

por muitos lábios.

E os lábios são rosas embebidas

por um ardor de estames.

E os estames são aves surpreendidas

pelo furor de tudo quanto ousamos.

Assim, «E já no porto da ínclita Ulisseia» (Os Lusíadas, IV, 84), e já deste lado da amizade, é bom, Poenauta, tê-lo entre nós.

  1. 2. No acto da atribuição do Prémio Vida Literária (2012) pela Associação Portuguesa de Escritores, olhando tardiamente, mas com justiça, a 13 volumes reunidos em dois da Obra Poética. 1960-2000(2002), bem como ao crítico disperso, ao prefaciador, ao editor de Mário Saa, Poesia e Alguma Prosa(2006), entre outras dádivas –, reli Lavra e Pousio (2005), reiterando a paixão pelo desporto, numa Leonor camoniana preparando-se para o salto em altura (p. 85), e Quarteto para as Próximas Chuvas (2008).

Este abre e fecha com «O ser é transformável e transforma-se.», representativo de ecos e toadas – variações em anáfora, discretas repetições em copulativos (verbo e conjunção), dícticos de tempo e lugar – e da acção que sobre nós exerce quem nos sofre. Rareia desenlace («Um dia me olharás e não respondo.» [p. 66]), algum sob modo de «sombras», ou de expressionismo cru, não a metáfora líquida prevalecente:

e a corça de seiva a percorrer

a escuridão dos corpos trucidados. (p. 20)

Há um crescente grau de indissociabilidade, que é a perda de nós mesmos, quando não nos perdemos em enumeração. Veja-se a narrativa em bela redondilha menor (não é única) de “Frio”, que encerra:

Sentado num banco

o frio era tanto

que o frio era eu! (p. 46)

E um discreto Cesário revisto em Álvaro de Campos:

Ó esquinas e portais, tanques e calçadas,

sois coisas que em voragem vão no mundo

e que nestes meus dedos fazem escala! (p. 73)

O real desce ao discurso das formas (há heptassílabos inesperados, outras metrificações discretas) em registos da técnica espacial, do elemento vegetal, do exemplo agrícola ou espécie botânica, que foram os primeiros amores do nosso diplomado e sua originária actividade profissional. Nessa empiria se apoia a quarta parte, ‘O rosto (o rasto) da escrita’, em torno da poética autoral, a que dá passagem “Límpidas palavras” (p. 82), final da terceira parte, ‘Fulgurações’. As palavras “Vêm de dentro” e têm o destino das plantas, que não são senhoras de si mesmas. Sê-lo-á o próprio sujeito? “Ossos do ofício” conclui:

Repito. É nestes dias de sol (de sul)

que eu trabalho.

Mesmo quando apenas sombras

crescem. E a dor é já um sal

irrecusável. (p. 131)

É como se outro mar invadisse o mar de brincar que é a vida. E, neste reino de sombras que o muito ler adensa, só atingíssemos o «vulto» daquilo por que vivemos, situação presente do autor empírico. «Vultos» reiterados encontraremos em Ardorosa Súmula (2016), onde o que arde – motivo dos inícios desta poética – é, agora, o olhar, enquanto regressa, também, uma prosopografia da «escrita que tarda» e Eros renasce, na madureza clássica de “Intensificação”. Sabe bem encerrar com Alberto Caeiro na retentiva, num desses inesperados finais que também marcam João Rui de Sousa:

É em íngremes serranias – e talvez ao luar –

que acompanho o gado (o vulto

das palavras) de que às vezes sou dono

e sou pastor.

Bem junto a ele, e vislumbrando ao longe

ruínas e caminhos, hortejos e silvedos

(e mesmo um corpo em chamas de guitarra),

reencontro o fio das frases e os poemas

− seus currais. (2008: 132)

.

[Publicado em Letras Com Vida. Revista de Literatura, Cultura e Arte, 8, 2016-2017: 209-211.]